A aprovação do governo Lula em seu terceiro mandato é a mais sensível às oscilações da inflação e do desemprego entre todos os presidentes da República dos últimos 30 anos. No extremo oposto, o ex-presidente Jair Bolsonaro aparece como o mandatário menos afetado pelas flutuações do mercado de trabalho e dos preços, mesmo diante da deterioração desses indicadores durante a pandemia. Os dados constam em um estudo inédito do economista Sergio Vale, da MB Associados, e acendem o alerta de analistas para o peso do bem-estar econômico e do custo de vida na decisão do eleitor no cenário eleitoral deste ano.
O peso do índice da miséria na aprovação presidencial
O levantamento cruzou o chamado “índice da miséria” — indicador econômico que soma a taxa de desemprego e o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) — com os índices de aprovação mensal de cinco presidentes em nove mandatos desde 1996, utilizando dados do agregador de pesquisas do site Jota.
A análise matemática aponta que, a cada variação de 1 ponto percentual no índice da miséria, a avaliação positiva da gestão atual de Luiz Inácio Lula da Silva oscila 5,8 pontos percentuais, para cima ou para baixo, no acumulado de 12 meses. O impacto é quase quatro vezes superior ao registrado por Bolsonaro, cuja variação era de apenas 1,4 ponto percentual.
De acordo com o cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest Pesquisa e Consultoria, essa disparidade reflete o contrato simbólico estabelecido com cada parcela do eleitorado. Enquanto a base de apoio de Bolsonaro é fortemente movida por convicções ideológicas e pelo antipetismo, o eleitor de Lula cobra resultados práticos e imediatos na melhora da vida material, como poder de compra, emprego e preço da comida na mesa.
Comparação histórica entre mandatos e o custo de vida
A suscetibilidade do terceiro mandato de Lula em relação à economia também supera os seus dois governos anteriores (2003-2010), período em que a variação de sua popularidade atrelada ao bolso do eleitor era de 3,7 pontos percentuais. Especialistas associam a mudança a um esgotamento da população com os choques inflacionários sucessivos ocorridos desde a crise sanitária global, a Guerra da Ucrânia e conflitos no Oriente Médio.
O estudo detalha a sensibilidade dos demais ex-presidentes diante do índice da miséria:
Dilma Rousseff: oscilação de 4,3 pontos percentuais;
Michel Temer: oscilação de 3,7 pontos percentuais;
Fernando Henrique Cardoso: oscilação de 2,2 pontos percentuais.
Atualmente, o cenário apresenta um paradoxo para o governo federal: a taxa de desemprego atingiu o menor patamar da série histórica para o trimestre encerrado em maio, fixando-se em 5,6%. Contudo, a inflação acumulada em 12 meses subiu para 4,8% na primeira metade de junho, patamar considerado desconfortável pelo mercado e pelo eleitorado.
Impacto no cenário eleitoral e projeções econômicas
Apesar das pressões inflacionárias, o economista Sergio Vale avalia o momento pré-eleitoral como relativamente favorável ao governo, impulsionado pela queda sazonal do desemprego e a perspectiva de redução no preço dos combustíveis. Na pesquisa Datafolha mais recente, o presidente registra 47% das intenções de voto, em um cenário de polarização contra os 43% de Flávio Bolsonaro.
As projeções do estudo indicam duas trajetórias possíveis até o mês da votação:
Se o comportamento atual da economia for mantido, a expectativa é de que a aprovação presidencial se consolide entre 44% e 47%, patamar competitivo que historicamente favorece o candidato que busca a reeleição.
Por outro lado, caso ocorram choques externos — como o encarecimento do barril de petróleo acima de US$ 90 devido a tensões globais —, o índice da miséria pode subir 2 pontos, empurrando a popularidade do governo para a faixa entre 38% e 42%.
Internamente, analistas apontam que a política fiscal expansionista do governo e as medidas de estímulo ao crédito e ao consumo, também citadas em atas recentes do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central), atuam como forças que mantêm a demanda aquecida e a inflação pressionada.
Especialistas e economistas ressalvam, no entanto, que o modelo econômico não esgota a complexidade do ambiente político. Fatores como segurança pública, denúncias de corrupção, estratégias de comunicação e a solidez das redes de oposição permanecem como variáveis cruciais na consolidação do voto do eleitorado independente.










