Há exposições que se organizam em torno de um tema e há aquelas que encontram, na própria matéria, o eixo de sua reflexão. A(s)cender pertence ao segundo grupo. O título mistura dois verbos que diferem por uma só letra e, ao fazê-lo, desloca o olhar do visitante entre o movimento de subir e a experiência da combustão. Essa pequena inflexão linguística torna-se um princípio curatorial. Não falamos sobre representar a ascensão nem ilustrar o fogo, mas sobre reunir trabalhos que compartilham um interesse pela transformação da matéria e pelos estados intermediários que antecedem qualquer forma estabilizada. O percurso conduzido pela curadoria de Vitor Burgo dá condição para que o espaço expositivo se converta em um campo de aproximações entre processos industriais, gestos manuais, memória territorial e invenção formal.
Tanto pela galeria em que a mostra se realiza quanto pelo mote da matéria, há um significado particular ligado ao Espírito Santo. Poucos estados brasileiros mantêm uma relação tão intensa com a mineração, a siderurgia e a circulação do aço. Nossa paisagem foi marcada por portos, pátios industriais e estruturas metálicas que alteraram tanto o horizonte quanto as formas de trabalho. Embora essa exposição fuja com honestidade de transformar esse contexto em ilustração histórica ou comentário político-econômico, é inevitável considerarmos tal desvio como um desagrado. Para devolver o metal à condição de matéria sensível é necessário encarar o sistema de extração e processamento em larga escala que tanto sustenta parte da nossa economia quanto destrói o único mundo no qual nós poderíamos usufruir desse ascender econômico. Somente quando abraçamos as contradições dessa história, assim como ocorre com as heranças de quaisquer materiais, o aço deixaria de aparecer como símbolo do progresso para revelar sua vulnerabilidade. Antes de sustentar edifícios, pontes ou navios, ele atravessa um estado de instabilidade. A temperatura modifica sua resistência, sua memória física e sua capacidade de receber uma nova configuração. Essa passagem permite-nos compreender a proximidade do trabalho artístico com a fabricação industrial sem reduzir um ao outro. Ambos dependem do tempo, do calor, da pressão e da transformação material, mas produzem sentidos distintos para uma mesma substância.
Nas últimas décadas, parte significativa da arte contemporânea voltou sua atenção para os materiais industriais. Embora haja uma rica tradição relacionada ao concretismo brasileiro e ao anterior construtivismo, agora falamos também sobre como esses materiais carregam a história agressiva da modernização e as tentativas de apagamento das tradições e tecnologias não-ocidentais, concentram conflitos ligados ao trabalho, à circulação de mercadorias, ao impacto ambiental e às formas de ocupação do território. O aço, o alumínio e o latão, o vidro, o concreto e o plástico, passaram a ser compreendidos menos como suportes neutros e mais como matérias portadoras de memória. Em A(s)cender, essa discussão aparece na presença física das obras, ainda que o tratamento geral da mostra queira seguir em outra direção. Cada superfície conserva sinais de corte, dobra, solda, encaixe ou pintura. O processo permanece visível. Em vez de ocultar sua fabricação, os trabalhos permitem que o visitante reconheça a distância percorrida entre a matéria bruta e a forma construída.
A requintada espacialidade da mostra reforça essa percepção distanciada, que alguns trabalhos procuram reafirmar com presença. Nesse sentido, é positivo que o percurso não estabeleça hierarquias rígidas entre pintura, escultura e instalação. As obras ocupam paredes, piso e vazios; não há um centro. O visitante reorganiza sua posição diante das peças e descobre relações que dependem da proximidade, da distância e da mudança de perspectiva. Apesar da grande quantidade de trabalhos, a montagem evita a saturação visual. É sempre bom nos lembrarmos de que, em qualquer exposição, o intervalo entre uma obra e outra participa da construção do sentido tanto quanto os próprios objetos. Os vazios permitem que cada conjunto respire e que os materiais revelem sua densidade específica. Nesse sentido, devemos compreender que, quando a iluminação cumpre bem suas funções técnicas, ela tornar-se parte da escrita espacial da mostra. A iluminação produz novas imagens, projeta sombras, prolonga linhas e multiplica volumes sobre paredes e piso. Aqui, o trabalho de Vitor Lourenção deve receber destaque. Em alguns momentos, a sombra apresenta uma espessura semelhante à da matéria metálica, o que faz com que o espaço pareça expandir as esculturas para além de seus limites. Essa escolha impede que o metal permaneça associado apenas ao peso. A incidência luminosa evidencia delicadezas, transparências e intervalos que normalmente escapam ao imaginário industrial.
