Nesta quarta-feira, 14 de janeiro, celebramos o Dia do Enfermo, uma data que nos convida a olhar para a realidade de milhões de pessoas que vivem com enfermidades, limitações e dores.
No Brasil, cerca de 40% da população adulta — aproximadamente 57,4 milhões de pessoas — vive com ao menos uma doença crônica não transmissível, como hipertensão, diabetes, depressão ou problemas cardíacos, que impactam sua qualidade de vida e provocam sofrimento contínuo. Essas enfermidades respondem por mais de 72% das causas de morte no país.
No mundo, as doenças crônicas também dominam o panorama de saúde global, respondendo por dezenas de milhões de vidas perdidas a cada ano e refletindo desafios que vão desde o envelhecimento populacional até estilos de vida e desigualdades no acesso ao cuidado.
A condição humana sob o olhar do Evangelho
Para a fé cristã, a doença revela uma verdade profunda: toda a humanidade é frágil, dependente e marcada pela finitude. O profeta Isaías escreve sobre o Servo do Senhor (Jesus Cristo):
“Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e sobre si levou as nossas doenças” (Isaías 53:4)
Este versículo não fala apenas de uma ideia abstrata, mas de um Deus que entra na história humana e conhece a dor por dentro — não como espectador distante, mas como aquele que se identifica com a nossa condição debilitada.
Jesus repete essa perspectiva no Evangelho de Marcos, proclamando sua missão aos marginalizados, inclusive aos doentes:
“Os sãos não precisam de médico, mas sim os doentes” (Marcos 2:17)
O próprio Cristo se aproxima, toca, cura e restaura — gestos que expressam a compaixão divina e denunciam qualquer cosmologia que veja o enfermo como “falha humana” ou mero peso social.
Providência de Deus na enfermidade
Na tradição reformada, teólogos clássicos e modernos têm refletido sobre sofrimento e enfermidade com profundidade.
João Calvino, nas suas Institutas da Religião Cristã, afirma que a providência de Deus envolve cada aspecto da vida humana, inclusive a dor e a enfermidade, não como castigo caprichoso, mas como realidade da condição caída que pode ser usada para nos conformar mais plenamente à imagem de Cristo — um processo doloroso, mas redentor.
No contexto contemporâneo, Tim Keller observa que a cultura moderna frequentemente trata a doença como algo a evitar a qualquer custo, associando valor à saúde e produtividade. O Evangelho, ao contrário, afirma que o valor da pessoa não está em sua capacidade física, mas em seu valor diante de Deus, e que em Cristo há dignidade e esperança mesmo na fraqueza.

Aplicações para o tempo presente
Vivemos em sociedades marcadas por desigualdade no acesso à saúde; estresse, ansiedade e sofrimento psíquico; idealização da autonomia e desempenho físico.
Esses elementos tornam a experiência do enfermo ainda mais complexa. A prevalência de doenças crônicas no Brasil — com milhões de pessoas convivendo diariamente com limitações — nos chama a uma ética pública cristã: cuidar do próximo não apenas em palavras, mas em políticas públicas, solidariedade comunitária e atenção pastoral verdadeira.
O Evangelho nos desafia a ir além de slogans simplistas de “cura imediata” ou “pensamento positivo”. Ele nos convida a uma compaixão que acompanha, que escuta dores prolongadas, que dá dignidade a quem é descartado ou invisibilizado.
Esperança que não nega a realidade
A fé cristã não romantiza a dor nem promete explicações fáceis. Mas ela proclama um sentido que atravessa a desesperança: em Cristo, nenhum sofrimento é ignorado. A cruz revela um Deus que sofre com seu povo e que, ao ressuscitar, inaugura uma promessa de restauração plena — um destino final em que “ele enxugará dos seus olhos toda lágrima” (Apocalipse 21:4).
No Dia do Enfermo, essa esperança precisa se traduzir em voz pública: defendendo o acesso universal à saúde, combatendo o estigma social contra pessoas fragilizadas, e promovendo uma cultura de cuidado, dignidade e comunidade.

Uma sociedade que aprende com os enfermos
O cristianismo nos ensina que a enfermidade humana é condição universal, mas que em Cristo há presença, sentido e promessa final. Neste dia 14 de janeiro, ao lembrarmos milhões de brasileiros que convivem com doenças crônicas e dores, somos chamados a viver a fé pública: comprometidos com a dignidade humana, acompanhando os frágeis, denunciando injustiças e proclamando a esperança que só o Evangelho oferece.
A fé cristã não explica toda dor, mas garante que nenhuma dor é invisível a Deus.
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