Há alguns meses, os eleitores brasileiros acreditavam que, nas eleições presidenciais de 2026, haveria duas candidaturas, representando cada um dos lados da polarização eleitoral. O lado da esquerda, o de Lula, candidato a reeleição, e o atual governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, representando a direita. Falava-se, no caso dessa construção da direita, que a candidata a vice-presidente poderia ser a ex-primeira dama Michelle Bolsonaro.
Esse edifício político, construído cuidadosamente ao longo dos últimos anos, ruiu de um só golpe quando o ex-presidente Jair Bolsonaro sacou da algibeira o nome de seu filho, Flávio Bolsonaro, como o representante do clã no processo eleitoral. Em um mesmo movimento, foi retirado do páreo aquele que era considerado o mais competitivo quadro da direita brasileira e colocado em risco o seu êxito em competição apertada. Mas, houve um outro movimento.
Inicialmente, o nome do senador Flávio Bolsonaro só foi bem recebido pelo PT, já que Lula nunca acreditou que ele pudesse ter a mesma força que Tarcísio e que seria um candidato mais frágil. Foi quando Flavio começou a crescer. Nos levantamentos estatísticos feitos por pesquisas de opinião a partir do mês de março, o novo candidato do PL começou a crescer, ameaçando seriamente a imaginada facilidade de Lula. Os números foram ficando cada vez mais favoráveis ao jovem senador.
Foi quando surgiu a questão da presença financeira do enroladíssimo ex-banqueiro Daniel Vorcaro no financiamento de um filme sobre a vida do ex-presidente Bolsonaro, com óbvias intenções eleitorais. As cifras do financiamento do filme são pornográficas, de tão alto valor, o que leva todos a pensar que o dinheiro teria outra finalidade dentro do clã. O trajeto tortuoso dos recursos, passando pelos EUA, em um percurso no mínimo inusitado, fez com que a candidatura de Flávio Bolsonaro sofresse o primeiro abalo.
Desde então, eu tenho chamado a atenção para o fato de que a candidatura de Flávio vai derreter. Isso porque a gestão inesperada de um desembargador presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro começou a levantar muitos problemas na política daquele Estado. Toda a malha que vinha caindo nas apurações no Rio de Janeiro era de aliados do senador pelo Rio. Sempre imaginei que chegaria nele, por todas as evidências. As milícias cariocas tinham representação, através do Capitão Adriano da Nóbrega, dentro do seu gabinete da Alerj, por exemplo.
Diante da desconstrução de uma narrativa potente e dos erros de condução política de Eduardo Bolsonaro, que insiste em construir potência em um acordo com o instável presidente Donald Trump, foi ficando claro para os que acompanham o quadro eleitoral que estavam surgindo muitos problemas para um candidato imposto pelo líder máximo da direita brasileira. As candidaturas de Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos foram começando a minar, ainda que timidamente, o maior candidato das direitas. Todo esse enfraquecimento gradual talvez precisasse de um empurrão definitivo para o vácuo; esse é o papel a que se destina Michelle Bolsonaro nesse momento.
Ela tem uma liderança construída em cima de seu perfil de mulher evangélica conservadora, com ideias próprias desse contexto social, mas com inegável apelo eleitoral. O jovem senador parece mesmo ser um homem arrogante, afinal, faz parte do perfil familiar a misoginia, tanto é que o pai sempre precisou da intervenção da esposa para trazer mulheres para o seu eleitorado. Com a passagem dada pelo marido e com sua habilidade e esperteza, foi crescendo dentro do quadro de uma nascente direita brasileira, muito ligada a valores da família tradicional.
Foi assim que ela chegou à presidência do PL mulher e passou a fazer longas viagens por todo o Brasil para trazer essa importante fração dos eleitores para a liderança de um machista tóxico. Deu certo. Ela, uma vez que o marido está em prisão domiciliar, sonhou ser a “assinatura Bolsonaro” da campanha de Tarcísio de Freitas. Isso trouxe a público desavenças familiares há muito levantadas pelas mídias.
Entretanto, ninguém esperava a hostilidade explícita dos seus últimos movimentos. Michelle visivelmente aposta na desintegração da candidatura de Flávio Bolsonaro. Mais do que isso, quer trazer para a sua galeria de troféus esse grande feito: ter sido ela a responsável pelos tiros de misericórdia nas pretensões do enteado. Parece que está dando certo, e ela vai se preservando para a continuidade do jogo político, mostrando que tem dedo para mexer no tabuleiro e expertise para pretensões mais altas.










