Homero Junger Mafra
Homero Junger Mafra
Advogado, ex-presidente da OAB-ES por 3 mandatos, professor de Processo Penal, marido da Ligia Mafra e pai da Laura.
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

E dá-lhe Fogo!

Que tenho amores e paixões, todos sabem.

Ligia e Laura são “hors concours” e isso digo sempre, pois são mesmo. Ligia me lembra “Ela”, pelos versos de Gil: “Minha música/ musa única, mãe dos meus filhos / ilha de amor. Ela / Ela que me faz um navegador.” Laura é fruto, raiz, que pinta (literalmente me pinta), faz com o pai o que quer, me transforma, transborda, canta o hino junto comigo e sozinha.

Mas tenho paixões outras. Cuba, Havana e, desde que me entendo, sou “Carlos Roberto e Gerson, Rogerio, Roberto, Jairzinho – meu grande ídolo e que me fez mais ainda torcer pelo Glorioso – e Paulo Cesar”, sou Botafogo, sou Glorioso, fui Marinho, fui o melhor goleiro do Brasil no seu tempo (Jeferson, óbvio), vesti a Celeste Alvinegra de Loco Abreu numa Copa do Mundo, sou do time que (até hoje) deu mais jogadores para a Seleção Brasileira quando a seleção era a Seleção Brasileira e não esse catado de agora, sou Garrincha, Nilton Santos e Didi.

Fui Heleno de Freitas, fui Manga, um dos melhores goleiros da história do futebol brasileiro em todos os tempos e com Manga gastei o bicho contra o Flamengo na véspera dos jogos, fui Quarentinha, Amarildo e Zagalo, fui Biriba, cachorro mascote, e carrego comigo todas as superstições, a ponto de não ver os jogos da Libertadores, porque não vi o começo e deu certo, então não vi mais nenhum. Já pensou se eu vejo a final e o Fogão perde? A culpa ia ser minha. “Bobagem, cara, isso não existe.” Eu sei. Racionalmente eu sei. Tenho certeza que não existe. Mas sou Botafoguense desde antes de nascer e Botafoguense é assim, não é mesmo Toinha?

De repente, começamos a ganhar de novo e agora os invejosos, os que não  conhecem nossa história nos chamam de bairro, sem conhecer nossa alma, a verdadeira alma alvinegra e nossa história, nós que em 62, com Garrincha, ganhamos a Copa, quase que sozinho, que Pelé machucou e Garrincha levou a seleção nas costas, fazendo gol de todo jeito.

Os que dizem que somos poucos, não sabem é que, na verdade somos discretos. Estamos em todos os pontos, guardando a estrela solitária. E onde quer que nos procurem, vão nos encontrar, curtindo a delícia de ser botafoguense.

“Tu és o Glorioso”, cantamos em nosso hino, como ninguém mais pode cantar.

Nossas crônicas de vitória? Foram e serão escritas por João Saldanha, Sandro Moreyra, Armando Nogueira, Clarice Lispector, nossos versos vêm de Vinicius de Moraes e nossa música tem Beth Carvalho, Agnaldo Timóteo e Zeca Pagodinho. Problema jurídico? A gente convoca Evandro Lins e Silva.

Ser botafoguense é ser diferente. Não é sair ganhando títulos a todo instante, a qualquer hora, que assim fica banal. Isso nós deixamos para os comuns, para quem não sabe o que ser cantado em verso por  Vinicius de Morais: “Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster: / O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha? O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal? / O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?

Sofreram muito, falam os que não nos conhecem! Que nada.

Curtimos cada título, vivemos cada momento de nossas muitas glórias, saboreando-as, especiais que são.

Se a alegria foi nossa com Garrincha e Marinho Bruxa, a rebeldia nós a inauguramos com Heleno, a tornamos definitiva com Afonsinho e a perpetuamos em Paulo César, cada um a seu modo denunciando as dores de seu tempo.

Somos hoje Campeões da Libertadores. E domingo poderemos ser, ou não, o campeão do Brasil. E daí? No fundo, pouco importa.

O que importa mesmo é ser Botafogo e sentir como Armando Nogueira:

“O Botafogo é bem mais que um clube – é uma predestinação celestial. Seu símbolo é uma entidade divina. Feliz da criatura que tem por guia e emblema uma estrela. Por isso é que o Botafogo está sempre no caminho certo. O caminho da luz. Feliz do clube que tem por escudo uma invenção de Deus.

Foste herói em cada jogo, Botafogo
Por isso é que tu és e hás de ser nosso imenso prazer
Tradições aos milhões tens também
Tu és o glorioso
Honrando as cores do Brasil de nossa gente
Na estrada dos louros, um facho de luz
Tua estrela solitária te conduz
Botafogo, Botafogo.

Homero Junger Mafra
Homero Junger Mafra
Advogado, ex-presidente da OAB-ES por 3 mandatos, professor de Processo Penal, marido da Ligia Mafra e pai da Laura.

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