Dia de Santa Marta: o outro lado da discípula que servia

Dia de Santa Marta: o outro lado da discípula que serviaCelebrado pela Igreja Católica em 29 de julho, o Dia de Santa Marta faz referência a uma das mulheres mais conhecidas dos Evangelhos: Marta, irmã de Maria e Lázaro e amiga pessoal de Jesus. Embora nós, protestantes, não encontremos nas Escrituras fundamento para venerar os cristãos que morreram nem dirigir orações a eles, podemos e devemos honrar a memória dos irmãos que nos precederam na fé e aprender com seu testemunho.

Na Bíblia, “santos” são todos aqueles que foram separados por Deus, lavados pelo sangue de Cristo e unidos a Ele pela fé. Os cristãos que morreram estão com o Senhor, enquanto aguardam a ressurreição do corpo no último dia, mas as Escrituras não nos autorizam a invocá-los. Nossas orações são dirigidas a Deus, por meio de Jesus Cristo, pois “há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus” (1 Timóteo 2.5, NVI).

Feita essa necessária distinção, o Dia de Santa Marta oferece uma ótima oportunidade para olharmos novamente para essa discípula. Normalmente, ela é lembrada apenas como a mulher excessivamente preocupada com os afazeres domésticos enquanto sua irmã permanecia sentada aos pés de Jesus.

Essa leitura não está inteiramente errada, mas é incompleta. Marta foi amorosamente corrigida por Cristo, porém não pode ser reduzida ao pior momento de sua caminhada. Lucas 10 apresenta uma discípula sendo ensinada; João 11 revela uma das mais belas confissões de fé dos Evangelhos; e João 12 mostra uma mulher que continuou servindo depois de aprender com Jesus.

Uma mulher que acolheu Jesus

A primeira informação que Lucas nos oferece é extremamente positiva: “Certa mulher chamada Marta o recebeu em sua casa” (Lucas 10.38, NVI).

O verbo grego utilizado pelo evangelista é hypodéchomai, que significa receber ou acolher alguém hospitaleiramente. Antes de aparecer ansiosa, Marta aparece abrindo sua casa para Jesus. Ela colocou seu espaço, seus recursos, seu trabalho e sua mesa à disposição do Senhor.

Receber Jesus e seus discípulos exigia generosidade, disposição e coragem. Cristo enfrentava a crescente oposição das autoridades religiosas. Acolhê-lo significava assumir publicamente uma relação com Ele.

João Calvino observa que Marta e Maria se tornaram conhecidas entre os primeiros cristãos justamente por receberem Cristo com hospitalidade. J. C. Ryle, por sua vez, recorda que as duas irmãs eram discípulas verdadeiras: ambas criam, amavam Jesus e o honravam quando muitos não o faziam.

Marta nos ensina que a fé também se expressa em atitudes concretas. Abrir a casa, repartir a mesa, alimentar quem tem fome e cuidar das necessidades de outras pessoas são formas legítimas de servir a Cristo.

Dia de Santa Marta: o outro lado da discípula que servia

Seu serviço não era pecado

Lucas relata que Marta estava ocupada com “muito serviço”. A palavra grega utilizada é diakonía, da qual deriva o termo “diácono”. Ela descreve serviço, assistência e ministério em benefício de alguém.

Portanto, Marta não estava praticando algo fútil ou pecaminoso. Ela estava servindo Jesus.

Esse detalhe é importante porque algumas interpretações tratam o serviço de Marta como inferior à contemplação de Maria. O próprio Evangelho de João impede essa conclusão. Tempos depois da correção de Jesus, encontramos novamente Marta servindo durante uma refeição oferecida ao Senhor: “Marta servia” (João 12.2, NVI).

Jesus não arrancou de Marta sua personalidade ativa. Ele a santificou. Ela não precisou deixar de ser Marta; precisou aprender a servir como discípula.

O problema, portanto, não era trabalhar para Cristo. O problema surgiu quando o trabalho começou a afastá-la da presença de Cristo. Há uma diferença entre servir a Jesus e estar tão ocupado com as coisas de Jesus que já não conseguimos ouvir Jesus.

Quando o serviço vira ansiedade

Lucas diz que Marta estava “distraída com todos os preparativos” (Lucas 10.40, NVI). O verbo grego perispáō transmite a ideia de alguém puxado ou arrastado em diferentes direções.

Marta estava interiormente fragmentada. O serviço, que deveria ser uma expressão de amor, começou a dominar seu coração. Jesus então lhe disse: “Marta! Marta! Você está preocupada e inquieta com muitas coisas; todavia apenas uma é necessária” (Lucas 10.41-42, NVI).

A ansiedade de Marta produziu uma sequência perigosa. Primeiro, ela se sentiu injustiçada. Depois, comparou-se com Maria. Em seguida, julgou a irmã e terminou questionando o próprio Jesus: “O Senhor não se importa que minha irmã tenha me deixado sozinha com o serviço?”

Charles Spurgeon observa que Marta começou fazendo algo bom, mas permitiu que a agitação perturbasse seu temperamento. Depois de censurar Maria, ela chegou perto de censurar o próprio Senhor.

