Respeito à liberdade de consciência, por João Marcos Bezerra* – jmarcoscb@gmail.com
“Porque vocês, irmãos, foram chamados para viver em liberdade. Não a usem, porém, para satisfazer sua natureza humana. Ao contrário, usem-na para servir uns aos outros em amor. Pois toda a lei pode ser resumida neste único mandamento: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’. Mas, se vocês estão sempre mordendo e devorando uns aos outros, tenham cuidado, pois correm o risco de se destruírem”
(Gálatas 5, NVT)
Em 2014, eu e minha família nos mudamos de Natal/RN para Vitória/ES e percebemos alguns preconceitos contra nordestinos, muitas vezes por desconhecimento da região. Todavia, o momento em que mais nos sentimos discriminados foi durante as eleições presidenciais de 2018.
A onda bolsonarista que atingiu igrejas e muitos cristãos naquele período transformou todos os nordestinos antibolsonaristas em pessoas supostamente manipuladas pelo petismo, apesar de sermos, particularmente, de linha política contrária tanto ao lulismo quanto ao bolsonarismo.
Não apenas conosco, mas em diversas igrejas e grupos cristãos, vimos uma intolerância ao pensamento crítico contrário à direita. Fiquei inconformado porque perdi irmãos em Cristo, vi pessoas sendo perseguidas por ideologias políticas e outras tendo sua fé questionada por não apoiarem o candidato defendido por grandes igrejas.
Sou batista e me questionei: onde estava o princípio da “absoluta liberdade de consciência” dos batistas brasileiros?
O desafio cristão diante das eleições
Em 2026 teremos novamente eleições presidenciais, com a já conhecida disputa política entre direita e esquerda. Como cristãos, como devemos proceder?
O objetivo desta mensagem é apresentar um valor essencial à luz da Bíblia: o respeito ao ser humano e à sua liberdade de consciência. Espero que, a partir desta reflexão, aprendamos como nos comportar no processo eleitoral, tanto no relacionamento entre irmãos em Cristo quanto com todas as pessoas.

O princípio batista da liberdade de consciência
Inicio com o documento Princípios Batistas, da Convenção Batista Brasileira (CBB), na seção O Indivíduo, item 3 — Sua Liberdade, que afirma:
“Os batistas consideram como inalienável a liberdade de consciência, a plena liberdade de religião de todas as pessoas… Tal liberdade não é privilégio concedido por homens, mas direito outorgado por Deus”.
Embora esse documento trate da liberdade de consciência no âmbito religioso, ampliaremos aqui o conceito para alcançar a convivência social e política.
Respeito e dignidade à luz da Bíblia
O dicionário Aurélio define respeito como: “sentimento que leva alguém a tratar outrem com consideração”, isto é, reconhecer o valor do outro.
Biblicamente, podemos afirmar que respeito é reconhecer o outro como imagem de Deus (Gn 1.26–27), digno de amor, dignidade e responsabilidade moral, e tratá-lo como tal.
Já o dicionário Houaiss define liberdade como “faculdade de agir segundo a própria determinação, respeitados os limites legais”; e consciência como “faculdade de julgar moralmente os próprios atos”.
À luz da Bíblia, liberdade de consciência é a condição pela qual o ser humano responde diretamente a Deus, sem coerção religiosa (Rm 14.12). Por reconhecermos que o ser humano foi criado à imagem de Deus, devemos respeitar seu direito de formar, manter ou modificar convicções morais e religiosas sem imposição.
A liberdade cristã no ensino apostólico
A carta do apóstolo Paulo aos Gálatas foi escrita a cristãos que haviam aceitado o Evangelho, mas estavam sendo pressionados a abandonar suas convicções e a praticar a lei de Moisés como meio de salvação. Por isso, Paulo escreveu:
“Estou muito admirado com vocês, pois estão abandonando tão depressa aquele que os chamou por meio da graça de Cristo e estão aceitando outro evangelho”
(Gálatas 1.6, NTLH).
Esse contexto se aproxima muito da reflexão que propomos aqui.

Deus concedeu liberdade de escolha
“Mas, se vocês não quiserem servir o Senhor, escolham hoje a quem vão servir…”
(Josué 24.15a, NAA)
Desde o Antigo Testamento, Deus trata o ser humano como agente moral responsável, e não como marionete. Josué apresenta ao povo a possibilidade real de escolha.
Em Deuteronômio 30.19, Moisés também afirma:
“Hoje lhes dei a escolha entre a vida e a morte, entre bênçãos e maldições. Escolham a vida, para que vocês e seus filhos vivam!”
(NVT)
Deus concedeu ao ser humano a capacidade de discernir o certo e o errado. A aliança com Ele sempre foi baseada na escolha consciente. A obediência verdadeira nasce da convicção, não da imposição.
Se o próprio Senhor respeita a liberdade de consciência, nós não temos o direito de oprimir, desprezar ou agir com intolerância.
Defender a fé sem ferir a consciência do outro
“…insistir que defendam a fé que, de uma vez por todas, foi confiada ao povo santo”
(Judas 1.3b, NVT)
Judas, irmão de Jesus, escreveu à igreja para alertar sobre falsos mestres que ensinavam que uma vida imoral era compatível com o evangelho — o que é mentira.
Pedro, por sua vez, escreveu:
“Estejam sempre preparados para responder a qualquer pessoa que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês”
(1 Pedro 3.15, NVT)
Defender a fé não significa relativizá-la, mas também não autoriza desrespeitar pessoas em nome de Deus. Podemos afirmar nossas convicções com firmeza, sem negar ao outro o direito de discordar.

Conclusão: liberdade que serve pelo amor
“Irmãos, vocês foram chamados para a liberdade. Mas não usem a liberdade para dar ocasião à vontade da carne; ao contrário, sirvam uns aos outros mediante o amor”
(Gálatas 5.13b, NVI)
Cristo nos libertou do pecado e de suas consequências, como ódio, discórdia, ciúmes, ira e divisões. Nossa liberdade não é licença para a arrogância, mas chamado ao amor e ao serviço.
Respeitamos a consciência do outro mesmo quando ele discorda de nós. Testemunhamos sem imposição, sem manipulação. Defendemos a fé com convicção, amor, verdade e suavidade.
Minha oração é que nossa fé seja firmada na Palavra de Deus e guiada pelo Espírito Santo, para respeitarmos toda pessoa e sua liberdade de consciência, em nome de Jesus. Amém.











