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25 de janeiro de 2026
domingo, 25 de janeiro de 2026

“Confluências” e a reafirmação da gravura

A exposição “Confluências”, apresentada no Centro Cultural Sesc Glória como contraponto à mostra internacional “Gravuras do Mundo em Crise: Imprimindo Justiça”, permite a observação de certo panorama global da gravura e uma aproximação com a cena local. Essa iniciativa reconhece a tradição estabelecida no Espírito Santo desde a criação da Escola de Belas Artes na década de 1950, quando a gravura despontou como um dos cursos fundadores da instituição. O ateliê de gravura da Universidade Federal do Espírito Santo mantém, desde então, uma produção consistente que formou sucessivas gerações de artistas dedicados ao meio. A mostra reúne gravadores de três gerações distintas, resultado de décadas de formação e experimentação técnica no estado.

A escolha curatorial de estabelecer esse diálogo entre contextos variados traz à tona questões pertinentes sobre a gravura capixaba no cenário contemporâneo. O Espírito Santo, apesar de sua trajetória histórica no ensino da gravura, ainda ocupa posição periférica nos circuitos nacionais de arte. A proposta de Fernando Gómez Alvarez, curador da mostra local, busca evidenciar a “pujança da gravura capixaba atual”, mas a seleção de obras revela tensões entre amadurecimento técnico e experimentação conceitual.

Podemos nos deter em algumas das peças mais interessantes com relação à vinculação temática. O trabalho de Mariana Reis, “Sem título” (2023), demonstra compreensão sofisticada das possibilidades da xilogravura em grandes dimensões. A matriz de 300 cm x 100 cm em MDF desafia os limites tradicionais do meio e explora a tridimensionalidade, uma investigação coerente com seus interesses híbridos entre artes visuais e medicina veterinária. Não se trata de uma novidade na produção da artista, tanto o formato quanto o assunto.

A criação de “faunas fantásticas anatomicamente possíveis” estabelece território próprio na interseção entre ciência e arte, de modo a utilizar a gravura como técnica de reprodução e como campo de experimentação conceitual. Se voltarmos para sua mostra “Corpora” (Galeria Homero Massena, 2014), encontraremos um conjunto complexo de possibilidades visuais e materiais para a gravura. A consideração de que essa pesquisa possa se estender, mais de dez anos depois, é instigante e reveladora da urgência de um debate que a artista já propunha.

Já a proposta de Yasmine Chicralla Alvarez, “Rugosidades” (2025), articula gravura em relevo com técnica da matriz perdida e suminagashi. Aqui, encontramos um diálogo pertinente entre geografia e artes visuais. A referência ao conceito de rugosidades (Milton Santos pensa elementos do passado que persistem no presente) encontra tradução visual na escolha de materiais reaproveitados (paviflex) e na técnica japonesa de marmorização. Essa peça, em específico, demonstra alta coerência entre procedimento técnico e intenção conceitual, ainda que sua resolução formal permaneça em território investigativo.

O trabalho de Rodolfo Talles Pinheiro Birchler, “Rosa-choque” (2025), apresenta abordagem distinta ao utilizar colagem digital sobre papel couchê. A escolha técnica afasta-se da gravura tradicional e aproxima-se de processos híbridos característicos da produção contemporânea. Das imagens expostas, talvez seja a que mais explicitamente reage à provocação curatorial da mostra internacional.

“Confluências” e a reafirmação da gravura

A intensidade da cor rosa-choque (além do trocadilho textual) em comparação com a violência policial destaca a intenção crítica, mas a obra não parece estabelecer equivalência visual entre a provocação verbal e a solução plástica. A imagem resultante levanta questões sobre a efetividade da escolha técnica em relação ao discurso proposto. Isso não é incomum quando lidamos com gravuras de protesto ou ativistas, quando contidas pela moldura institucional.  Há centenas de anos, ou mais, gravuras são usadas como meios de denúncia. Nem sempre seu habitar natural é o cômodo fechado.

Além do texto de apresentação da mostra, Fernando Gómez Alvarez assina “Pensador” (2024), gravura em relevo com polpa de papel que evidencia sua pesquisa técnica consistente em baixa toxidez e materiais não tradicionais. Trata-se de uma imagem que transita entre impressão e objeto, característica que o artista ressalta em sua “arqueologia da gravura”. Sua produção reflete maturidade no domínio dos processos gráficos e consciência das possibilidades expressivas do meio, ainda que o resultado visual pareça privilegiar a experimentação sobre a articulação de conteúdos críticos mais explícitos.

A proposta curatorial da mostra internacional “Imprimindo Justiça” estabeleceu parâmetros nítidos para a participação dos artistas: reflexão sobre justiça social, questões contemporâneas amplas e uso da gravura como voz para transformação. O texto de Saad Ghosn enfatiza que o tema deve concentrar-se em questões que “nossas sociedades e o mundo enfrentam de maneira ampla”, o que não significa afastar-se de temas pessoais, filosóficos ou existenciais.

A mostra “Confluências”, entretanto, não apresenta um conjunto que possa ser integralmente abarcado por essa proposta. Os trabalhos expostos seguem trajetórias individuais de pesquisa que nem sempre dialogam com as urgências requeridas pela exposição internacional. Tal descompasso não representaria um grande problema conceitual, mais apenas evidencia a escolha curatorial que privilegia a apresentação de um panorama geracional da gravura capixaba a despeito da construção de coesão temática.

