Outubro Rosa: avanços no tratamento do câncer de mama aumentam eficácia, mas podem ficar restritos a poucos

O tratamento do câncer de mama passa por uma das maiores transformações de sua história, impulsionado pela medicina de precisão, pelo conhecimento da biologia tumoral e pelo desenvolvimento de novas terapias. O Brasil deve registrar cerca de 78,6 mil novos casos da doença por ano entre 2026 e 2028, segundo estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA).

A oncologia deixou de lado a lógica de tratamentos padronizados apenas pelas características clínicas e anatômicas da doença. Agora, incorpora de forma crescente as características biológicas e moleculares de cada tumor.

Essa mudança permite individualizar o tratamento de acordo com o subtipo da doença, como triplo-negativo, HER2 positivo, expressão de receptores hormonais, presença de determinados biomarcadores e alterações genéticas específicas.

“Hoje, não tratamos apenas o ‘câncer de mama’. Consideramos o subtipo da doença, as características biológicas do tumor e as particularidades de cada paciente”, explica a oncologista clínica Juliana Alvarenga. “A identificação de biomarcadores e alterações moleculares permite selecionar melhor os tratamentos com maior probabilidade de benefício, tornando a terapia cada vez mais individualizada.”

Outubro Rosa: avanços no tratamento do câncer de mama aumentam eficácia, mas podem ficar restritos a poucos
Juliana Alvarenga Rocha – Foto: divulgação

Entre as principais inovações já incorporadas à prática clínica e aquelas que devem ganhar espaço nos próximos anos, estão os conjugados anticorpo-fármaco (ADCs). Eles permitem uma entrega mais direcionada do medicamento às células que expressam determinado alvo, ampliando as possibilidades terapêuticas em diferentes subtipos da doença, inclusive em cenários com poucas opções de tratamento.

Outra estratégia é a imunoterapia perioperatória. Em pacientes selecionadas com câncer de mama triplo-negativo em estágio inicial e de alto risco, a associação da imunoterapia e quimioterapia antes da cirurgia, seguida da manutenção da imunoterapia após o procedimento, demonstrou diminuição do risco de recidiva e ganho em sobrevida global.

Essa estratégia exemplifica outra mudança importante da oncologia moderna: utilizar tratamentos sistêmicos precocemente não apenas para reduzir o tumor antes da cirurgia, mas também para diminuir o risco de recidiva da doença.

A biópsia líquida e o DNA tumoral circulante (ctDNA) também avançam. A análise do DNA tumoral circulante no sangue é uma das áreas de maior progresso na oncologia de precisão e começa a transformar a forma como a evolução da doença pode ser acompanhada.

Na área de diagnóstico, algoritmos de inteligência artificial integrados à mamografia e à ressonância magnética já auxiliam radiologistas a identificar lesões suspeitas em estágios extremamente precoces e em mamas densas, onde a visualização costuma ser mais complexa.

Se parte dos avanços permite intensificar o tratamento quando necessário, a medicina de precisão também caminha na direção oposta: identificar pacientes que podem ser tratadas com menos intervenções sem comprometer os resultados oncológicos.

“O futuro aponta para uma utilização cada vez maior do conhecimento biológico e molecular para identificar não apenas quem precisa de tratamentos mais intensivos, mas também quem pode receber estratégias menos agressivas com segurança. Em grupos selecionados, isso pode significar cirurgias mais conservadoras e até evitar determinados tratamentos, incluindo a quimioterapia convencional, sem comprometer as chances de controle e cura”, afirma Alvarenga.

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