O que deu certo e errado para Ricardo Ferraço

Se Lorenzo Pazolini (Republicanos) conseguiu nesta eleição consolidar-se como o principal polo de contraposição ao grupo que governa o Espírito Santo, Ricardo Ferraço (MDB) tinha outro desafio: deixar de ser apenas o sucessor de Renato Casagrande (PSB) e passar a ser reconhecido como governador.

Conseguiu.

A chegada definitiva ao Palácio Anchieta, após a renúncia de Casagrande, mudou o patamar de exposição de Ricardo e veio acompanhada de crescimento eleitoral. Na primeira pesquisa Perfil registrada na Justiça Eleitoral e publicada pelo ES Hoje, em abril, o emedebista aparecia com 23,78%. Foi a 29,67% em junho, alcançou 32% em agosto e chegou à última semana da campanha com 33,94%.

É uma evolução considerável. E talvez seja o principal ponto daquilo que deu certo.

Mas também produz a pergunta sobre aquilo que não deu tão certo assim.

Ricardo tem a caneta, uma ampla rede de aliados e força entre prefeitos, sobretudo no interior. Herdou ainda a continuidade de um projeto político liderado por Casagrande e passou os primeiros meses de governo percorrendo o Estado com uma agenda de obras, investimentos e entregas.

A experiência também conta a seu favor.

Ricardo conhece o Espírito Santo e conhece a máquina pública. Já ocupou diferentes posições na política capixaba e esteve tanto na gestão de Paulo Hartung quanto na de Renato Casagrande. Na teoria, isso lhe permite chegar ao eleitor dizendo que sabe onde estão os problemas e também quais são os caminhos para enfrentá-los.

Para uma parcela do eleitorado, experiência pode significar segurança.

Só que, apesar de tudo isso, Ricardo chegou à última semana antes das urnas sem abrir vantagem sobre seu principal adversário.

A Perfil/ES Hoje mostra Pazolini com 36,94% e Ricardo com 33,94%. Pela margem de erro, há empate técnico. Na simulação de segundo turno, a distância é ainda menor: Ricardo tem 42,5% e Pazolini, 41,67%.

É aí que começa a parte mais interessante da história.

Se Ricardo tem o governo, uma ampla frente política, grande quantidade de prefeitos ao seu lado e a continuidade de uma gestão bem avaliada, por que a disputa permanece tão apertada?

Talvez essa seja a pergunta mais incômoda para a campanha governista.

Toda essa estrutura foi suficiente para fazer Ricardo crescer, mas, até aqui, não para produzir uma liderança isolada.

E há outra ambiguidade.

A experiência que Ricardo pode apresentar como credencial também pode ser interpretada por parte do eleitorado como continuidade de um ciclo político já conhecido.

Ricardo é um nome testado. Fato. Mas também é um personagem que atravessou diferentes momentos da política capixaba. Esteve ao lado de Hartung. Depois, de Casagrande. Agora tenta construir seu próprio ciclo.

A experiência é um ativo até o momento em que começa a ser interpretada como passado.

E talvez esteja justamente aí um dos maiores desafios de Ricardo.

O equilíbrio da disputa, mesmo diante de toda a vantagem estrutural do governador, representa apenas uma eleição naturalmente dividida ou existe uma parcela relevante do eleitorado procurando renovação?

É uma pergunta que somente as urnas poderão ajudar a responder.

No frigir dos ovos, Ricardo chega aos últimos dias do primeiro turno numa situação curiosa.

Conseguiu crescer, tornou-se mais conhecido, passou a ser efetivamente percebido como governador, reuniu uma extensa rede de aliados e consolidou sua força no interior.

Deu certo.

Mas chega à mesma reta final sem conseguir transformar todo esse patrimônio político em uma liderança isolada nas pesquisas.

Esse é o ponto que ficou pelo caminho.

E, caso as urnas levem Ricardo e Pazolini ao segundo turno, uma das questões centrais dessa nova campanha estará posta: como ser o candidato da experiência sem parecer o candidato do passado?

Depois de anos em que Paulo Hartung e Renato Casagrande foram os personagens centrais dos ciclos políticos do Espírito Santo, caberá a Ricardo tentar demonstrar que conhece essa história, participou dela, mas pode escrever uma etapa própria.

Mostrar que é o homem das entregas, que conhece o Estado e, ao mesmo tempo, convencer que também pode representar o novo.

Esse talvez seja seu maior desafio.

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