“Confluências” e a reafirmação da gravura

A gravura de Yasmine Chicralla Alvarez, certamente, estabelece relação mais direta com questões urbanas e sociais através do conceito de rugosidades, com a articulação entre memória, resistência e paisagem. O trabalho de Rodolfo Talles Pinheiro Birchler enuncia crítica à violência policial, ainda que sua efetividade visual permaneça em questão. Mariana Reis mantém aberta uma porta pela qual muitos se recusam a passar, mas que talvez represente o dilema mais urgente de nossa época: reimaginar nossa animalidade. As demais obras selecionadas concentram-se em investigações formais e técnicas que, embora válidas e interessantes, não necessariamente dialogam com a proposta de justiça social que orienta a mostra internacional. Logo, podemos nos distanciar ainda mais desse jogo e pensar a confluência dos tempos da gravura em nossa cena local.

A inclusão de três gerações de artistas oferece um panorama da evolução do ensino e da prática da gravura no Espírito Santo. A presença de artistas formados pela UFES em diferentes décadas permite observar transformações no entendimento do meio gráfico e suas possibilidades contemporâneas. O Departamento de Artes Visuais da UFES mantém, desde a reestruturação da década de 1970, disciplinas específicas em xilogravura, gravura em metal, litografia e serigrafia, estrutura que possibilita formação técnica consistente. Esse é um legado que fornece solo fértil para o desenvolvimento de novas gerações de artistas. Observar essa espécie de panorama é fundamental para não nos esquecermos disso, na medida em que os currículos de graduações são repensados. Devemos recusar o abandono da construção dedicada dos processos de ensino e aprendizagem, desenvolvidos a médio e longo prazo, em favor de conceitualizações pueris e modismos já obsoletos. Nesse sentido, “Confluências” nos serve bem como defesa e incentivo para a manutenção de nossas oficinas de gravura, dentro e fora da Universidade, em sua complexa diversidade e contemporaneidade. Ao observar esse conjunto, torna-se inegável que a formação de nossos artistas plásticos e visuais deve abraçar, proteger e renovar nossa tradição gravurista.

A qualidade técnica das obras selecionadas atesta a efetividade desse processo formativo e revela questões sobre a relação entre domínio dos meios e articulação de conteúdos críticos ou conceituais. Algumas produções demonstram maior consciência das possibilidades expandidas da gravura no campo da arte contemporânea, enquanto outras permanecem mais próximas de abordagens tradicionais do meio.

A realização da mostra no Centro Cultural Sesc Glória representa oportunidade de ampliação da circulação da produção de gravura capixaba. O Sesc Espírito Santo, ao associar-se ao International Print Exchange Programme, posiciona o estado no circuito global de gravura contemporânea. Tal inserção, no entanto, também expõe as fragilidades estruturais do sistema de arte local. A gravura capixaba, apesar de sua tradição no ensino superior, não consolidou circuito de mercado ou institucional equivalente ao de outros estados.

Em suma: “Confluências” trouxe um recorte da produção gráfica capixaba que evidencia tanto suas qualidades quanto suas limitações. Percebemos o amadurecimento técnico e a diversidade de abordagens, mas sem muita aproximação com a proposta curatorial da mostra internacional. A escolha de reunir artistas de três gerações oferece, certamente, um panorama da gravura no estado, mas dilui a possibilidade de aprofundamento crítico sobre questões contemporâneas urgentes.

A exposição cumpre função importante ao inserir a produção capixaba em contexto internacional de circulação da gravura, mas perde oportunidade de estabelecer posicionamento crítico mais contundente sobre o papel da gravura como instrumento de transformação social (proposta central da mostra do IPEP Índia). O resultado é uma exposição que documenta a vitalidade da produção local sem propor reflexões mais aprofundadas a respeito de sua relevância no contexto contemporâneo ou sua capacidade de responder às premências sociais e políticas.

“Confluências” e a reafirmação da gravuraA tradição da gravura no Espírito Santo, estabelecida há mais de sete décadas, merece reconhecimento e visibilização. “Confluências” contribuiu para esse objetivo, mas também revelou que a consolidação de uma cena artística local demanda mais do que continuidade técnica: exige articulação crítica, inserção institucional consistente e desenvolvimento de estratégias de circulação que ultrapassem os limites regionais.

Revisão: Alana de Oliveira

Rodrigo Hipólito
Rodrigo Hipólito
Mestre e doutorando pelo Programa de Pós-graduação em Artes da Universidade Federal do Espírito Santo. Escritor, historiador da arte, crítico e podcaster. Professor do Departamento de Teoria da Arte e Música (DTAM-UFES, 2015-2020), do Departamento de Comunicação (DEPCOM-UFES, 2023-2025) e dos cursos de Pedagogia e Psicologia da Faculdade Europeia de Vitória (FAEV, 2015-2023). Editor da Revista do Colóquio e redator do site Nota Manuscrita.

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Comentários
  1. muito importante o espírito santo receber uma exposição como esta! mostrando não só a multiplicidade da gravura, como também promovendo discussões nas mais diversas temáticas.

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