Quando uma mulher diz “meu cabelo está caindo”, quase sempre imagina um único problema. No consultório, porém, a realidade é mais complexa. Segundo Mariana Wogel, duas das causas mais comuns de perda capilar em mulheres, o eflúvio telógeno e a alopecia androgenética, podem aparecer juntas, exigindo uma leitura mais cuidadosa dos sinais antes de escolher o tratamento.
“Um dos erros que vejo com frequência é tratar toda queda de cabelo como se fosse igual. Em muitas mulheres, não há apenas uma causa. O cabelo pode estar respondendo a um estresse recente e, ao mesmo tempo, a uma predisposição genética que vai afinando os fios aos poucos”, afirma.
A observação ecoa preocupações já descritas na literatura dermatológica. Estudos destacam que diferenciar alopecia de padrão feminino de eflúvio telógeno, e reconhecer quando os dois quadros coexistem, é um dos principais desafios na avaliação da alopecia difusa em mulheres.
Duas quedas diferentes, muitas vezes confundidas
O eflúvio telógeno é caracterizado por um aumento da queda diária de fios, geralmente de forma difusa. Entre os gatilhos mais comuns estão: gestação e pós-parto, cirurgias, infecções, emagrecimento rápido, dietas restritivas, períodos de estresse intenso e deficiências nutricionais, como ferritina baixa.
Na prática, a mulher percebe mais cabelo no ralo do chuveiro, na escova ou no travesseiro. O quadro é descrito como autolimitado, com duração típica de dois a quatro meses, quando não há outra doença associada.
A alopecia androgenética, por outro lado, não se manifesta principalmente como queda intensa. O problema central é a miniaturização: fios que eram grossos e longos passam a nascer mais finos, curtos e frágeis. Nas mulheres, o padrão costuma ser de afinamento no topo da cabeça, com alargamento da risca e perda gradual de volume.
A diferença está no ritmo e na forma como o cabelo muda.
“No eflúvio, o que chama atenção é o aumento da quantidade de fios que caem. Na alopecia androgenética, o cabelo vai mudando de textura e densidade: o rabo de cavalo fica mais fino, a risca aumenta, o couro cabeludo aparece em áreas que antes estavam cobertas. A mesma mulher pode ter os dois processos andando juntos”, explica a Dra. Mariana.
Por que isso importa para quem busca tratamento?
Quando a queda é tratada como um problema único, as intervenções tendem a ser genéricas: shampoos fortalecedores, vitaminas “para cabelo”, fórmulas prontas. Se a paciente está vivendo um eflúvio telógeno após um gatilho claro, como uma infecção ou uma cirurgia, parte da recuperação depende da resolução do evento e do tempo.
Se, ao mesmo tempo, existe uma alopecia androgenética em curso, apenas esperar o eflúvio passar sem cuidar da predisposição genética pode significar perder a chance de preservar mais folículos.
“Se eu parto do princípio de que toda queda é igual, posso apostar apenas em fazer o fio crescer. Mas, se entendo que há uma alopecia de padrão genético por trás, preciso pensar em estratégias que protejam os folículos a longo prazo, e não apenas em intervenções pontuais”, diz Wogel.
O papel da perimenopausa e das alterações hormonais
Para mulheres na perimenopausa, a situação pode se tornar ainda mais complexa. Oscilações de estrogênio e progesterona podem contribuir para mudanças no ciclo capilar, tornar o afinamento mais perceptível e, em alguns casos, favorecer a associação de eflúvio telógeno com alopecia androgenética.
“Quando há gestação, perda de peso, estresse intenso e perimenopausa na mesma história, não faz sentido resumir a queda a um único rótulo. O cabelo está respondendo a vários fatores ao mesmo tempo”, observa a nutróloga.
A avaliação começa pela história clínica: quando a queda começou, quanto tempo dura, se houve eventos gatilhos (como infecção, cirurgia, gestação ou dieta), como era o cabelo antes, qual padrão de rarefação e quais outros sintomas estão presentes.
O exame do couro cabeludo ajuda a diferenciar os quadros. Na alopecia de padrão feminino, o afinamento tende a se concentrar na região frontal e no topo, com preservação relativa da área occipital. Em eflúvio telógeno, a distribuição é mais difusa.
Ferramentas como a tricoscopia, exame que amplia a visualização dos fios e folículos, têm ganhado destaque na diferenciação. Estudos mostram que alterações como diversidade de diâmetro dos fios, aumento de pelos finos (vellus), alteração na unidade folicular e sinais ao redor dos folículos são mais comuns na alopecia de padrão feminino, enquanto o eflúvio telógeno não apresenta critérios específicos tão marcantes.
“Hoje, temos formas de olhar o couro cabeludo com mais detalhe, sem depender apenas da percepção da quantidade de fios que caem. Isso ajuda a reconhecer quando existe uma alopecia androgenética associada e quando estamos diante principalmente de um eflúvio”, explica Mariana.
Exames laboratoriais podem ser solicitados conforme a história: ferritina sérica, função tireoidiana, vitamina B12, vitamina D, hemograma e outros, sempre direcionados aos sinais e sintomas da paciente.
Tratamento vai além de shampoo e vitamina
A médica ressalta que, diante de uma queixa de queda, a meta não é apenas “fazer nascer cabelo”, mas entender o que está levando o fio a cair e o folículo a miniaturizar.
“O tratamento não se resume a um shampoo fortificante ou a uma fórmula vitamínica. Em alguns casos, é preciso corrigir deficiências nutricionais, tratar alterações da tireoide, rever medicamentos, apoiar o manejo do estresse, olhar para hormônios e, quando indicado, discutir terapias que atuam diretamente sobre o folículo”, afirma.
A alimentação pode contribuir para reduzir o impacto do eflúvio quando há relação com inadequação nutricional, mas não substitui o cuidado específico para alopecia androgenética. Proteína suficiente, níveis adequados de ferro, zinco, vitamina B12 e outras vitaminas são importantes para o ciclo capilar, mas não revertem sozinhos uma predisposição genética.
Para a especialista, o ponto central é abandonar a ideia de que toda queda responde da mesma forma a produtos de prateleira.
“Quando uma mulher diz que o cabelo está caindo, a minha primeira pergunta não é ‘qual vitamina você tomou?’, mas ‘por que esse cabelo está caindo?’. Só entender a causa permite escolher o caminho certo”, conclui Mariana Wogel.










