A casa que virou comitê e símbolo da militância petista na serra

Do portão de entrada até a sala de estar, não há espaço para dúvidas: na casa da família Donadia, no bairro São Diogo, o clima de eleição é permanente. Entre bandeiras vermelhas, adesivos históricos e o coro afinado de “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”, a residência transformou-se em um ponto de encontro tradicional da militância de esquerda na região metropolitana da Grande Vitória.

Para a dona de casa e jardineira, Lauriete Perini Donadia, de 66 anos, o apego à trajetória do presidente e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mistura gratidão histórica e alívio político. Ao recordar o primeiro mandato do petista, em 2003, Lauriete traça um paralelo com a realidade capixaba da época.

“Diante de todo o sofrimento e das injúrias que passou, qualquer um teria desistido. Ele conseguiu ajudar a reconstruir o Espírito Santo. Em 2003, nosso estado estava entregue às baratas. Éramos da comunidade e a Igreja Católica fazia campanha de arrecadação de alimentos para funcionários públicos que passavam necessidade. O primeiro socorro veio de lá, e hoje o Espírito Santo hoje é uma referência”, relata a jardineira.

Mesmo confiante no desempenho eleitoral na disputa pelo Palácio do Planalto, Lauriete não esconde a apreensão com o perfil conservador eleito para o Congresso Nacional. A aposta da matriarca está na capacidade de articulação do presidente. “A gente fica com medo da correlação de forças no Senado, tentando acalmar o coração. Mas ele é político, é diplomático. Para negociar com aquela bancada, ele dá banho em todo mundo. É o jeitinho dele de dialogar, respeitado internacionalmente”, avalia, citando ainda o impacto direto de políticas sociais na vida da população: “Distribuição de renda não é só repasse: é aposentadoria em dia e remédio de alto custo garantido na Farmácia Popular”.

A casa que virou comitê e símbolo da militância petista na serra

Minoria engajada

Transformar a própria casa em comitê eleitoral e estender panos e retratos na fachada não é um ato trivial no Brasil contemporâneo. De acordo com o pesquisador do Núcleo de Estudos Indiciários e mestre em Ciência Política da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Deivison Souza Cruz, esse comportamento expressa menos a intensidade do voto e mais as condições sociais em que o eleitor se insere.

“Quem exibe bandeira costuma ser minoria engajada, e o motivo que declara é orgulho e solidariedade com os iguais, mais do que convencer quem discorda. O eleitor que guarda o voto pode ser tão convicto quanto o vizinho da fachada; o que lhe falta é o ambiente em que exibir seja barato e seguro”, pontua o cientista político.

“A bandeira na janela diz pouco sobre quanto a pessoa gosta do candidato e muito sobre quanto ela se sente em casa no próprio bairro.”

Cruz explica que a entrada da política no ambiente doméstico reflete também uma virada na personalização das disputas no país. “O líder populista se apresenta como ‘um de nós’, o que lhe dá entrada no espaço mais íntimo do brasileiro, a casa, onde antes só os santos e a família tinham retrato. O rosto substituiu a sigla, e o rosto cabe na parede; a sigla é algo complexo. Na janela mora o ‘nós’; na urna, o ‘eles’. Sem o adversário, a pertença perde valor; sem a pertença, a rejeição não vira bandeira”, destaca. 

Militante desde que era taxado como “agitador”

A militância do casal Donadia começou quando erguer uma bandeira partidária ainda exigia fôlego e coragem física. O aposentado Valmercir Hilário Donadia, de 69 anos, relembra a gênese do Partido dos Trabalhadores no Espírito Santo, quando militantes eram tachados de “agitadores” e os recursos eram escassos.

“Na primeira eleição que disputamos para o governo do Estado com o Perly Cipriano, a gente sabia que era quase impossível. Não tinha fundo eleitoral. Saíamos de madrugada para pichar muro e correr da polícia. Muitas vezes minha esposa achava que eu estava na igreja, mas eu estava na rua fazendo campanha na marra”, conta ele.

Valmercir vê com preocupação a mudança de ferramentas de convencimento nas últimas décadas. Testemunha do rádio na década de 1960 e da massificação da televisão, ele aponta a perda de espaço para o ecossistema digital das igrejas neopentecostais e da extrema-direita.

A casa que virou comitê e símbolo da militância petista na serra
casa de moradora da serra vira comitê de lula

De pai para filhos

Na geração seguinte, o compromisso partidário não veio por imposição, mas pela vivência concreta de políticas públicas. A assistente administrativa Andreia Perini Donadia conta que cursou o ensino superior graças ao Fundo de Financiamento Estudantil (FIES), durante o governo Dilma Rousseff.

“Sempre tivemos liberdade em casa para debater e pesquisar. Eu estudei em faculdade particular pelo FIES. Na faculdade, durante o impeachment da Dilma e as manifestações de 2013, meus pais me alertavam: ‘isso é cortina de fumaça’. Essa base crítica nos impediu de virar a casaca. Não foi lavagem cerebral, foi vivência e formação”, explica Andreia.

Apesar da polarização nacional, o cotidiano na vizinhança mantém a civilidade. No dia da votação, a família cumpre o ritual: veste camisas vermelhas, cola adesivos no peito e caminha unida até a seção eleitoral. “Quando vizinhos provocam, a regra aqui é não cair na pilha. Democracia é isso: quem estiver incomodado que se acomode”, afirma a jovem.

Para a dona de casa Lauriete, o cansaço inicial de ver um líder veterano voltar aos palanques deu lugar ao entusiasmo ao longo da reta final: “No começo eu dizia: ‘esse homem já trabalhou demais, devia descansar e deixar a gente brigar’. Mas quando vi Lula correndo no meio dos jovens nas avenidas de São Paulo, percebi que ele está preparadíssimo para segurar o tranco. Ele aguenta o fogo para o 4º mandato”, finaliza animada.

Thauane Lima
Thauane Lima
Bacharel em Jornalismo pela UFES

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas

Notícias Relacionadas