A disputa por uma vaga na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales) ganha um marco histórico nestas eleições. Pelo PSOL Claudille vai concorrer a deputada estadual (número 50316) levando ao centro do debate político uma trajetória atravessada por múltiplas vivências: ela é uma mulher preta, trans e surda.
Seu nome foi homologado com as chapas de estadual e federal em convenção do partido na tarde deste sábado (1º) em Vitória, juntamente com o de Carlos Fabian para o Sendo.
Em entrevista exclusiva, concedida com o auxílio de sua intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras), Claudille detalhou suas diretrizes políticas, a necessidade de romper com o desprezo histórico enfrentado por minorias e a urgência de construir uma sociedade fundada na justiça social e na equidade.
“A minha candidatura como deputada estadual tem o objetivo de propor uma reflexão e uma preocupação concreta com a comunidade trans, a comunidade negra e a comunidade surda. A partir dessas três vertentes que me representam, foco em pensar formas reais de inclusão — não apenas na educação, mas abrangendo todas as pessoas com deficiência”, destacou a candidata.
Acessibilidade além do discurso e combate à exploração
Para Claudille, a pauta da acessibilidade no Estado precisa ir além do “acesso superficial” e alcançar transformações estruturais. A candidata aponta que as assimetrias sociais e o modelo de exploração econômica atual aprofundam as vulnerabilidades das populações marginalizadas.
A proposta de seu mandato é combater as opressões que conectam classe social, raça e deficiência, exigindo responsabilidade dos setores públicos e privados:
Equidade no Trabalho: Cobrança por estruturas corporativas e ambientes de trabalho genuinamente inclusivos, que respeitem as singularidades de cada indivíduo e combatam a exploração capitalista.
Acessibilidade Plena: Garantia de direitos e autonomia para todas as pessoas com deficiência nos serviços públicos e espaços urbanos.
Políticas Intersetoriais: Integração entre educação, geração de emprego e bem-estar social para mitigar a vulnerabilidade das periferias.
Resgate ancestral e luta antirracista
Durante a entrevista, Claudille reforçou que sua presença no cenário eleitoral reflete a continuidade de uma longa história de resistência. Ao abordar as marcas do racismo estrutural no Brasil, a pré-candidata ressaltou que a abolição formal não encerrou as dinâmicas de opressão na sociedade contemporânea.
“Mais de 200 anos após a abolição, ainda vemos diversas formas modernas que reproduzem essa escravidão. Chego aqui para colocar o meu corpo e a representação dos meus ancestrais — das minhas avós e dos meus avôs que lutaram. Essa força está dentro de mim em busca de justiça social”, afirmou.
A candidata também enfatizou a defesa intransigente das ações afirmativas, como a preservação e expansão das políticas de cotas, integrando à sua pauta a solidariedade e a luta conjunta com os povos indígenas e tradicionais.
Uma campanha coletiva e plural
Acompanhada por seu esposo e por uma rede de apoio que fortalece sua comunicação em Libras, Claudille reafirma que seu projeto político não é individual, mas fruto de uma construção coletiva de minorias que buscam espaço nas decisões do Estado.
Ao colocar seu nome à disposição do eleitorado capixaba, a candidata convoca a sociedade a superar a apatia e o preconceito:
“É uma luta conjunta que passa pela educação, pelo trabalho e pelos diferentes setores. Pedimos que as pessoas não tenham desprezo, mas que acreditem na mudança e na justiça social para superarmos as desigualdades estruturais”.










