Quando uma bienal recebe o nome de Sertão, a primeira imagem que surge é, naturalmente, a do Nordeste brasileiro. É ali que o sertão encontrou uma de suas expressões mais profundas, eternizado pela literatura, pela música, pelas artes visuais e pela memória de um povo que transformou a resistência em identidade. Essa origem não se discute nem se desloca. Mas talvez a maior contribuição da Bienal do Sertão seja justamente demonstrar que o sertão também pode ser compreendido como uma ideia capaz de dialogar com diferentes territórios, sem perder suas raízes.
A itinerância da Bienal revela essa vocação. Ao percorrer diferentes estados, o evento não leva o sertão para outros lugares, como se transportasse uma paisagem ou uma identidade. O que viaja é uma reflexão. Cada edição convida artistas, pesquisadores e o público a pensar o sertão como uma experiência cultural que encontra ressonâncias em distintas realidades brasileiras. A geografia permanece importante, mas deixa de ser a única chave de leitura.

Poucas obras compreenderam essa dimensão com tanta profundidade quanto Os Sertões, de Euclides da Cunha. Muito além do relato sobre Canudos, o livro tornou-se uma interpretação do Brasil. Ao afirmar que “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”, Euclides não descrevia apenas um homem de determinada região. Reconhecia uma extraordinária capacidade de resistência diante das adversidades, uma força construída na relação entre o ser humano, o território e a história.
Mais de um século depois, essa frase continua atravessando gerações porque a força do sertanejo tornou-se uma das formas de compreender o próprio Brasil. Há um sertão em cada um de nós. Não necessariamente marcado pela seca, pelo mandacaru ou pela vastidão do semiárido, mas pelas travessias que enfrentamos ao longo da vida. Todos conhecem alguma forma de escassez, de espera, de luta silenciosa, de recomeço. Todos carregam memórias, perdas, esperanças e a necessidade permanente de seguir adiante.
Esse também é um sertão.
É justamente por isso que a Bienal encontra sentido em sua itinerância. Ela aproxima experiências humanas que, embora distintas, compartilham valores semelhantes: resistência, pertencimento, ancestralidade, memória e criação. Não procura afirmar que todo lugar é sertão em seu sentido histórico. Procura revelar que o espírito sertanejo pode dialogar com inúmeras paisagens brasileiras sem perder sua origem nordestina.
Sob essa perspectiva, imaginar uma edição da Bienal no Espírito Santo deixa de ser uma simples mudança de endereço para tornar-se um encontro cultural. O estado reúne uma impressionante diversidade de povos e tradições: comunidades indígenas, quilombolas, pescadores artesanais, agricultores, descendentes de italianos, pomeranos e tantos outros grupos que construíram modos próprios de viver e preservar suas identidades. São histórias marcadas pelo trabalho, pela permanência e pela capacidade de reinventar o cotidiano diante das transformações do tempo.

O Espírito Santo também possui seus caminhos interiores, suas comunidades afastadas dos grandes centros, suas festas populares, seus saberes transmitidos entre gerações e sua relação profunda com a terra e com a memória. Não se trata de comparar realidades distintas nem de diluir a identidade histórica do sertão nordestino. Trata-se de reconhecer que a cultura brasileira sempre se fortaleceu quando encontrou pontos de diálogo entre diferentes experiências.
A arte tem exatamente essa capacidade. Ela aproxima o que parecia distante, cria pontes onde antes existiam fronteiras e revela afinidades invisíveis ao olhar cotidiano.
A Bienal do Sertão faz isso ao reunir artistas de diferentes regiões para refletir sobre pertencimento, território, identidade e memória. Seu maior mérito talvez não esteja apenas nas obras apresentadas, mas na pergunta que deixa ao público: onde começa e onde termina o sertão?









