Cuidados paliativos crescem no Brasil, mas acesso ainda é desigual

O número de serviços de cuidados paliativos no Brasil cresceu 80,7% entre 2022 e 2025, passando de 234 para 423 unidades. Apesar do avanço, a oferta ainda está concentrada principalmente nas regiões mais populosas e nas capitais, deixando pacientes do interior com mais dificuldade para ter acesso a esse tipo de assistência.

Os dados são do Atlas Brasileiro de Cuidados Paliativos 2025, da Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP). Segundo o levantamento, 40% dos programas estão no Sudeste, enquanto apenas 3% ficam na região Norte. Além disso, 65% dos serviços estão instalados nas capitais.

A ANCP estima que mais de 625 mil brasileiros necessitem de cuidados paliativos todos os anos. A demanda deve aumentar nos próximos anos com o envelhecimento da população e a maior ocorrência de doenças crônicas e progressivas.

Atendimento não é só para pacientes em fase final

Os cuidados paliativos podem ser indicados para pessoas com doenças graves, ativas e progressivas, independentemente de estarem nos momentos finais da vida. O objetivo é controlar sintomas, reduzir o sofrimento e melhorar a qualidade de vida do paciente e de seus familiares.

De acordo com o levantamento, 76% dos programas atendem pessoas com câncer, doenças cardiovasculares, neurológicas, respiratórias, renais e outras condições crônicas.

Para o advogado especialista em direito médico e presidente da Sociedade Brasileira de Direito Médico e Bioética (Anadem), Raul Canal, o aumento no número de serviços representa um avanço, mas não significa que o acesso tenha sido universalizado.

“Quase dobrar o número de programas é um avanço, mas não significa que o Brasil tenha universalizado o acesso aos cuidados paliativos. Quando 65% dos serviços estão nas capitais, o número total pode esconder uma desigualdade importante”, afirma.

Segundo Canal, a ideia de que os cuidados paliativos são destinados apenas a quem está no fim da vida também pode dificultar o encaminhamento dos pacientes.

“Ainda existe a ideia de que o cuidado paliativo começa quando não há mais nada a fazer, mas essa compreensão pode afastar pacientes de uma assistência que também é um direito assegurado por lei. Isso pode postergar o controle de sintomas e comprometer a qualidade de vida”, diz.

Desafio é levar atendimento para o interior

A concentração dos serviços nas capitais é um dos principais desafios para a expansão da assistência. A Política Nacional de Cuidados Paliativos estabelece diretrizes para organizar esse atendimento, mas a ampliação da rede depende da integração entre hospitais, atenção primária e assistência domiciliar.

A necessidade de ampliar essa estrutura também está relacionada à mudança no perfil da população brasileira. Com o envelhecimento e o aumento das doenças crônicas e progressivas, a tendência é de crescimento da demanda por acompanhamento especializado.

“O Brasil está aumentando a oferta de cuidados paliativos ao mesmo tempo em que terá uma população cada vez mais envelhecida e com maior prevalência de doenças crônicas e progressivas. O Estatuto dos Direitos do Paciente, em vigor desde abril deste ano, vem reforçar que esse atendimento é um direito do paciente, incluindo o acesso a uma assistência livre de dor e ao apoio aos familiares”, afirma Canal.

Para o especialista, o crescimento da rede precisa ocorrer também fora dos grandes centros. “Se a expansão permanecer concentrada nas capitais, existe o risco de ampliar a estrutura sem enfrentar a desigualdade de acesso. O desafio agora é fazer a rede avançar na direção de onde a demanda por esses serviços também está crescendo”, conclui.

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