As pinturas de Milena Almeida constituem um dos momentos em que essa relação entre matéria e luz alcança maior intensidade. O uso do alumínio como suporte rompe a expectativa de uma superfície contínua. A malha metálica poderia apenas funcionar como base silenciosa, mas aqui ela participar da construção da imagem. Rostos aparecem atravessados pela trama do material, enquanto a luz projeta novas configurações sobre a parede. Em obras como Tudo que você podia ser e Cais, a pintura existe simultaneamente em dois planos. Um pertence à superfície pigmentada; o outro nasce da sombra, que prolonga o desenho e cria uma presença instável. A imagem deixa de coincidir consigo mesma.
Samira Pavesi aproxima a exposição da experiência cotidiana da cidade e seus trabalhos transformam fragmentos metálicos em estruturas que recusam estabilidade definitiva. Grades, chapas, fios e outros elementos associados ao espaço urbano já não respondem à lógica da proteção, da contenção ou do fechamento. Em Boca, o aço assume uma condição ambígua. A peça alterna entre abertura e bloqueio, acolhimento e silêncio. Em Gota e Pingo, a rigidez do metal encontra a flexibilidade do barbante e produz uma relação entre tensão e suspensão que impede a leitura do aço como matéria exclusivamente pesada. A artista desloca resíduos industriais para um território em que o desgaste representa possibilidade de reinvenção. O que seria o fim de um ciclo produtivo anuncia-se em novas formas significativas.

As esculturas de Paulo Künsch introduzem outra dimensão dessa investigação material. O latão, a madeira e as técnicas de conformação e brasagem relacionam procedimentos industriais com tradições artesanais. Cada peça conserva a precisão da construção sem abandonar os vestígios da manufatura. Em A(s)cender, Escadaria e Caminhada, as estruturas sugerem deslocamentos interrompidos, percursos possíveis e direções que permanecem abertas. A madeira impede que o metal monopolize a experiência tátil da escultura. Entre ambos, estabelece-se uma convivência entre temperaturas, texturas e temporalidades. A frieza do latão encontra a memória orgânica da madeira e produz um equilíbrio distante da leitura monumental. Enquanto eu conversava com Natan Dias sobre como é divertido brincar com diferenças de escola, poderíamos ter apontado para algumas das peças de Paulo Künsch.
Por falar em Natan Dias, o interesse agora recai sobre o princípio construtivo. Já falei algumas vezes sobre seus trabalhos nessa coluna e a presença de suas peças em diversos espaços expositivos é sempre um agrado. Suas estruturas modulares continuam a desdobrar espacialidades. São esculturas derivadas de sistemas capazes de crescer, interromper-se ou assumir novas configurações sem perder sua identidade formal. A série Incitação à teimosia, assim como Movimento, apresentam estruturas em expansão, como se cada encaixe anunciasse outro ainda por realizar. Em Maquete desejo paz, essa lógica alcança outra dimensão simbólica. A escala reduzida concentra uma reflexão sobre arquitetura, projeto e imaginação. Nessa mostra, fica evidente que os encaixes não são somente internos com relação às peças. Elas adequam-se ao chão (caso de Movimento), às paredes (Incitação à teimosia) e ao plano simbólico-infinito, como ocorre com sua Maquete desejo paz, que se destaca e aponta para saltos entre etapas dos processos que permitem o surgimento das peças.
Em A(s)cender, cada artista estabelece uma relação distinta com a matéria e, por isso, impede que a exposição se converta em uma demonstração de técnicas ou procedimentos. O aço pode aparecer como memória urbana, superfície pictórica, estrutura modular ou vestígio industrial. O alumínio recebe tinta e sombra; o latão conflui joalheria e escultura; a madeira introduz outro ritmo no interior do conjunto; o barbante envolve e ressalta a fragilidade do bruto. O visitante pode compreender que nenhum desses materiais possui significado fixo, pois eles carregam histórias de extração, fabricação, circulação e uso, mas continuam disponíveis para novos imaginários.

Em um momento em que a arte contemporânea procura rever sua relação com recursos naturais, processos produtivos e impactos ambientais, A(s)cender oferece mais uma oportunidade para escaparmos tanto do entusiasmo tecnológico quanto da nostalgia artesanal. É fundamental que a mostra e o público reconheçam que a indústria participa da constituição da paisagem e da experiência cotidiana de maneiras contraditórias; assim como devem lembrar-se de que toda produção material contém uma dimensão sensível que frequentemente permanece reificada.
Ao final, a mostra encontra sua unidade na atenção dedicada aos estados de transformação. Nada parece concluído. A luz modifica os volumes; as sombras ampliam as esculturas; os encaixes sugerem continuidade; as superfícies conservam a memória do fogo, do corte e da dobra. A(s)cender nos lembra de que toda forma é resultado de uma temperatura anterior e que toda matéria guarda, mesmo depois de resfriada, a lembrança daquilo que um dia esteve em combustão.
Revisão: Alana de Oliveira

















