O primeiro diagnóstico inédito sobre o consumo de sal entre crianças e adolescentes brasileiros revelou um cenário preocupante na capital capixaba. Um estudo pioneiro realizado pelo Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo (CCS/Ufes) identificou que estudantes de 6 a 17 anos em Vitória ingerem, em média, 8,8 gramas de sal por dia. O volume é quase o dobro do limite máximo recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que é de 5 gramas diárias. O dado acende um alerta imediato para o risco precoce de pressão alta e doenças cardiovasculares na população infantojuvenil do Espírito Santo.
Batizado de Projeto Kids Sal, o estudo foi coordenado pelo professor José Geraldo Mill, do Departamento de Ciências Fisiológicas da Ufes, com os pesquisadores Carolina Faria, Enildo Pimentel, Gabriela Quinte e Romildo Andrade. A pesquisa preenche uma lacuna nacional, já que dados anteriores do Ministério da Saúde monitoravam apenas a população adulta. Entre abril de 2024 e novembro de 2025, o projeto mobilizou 12 escolas públicas e privadas de Vitória. Ao todo, 516 estudantes concluíram com sucesso a coleta de urina de 24 horas — método padrão-ouro para estimar a ingestão de sódio —, gerando a primeira base científica do país sobre o tema nesta faixa etária.
Pressão alta e riscos à saúde dos jovens capixabas
Os resultados detalhados pela equipe da Ufes ajudam a entender o impacto direto dos hábitos alimentares na infância. Conforme explica o coordenador da pesquisa, o efeito mais imediato do consumo excessivo de sal é o aumento progressivo da pressão arterial. A cada grama consumido acima do recomendado pela OMS, a pressão arterial dos jovens sobe, em média, 1 milímetro de mercúrio. O estudo constatou que 4% dos participantes em Vitória já apresentavam níveis compatíveis com pré-hipertensão ou hipertensão arterial.
A longo prazo, a permanência desse padrão alimentar eleva significativamente as chances de infarto do miocárdio e acidente vascular encefálico (derrame), principais causas de morte no Brasil. Além dos problemas cardiovasculares, o especialista adverte que o excesso de sódio sobrecarrega o organismo de outras formas, favorecendo a formação de cálculos renais, que funcionam como um gatilho para a doença renal crônica, afetando drasticamente a qualidade de vida.
Alimentos ultraprocessados elevam consumo de sal entre meninos e meninas
A pesquisa apontou que o consumo de sal se eleva com a idade e é ainda mais acentuado entre os meninos. Na faixa de 14 a 17 anos, eles chegam a ingerir uma média de 9,5 gramas por dia, enquanto as meninas registram 8 gramas. De acordo com o diagnóstico, o sódio não provém apenas do sal de cozinha adicionado no preparo das refeições domésticas, mas está fortemente concentrado no consumo de alimentos ultraprocessados, como embutidos, carnes salgadas, queijos, temperos prontos, salgadinhos e biscoitos do tipo chips.
O paladar acostumado a altos níveis de sódio desde a infância tende a se consolidar na vida adulta. Como parâmetro, o estudo lembra que os próprios alimentos já contêm naturalmente cerca de 1 grama de sal, mesmo sem qualquer adição extra durante o preparo.
Como reduzir o sal na comida e proteger os filhos
Com base no levantamento capixaba, os pesquisadores do Projeto Kids Sal formularam recomendações práticas para que pais e responsáveis consigam reverter o quadro e promover uma alimentação saudável:
Redução gradual: Diminuir progressivamente o sal no preparo das refeições para que o paladar das crianças se adapte aos sabores naturais.
Retirada do saleiro: Eliminar o saleiro da mesa para evitar o hábito de adicionar sal à comida já pronta.
Controle de ultraprocessados: Evitar o consumo frequente de embutidos, congelados, temperos industrializados e salgadinhos de pacote.
Além do diagnóstico local, a pesquisa da Ufes alcançou uma validação científica de impacto nacional: o grupo validou fórmulas internacionais que permitem estimar o consumo de sódio por meio de uma única amostra de urina de pequeno volume, dispensando a complexa coleta de 24 horas. O avanço abre caminho para que o Ministério da Saúde realize um censo nacional em escolas de forma mais barata e viável. O projeto foi financiado pela Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS/MS) e pelo CNPq, com suporte da Fundação Espírito-Santense de Tecnologia (Fest).










