Roberta D'Albuquerque

Roberta D'Albuquerque é psicanalista, autora de Quem manda aqui sou eu - Verdades inconfessàveis sobre a maternidade. Criou o portal A Verdade é Que... Existem mil maneiras de maternar. E escreve semanalmente sobre família e infância para vários jornais do Brasil.

Há seis meses, foi encontrada em Nova York uma caixa que esteve perdida pelos últimos quarenta anos. Eram 2.924 fotografias feitas em parques da cidade no verão de 1978. Quarenta anos! Foi o tempo que ficaram esquecidas, ou melhor, que permaneceram distante dos olhos de qualquer pessoa. O que não significa que estavam esquecidas. As fotos? Sim, são lindas, comoventes. Comoventes como os verões.

Não há época do ano, para mim, que cheire mais a esperança. Especialmente, para nós, que crescemos no hemisfério sul que experimentamos as viradas de ano durante a estação. É como se a partir do sol e do calor tudo pudesse mudar.

Penso em minhas recordações da infância, nas imagens de minha infância e as que estão mais nítidas em minha memória se concentram nos meses de calor. Há sempre um biquíni de babados, um picolé derretido na mão, um mar ao fundo, um banho de mangueira.

No entanto, de todas as fotografias que vi a que mais me comoveu foi a de um grupo de jovens adultos pulando corda. Brincavam em um parque, não havia crianças por perto, não o faziam para entreter ninguém, nem para acompanhar filhos ou alunos. Pareciam levar a brincadeira a sério. Divertiam-se, uns descalços, outras com saltos de plataforma baixa, havia algo de competição em seus olhares, sorrisos espertos experimentavam a sensação de se aproximar e se afastar do chão por prazer. Pulavam para eles.

Nasci no mesmo verão de 1978. Desde que vi a fotografia do grupo tenho pensado que há de pular cordas. Sejam elas quais forem. Há de fazer por nós, há de fabricar deliberadamente as próximas recordações. Tenho pensado que vale investir no que não está esquecido, ainda que esteja distante dos olhos. No que nos faz verão. Bora?

Ps: as fotos estão expostas desde o último dia 3 até 14 de junho, na Arsenal Gallery, no Central Park, e no site do The New York Times.

A imagem que ilustra este texto é de Daniele Romeobelli

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