Avanço da terapia antirretroviral impõe desafio do envelhecimento com HIV

O sucesso do tratamento antirretroviral transformou o diagnóstico de HIV em uma condição crônica, mas trouxe um desafio inédito para a saúde pública: o envelhecimento com HIV no ES e no mundo. Um relatório da comissão da revista The Lancet HIV, divulgado no congresso internacional de Aids no Rio de Janeiro, estima que, até 2040, 20,2 milhões de pessoas com 50 anos ou mais viverão com o vírus — o equivalente a 51% do total de infectados. O levantamento aponta que a maioria desse público (96%) estará em países de média e baixa renda, como o Brasil.

“A idade fisiológica provavelmente é um guia melhor para o manejo clínico do que a idade cronológica”, afirma Amy Justice, uma das autoras principais do estudo ao lado de Keri Althoff.

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| IMPACTO DO HIV NA EXPECTATIVA DE SOBREVIDA FISIOLÓGICA (AOS 65 ANOS)          |
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| Homens com HIV   | Expectativa equivalente a alguém 13,5 anos mais velho      |
| Mulheres com HIV | Expectativa equivalente a alguém 11,6 anos mais velha      |
| Marcadores no DNA| Idade biológica de 3,6 a 5,2 anos acima da idade real      |
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Fonte: Relatório da Comissão The Lancet HIV

Vírus acelera idade biológica e antecipa doenças crônicas em pacientes

Os dados do estudo revelam uma disparidade alarmante entre a idade cronológica e a fisiológica de quem vive com a infecção. Mesmo após a supressão viral, a inflamação crônica e a disfunção imunológica fazem com que os pacientes corram riscos precoces de doenças cardiovasculares, hepáticas, renais e câncer.

A proliferação do vírus sem controle nos anos 1990 e 2000 — quando os protocolos recomendavam aguardar a queda da contagem de células CD4 para iniciar a medicação — e a toxicidade dos primeiros esquemas terapêuticos explicam o quadro atual.

“O grande problema do envelhecimento é que tem gente tratando há mais de 30 anos. Então as pessoas têm problemas de osteoporose, fragilidade óssea e problemas renais”, explica o médico Draurio Barreto, coordenador do programa de HIV/Aids do Ministério da Saúde.

Na assistência direta, esse impacto já é dominante. “Cerca de 70% do público é de 50+, em torno de 60% são mulheres idosas, muitas já sequeladas. São pessoas que vivem com HIV há mais de 20, 30, 40 anos”, relata Américo Nunes, presidente do Instituto Vida Nova.

Duplo estigma, polifarmácia e os novos protocolos no atendimento

Além das sequelas físicas, a população idosa enfrenta perda de memória, isolamento e o chamado “estigma composto” — a discriminação cruzada pelo envelhecimento e pelo vírus. A assistência também lida com o fenômeno da polifarmácia: 89% das pessoas mais velhas com HIV consomem cinco ou mais medicamentos simultaneamente.

“É preciso ter cuidado para evitar a prescrição desnecessária de medicamentos não relacionados ao HIV entre pessoas envelhecendo com HIV, com consideração cuidadosa das possíveis interações medicamentosas”, alerta Amy Justice.

Para mitigar a toxicidade, o Ministério da Saúde ampliou a migração para um esquema moderno de duas drogas em comprimido único, já utilizado por cerca de 500 mil pessoas no país. Contudo, especialistas cobram a eliminação dos limites de idade para triagem e a integração dos cuidados infecciosos aos serviços de geriatria.

A infectologista Beatriz Grinsztejn, coautora do documento, ressalta a invisibilidade feminina no cenário nacional: “A maior parte dos diagnósticos entre mulheres vem se dando entre mulheres que não estão na idade reprodutiva”. (Com informações do Folhapress)

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