Esse perigo continua presente na Igreja. Podemos trabalhar, organizar, pregar, cantar, ensinar, cuidar de pessoas e participar de inúmeros ministérios. Entretanto, quando começamos a cobrar reconhecimento, desprezar aqueles que servem de maneira diferente ou pensar que Deus não valoriza suficientemente nosso esforço, o serviço já foi contaminado pelo orgulho.

Marta não precisava apenas de mais uma pessoa na cozinha. Precisava recuperar a paz que havia perdido na presença de Cristo.

Uma fé que corre para Cristo

O outro lado de Marta aparece com ainda mais força em João 11. Quando Lázaro morreu e ela soube que Jesus estava chegando a Betânia, levantou-se e foi imediatamente ao encontro dele.

“Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido”, declarou Marta (João 11.21, NVI).

Suas palavras revelam dor, frustração e uma compreensão ainda limitada. Marta sabia que Jesus poderia ter curado Lázaro, mas não entendia por que Ele demorara. Contudo, sua reação contém uma lição preciosa: ela não se afastou de Cristo por estar decepcionada. Correu para Cristo levando sua decepção.

A fé bíblica não exige que escondamos nossa dor atrás de discursos religiosos. Podemos levar ao Senhor nossos medos, lágrimas, dúvidas e perguntas. Os salmos estão repletos dessa honestidade. O pecado não está em dizer a Deus que estamos sofrendo, mas em abandonar Deus porque não compreendemos seus caminhos.

Antes de narrar a demora de Jesus, João faz questão de afirmar que Ele amava Marta, Maria e Lázaro. A demora de Cristo não significava ausência de amor. O aparente atraso fazia parte de um propósito que Marta ainda não conseguia enxergar.

Uma grande confissão de fé

Foi durante esse diálogo, no momento mais doloroso de sua vida, que Marta pronunciou uma das mais completas declarações sobre Jesus registradas nos Evangelhos:

“Sim, Senhor, eu tenho crido que tu és o Cristo, o Filho de Deus que devia vir ao mundo” (João 11.27, NVI).

No texto grego, Marta emprega o verbo pepísteuka: “tenho crido”. A forma verbal indica uma convicção anteriormente formada cujos efeitos permanecem no presente. Sua fé estava sendo provada pelo luto, mas não havia sido destruída.

Marta reconheceu que Jesus é o Cristo, o Messias prometido; o Filho de Deus; e aquele que veio ao mundo para cumprir o plano divino. Em conteúdo, sua declaração se aproxima da conhecida confissão feita pelo apóstolo Pedro.

A mulher frequentemente lembrada por sua ansiedade também deve ser reconhecida como uma das grandes confessantes da identidade de Jesus.

Marta conhecia a doutrina da ressurreição no último dia, mas ainda precisava compreender algo maior: a ressurreição não era somente um acontecimento futuro. A ressurreição estava diante dela. A esperança cristã não é apenas uma doutrina, uma data ou uma expectativa. A esperança cristã é uma pessoa.

“Eu sou a ressurreição e a vida”, declarou Jesus (João 11.25, NVI).

Marta continuou servindo

A trajetória de Marta apresenta uma transformação belíssima. Depois da correção registrada em Lucas, ela não abandonou o serviço. Em João 12, continua servindo, mas já não aparece reclamando de Maria, comparando-se com a irmã ou tentando determinar o que Jesus deveria fazer.

A disposição permaneceu; o coração parece ter sido aquietado.

Maria e Marta, portanto, não representam dois modelos necessariamente incompatíveis de vida cristã. O discípulo maduro precisa aprender com ambas: primeiro sentar-se aos pés de Jesus para ouvir sua Palavra e, depois, levantar-se para servir.

O problema nunca foi servir demais. O problema é tentar oferecer a Cristo aquilo que não recebemos primeiro de Cristo. Comunhão sem serviço pode se transformar em passividade. Serviço sem comunhão inevitavelmente se transforma em ansiedade, orgulho e ressentimento.

O Evangelho não destrói nossa personalidade. Ele a redime e a coloca sob o senhorio de Jesus.

No Dia de Santa Marta, não precisamos dirigir nossas orações a ela. Podemos, porém, agradecer a Deus pelo testemunho que as Escrituras preservaram e aprender com sua caminhada.

Marta não precisava deixar de servir. Precisava compreender que somente quem primeiro recebe de Cristo consegue servir a Cristo sem transformar o ministério em peso. Antes das mãos ocupadas, Jesus deseja o coração rendido. E aquele que se assenta aos pés do Senhor pode depois se levantar para servi-lo com diligência, alegria e paz.

Gustavo Gouvêa
Gustavo Gouvêahttps://eshoje.com.br/author/gustavo-gouvea/
Jornalista graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em 2009; atuou nos principais veículos de comunicação do ES; tem mestrado em Ciências Sociais pela Ufes (2019), é teólogo formado pelo Cetebes (Centro Teológico Batista do ES) em 2023 e é músico.

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