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25 de janeiro de 2026
domingo, 25 de janeiro de 2026

Como os cristãos devem tratar pessoas de outras religiões?

Como os cristãos devem tratar pessoas de outras religiões?No dia 21 de janeiro, duas datas provocam uma reflexão necessária e urgente: o Dia Mundial da Religião e o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa.

Em um país plural como o Brasil, marcado por convivência entre diferentes crenças, tradições espirituais e visões de mundo, essas datas nos convidam a ir além do discurso superficial sobre tolerância e a encarar uma pergunta mais profunda, especialmente dirigida aos cristãos: à luz do Evangelho de Jesus Cristo, como devemos tratar pessoas de outras religiões?

A resposta não nasce de slogans, nem de disputas culturais, mas da própria Escritura. O Evangelho oferece princípios claros para uma fé que é convicta em sua verdade, mas humilde em sua postura; firme em sua identidade, mas amorosa em sua relação com o outro.

Dignidade e respeito: todos carregam a imagem de Deus

A Bíblia estabelece, logo no início, um fundamento inegociável para a ética cristã:

“Façamos o ser humano à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1.26–27).

Antes de qualquer distinção religiosa, cultural ou moral, todo ser humano é portador da imagem de Deus. Isso impõe limites claros a qualquer forma de desumanização, desprezo ou violência simbólica ou física.

O pastor e teólogo reformado Tim Keller observava que o cristianismo bíblico é exclusivo em suas afirmações de verdade, mas profundamente inclusivo em sua ética. Em A Fé na Era do Ceticismo, Keller afirma que reconhecer a imagem de Deus no outro impede o cristão de tratá-lo como inimigo cultural ou ameaça existencial. Discordar não autoriza desrespeitar; crer não legitima humilhar.

Em tempos de intolerância religiosa, o cristão não pode agir movido pelo medo ou pela hostilidade, mas pela convicção de que o outro, ainda que pense diferente, possui dignidade dada pelo próprio Criador.

Como os cristãos devem tratar pessoas de outras religiões?
Tim Keller: o cristianismo é exclusivo em suas afirmações de verdade, mas profundamente inclusivo em sua ética

Amar o próximo não é opcional, nem seletivo

Jesus foi categórico:

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22.39).

Quando questionado sobre quem seria esse “próximo”, Jesus responde com a parábola do bom samaritano (Lc 10.25–37). A escolha do samaritano não é acidental: trata-se de alguém visto como herege e impuro pelos judeus. Ainda assim, é ele quem encarna o amor verdadeiro.

O teólogo reformado John Piper destaca que o amor cristão não depende da concordância doutrinária. Para Piper, o amor bíblico não começa com a conversão do outro, mas com o reconhecimento da sua humanidade e da sua necessidade. O cristão ama porque foi amado primeiro, e não como estratégia de convencimento.

Qualquer relação com pessoas de outras religiões que seja marcada por desprezo, ironia ou hostilidade trai o coração do Evangelho. Amar o próximo não é um método; é um mandamento.

Mansidão e respeito no testemunho cristão

O apóstolo Pedro orienta:

“Estejam sempre preparados para responder a todo aquele que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês, contudo, façam isso com mansidão e respeito” (1Pe 3.15).

A defesa da fé cristã nunca foi autorizada a ser agressiva. Verdade sem amor se transforma em arma; convicção sem mansidão vira arrogância.

Kevin DeYoung alerta que, especialmente nas redes sociais, muitos cristãos confundem coragem doutrinária com beligerância cultural. Para ele, a mansidão não revela insegurança, mas confiança na soberania de Deus. Quem confia na verdade do Evangelho não precisa gritar, humilhar ou atacar.

Em um cenário de polarização religiosa, a forma como o cristão fala comunica tanto quanto aquilo que ele diz. Defender a verdade sem respeito é negar o Cristo que é a própria Verdade.

Como os cristãos devem tratar pessoas de outras religiões?
Kevin De Young: mansidão não revela insegurança, mas confiança na soberania de Deus

Nenhuma coerção, nenhuma violência em nome da fé

Jesus declarou diante de Pilatos:

“O meu Reino não é deste mundo” (Jo 18.36).

E o profeta Zacarias já havia anunciado:

“Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito” (Zc 4.6).

O Reino de Deus não avança por imposição política, coerção cultural ou violência religiosa. Sempre que a fé cristã recorre à força, ela deixa de ser testemunho e se torna ideologia.

O teólogo reformado Michael Horton é direto ao afirmar que a igreja é chamada a persuadir pela Palavra e pelo exemplo, não a dominar pelo poder. Qualquer tentativa de impor a fé contradiz o próprio Cristo, que rejeitou o caminho da violência e do domínio.

Por isso, ataques a terreiros, sinagogas, mesquitas ou a qualquer espaço religioso não podem ser relativizados. Intolerância religiosa é pecado, ainda que seja praticada em nome de uma suposta defesa da fé cristã. Além disso, é crime.

Como os cristãos devem tratar pessoas de outras religiões?
Ataques a terreiros, sinagogas, mesquitas ou a qualquer espaço religioso não podem ser relativizados; intolerância religiosa é pecado. E é crime

Convivência pacífica como expressão do Evangelho

O apóstolo Paulo escreve a uma igreja minoritária e pressionada:

“Se possível, no que depender de vocês, vivam em paz com todos” (Rm 12.18).

Viver em paz não é abrir mão da identidade cristã, mas demonstrar maturidade espiritual. O teólogo Miroslav Volf descreve essa postura como um “abraço sem absorção”: convivência real, sem sincretismo, mas também sem hostilidade.

O cristão é chamado a conviver com o diferente sem medo, sem paranoia cultural e sem ódio. Em um mundo marcado pela intolerância, a fé cristã é chamada a ser sinal de reconciliação.

Uma fé pública que reflete o Reino

À luz do Evangelho, os cristãos não são chamados a vencer guerras religiosas, mas a encarnar o Reino de Deus. Em um tempo em que a intolerância cresce e o discurso se radicaliza, talvez o testemunho mais fiel não seja o mais barulhento, mas o mais parecido com Cristo.

Celebrar o Dia Mundial da Religião e o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa é mais do que reconhecer a diversidade: é reafirmar que a fé cristã, quando verdadeiramente enraizada no Evangelho, não gera medo do outro, mas compromisso com a dignidade humana, o amor ao próximo e a paz.

Gustavo Gouvêa
Gustavo Gouvêahttps://eshoje.com.br/author/gustavo-gouvea/
Jornalista graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em 2009; atuou nos principais veículos de comunicação do ES; tem mestrado em Ciências Sociais pela Ufes (2019) e é teólogo formado pelo Cetebes (Centro Teológico Batista do ES).

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Comentários
  1. ALGUÉM PODE EXPLICAR?

    NO DIA 17 DE OUTUBRO DE 2025, LEMOS AQUI O TEXTO

    Família tradicional na Bíblia: uma resposta a Flávio Dino.

    HOJE, PUBLICAM ESSE TEXTO.

    ALGUÉM PODE EXPLICAR?

    OBRIGADO.

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