A segunda vaga: o quebra-cabeça de Casagrande e o silêncio estratégico do PSB

Nas rodas políticas do Palácio Anchieta e nas principais sedes partidárias do Espírito Santo, uma certeza e uma grande interrogação ditam o ritmo das conversas de bastidores. A certeza atende pelo nome de Renato Casagrande (PSB). O ex-governador, que se descompatibilizou do cargo em abril para pavimentar seu caminho rumo ao Congresso, entra na disputa com o carimbo de amplo favoritismo a uma das duas cadeiras em jogo para o Senado Federal. A grande interrogação, contudo, repousa exatamente ao seu lado: quem ocupará a segunda vaga na chapa majoritária?

Enquanto o relógio corre para as convenções partidárias, o PSB adota uma postura de cautela calculada. Em conversa com esta coluna, o presidente estadual da sigla, Alberto Gavini, jogou o peso das definições para o dia 25 de julho, data agendada para a convenção eleitoral socialista. Até lá, o desenho oficial do núcleo governista possui apenas duas linhas imutáveis: Ricardo Ferraço (MDB) disputa a reeleição ao governo do Estado e Casagrande lidera a corrida senatorial.

“Nosso candidato a governador é Ricardo e o grupo fechou com ele há mais de um ano. Nosso candidato a senador é Renato Casagrande. Não definimos o segundo nome”, cravou Gavini, delimitando o território inicial das negociações.

Entre a Base Progressista e o Centro

O pragmatismo de Gavini reflete a complexidade de equilibrar uma frente ampla. Por um lado, há uma corrente interna do socialismo capixaba que clama por um alinhamento mais nítido à esquerda, olhando com simpatia para nomes como o do deputado federal Helder Salomão (PT) e defendendo a reeleição do senador Fabiano Contarato (PT).

Questionado sobre essa pressão interna, o dirigente do PSB contornou o debate ideológico com diplomacia, mas manteve a fidelidade aos acordos de cúpula. “Helder é um amigo. Nome que temos muito respeito e até história. Mas nosso candidato a governador é Ricardo”, pontuou. Sobre o atual senador petista, Gavini sinalizou uma viabilidade mais natural dentro do xadrez majoritário: “Contarato é um nome mais possível porque é um nome da linha progressista, mas vamos aguardar decisão do grupo”.

A Incógnita Rose de Freitas

Se a ala esquerda tenta cravar seu espaço, o centro se move com rapidez. O nome da ex-senadora Rose de Freitas (MDB) — que há meses trabalha discretamente o solo capixaba e as conexões em Brasília para retornar ao Senado — ganhou tração pública recentemente ao ser chancelado pelo presidente da Assembleia Legislativa, Marcelo Santos (União Brasil).

Para o PSB, no entanto, a movimentação de Rose ainda é vista como um balão de ensaio que precisa passar pelo crivo da mesa oficial de negociações. Ao analisar o cenário, Gavini tratou a postulação da emedebista com reservas, mas sem fechar portas:

“Rose tem conversa, mas não tem nada oficializado sobre sua candidatura. A única vez que ouvi sobre ela foi no evento do União Brasil, por Marcelo [Santos]. Por enquanto nossa coligação só tem um nome para o Senado, que é Renato. O segundo nome não está fechado. E, se for o de Rose de Freitas o indicado pela coligação, teremos o maior prazer de trabalhar”.

O Fator 25 de Julho

O que a fala do presidente do PSB revela, nas entrelinhas, é o tamanho do condomínio político construído sob a liderança de Casagrande e continuado por Ricardo Ferraço. Com duas vagas para o Senado em disputa, a tendência natural é que uma seja preenchida pelo próprio PSB e a outra sirva como a moeda de troca definitiva para selar a lealdade dos partidos aliados.

A estratégia de adiar a escolha para o limite do prazo legal — o dia 25 de julho — cumpre uma função clássica na cartilha política: evita o desgaste precoce, estica a corda das negociações e dá tempo para que as pesquisas qualitativas de consumo interno apontem qual perfil agrega mais valor à chapa liderada por Ferraço.

Até lá, a segunda vaga do Senado segue como o ativo mais valioso e disputado da política capixaba. Quem conseguir sentar-se nessa cadeira na foto oficial da convenção levará consigo não apenas o tempo de TV e a estrutura partidária, mas a carona no sólido favoritismo de Renato Casagrande.

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