Por que adolescentes voltam a cometer atos infracionais? Especialistas explicam

A apreensão de um adolescente de 14 anos pela segunda vez em menos de uma semana, em Vitória, reacendeu o debate sobre um dos principais desafios do sistema socioeducativo: como evitar que jovens retornem à prática de atos infracionais após a primeira passagem pelas instituições responsáveis pelo atendimento.

Especialistas ouvidos pelo ES Hoje afirmam que a reincidência é resultado de um conjunto de fatores sociais, familiares, educacionais e psicológicos e defendem o fortalecimento das políticas de prevenção e ressocialização.

O caso mais recente foi registrado na sexta-feira (14), no bairro Do Quadro. Três dias antes, o mesmo adolescente havia sido apreendido em Caratoíra, também na Capital.

Segundo a Polícia Militar (PMES), durante patrulhamento, o jovem tentou fugir ao perceber a aproximação dos policiais. Com ele foram apreendidas porções de crack, maconha, cocaína e pac, além de dinheiro em espécie e um rádio comunicador utilizado pelo tráfico de drogas. O adolescente foi encaminhado à Delegacia Especializada do Adolescente em Conflito com a Lei (Deacle), autuado por ato infracional análogo ao tráfico de drogas e levado ao Centro Integrado de Atendimento Socioeducativo (Ciase).

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Segunda apreensão em menos de uma semana acende alerta sobre reincidência entre adolescentes.

Pertencimento e falta de oportunidades

Para o doutorando em Ciências Sociais e pesquisador em segurança pública Rusley Medeiros, a reincidência não pode ser explicada apenas pela atuação policial ou pelo sistema de Justiça.

Segundo ele, fatores como evasão escolar, fragilidade dos vínculos familiares, ausência de oportunidades e o sentimento de pertencimento oferecido por grupos criminosos contribuem para que muitos adolescentes retornem ao crime.

“O adolescente encontra nesses grupos reconhecimento, identidade e a expectativa de ganho financeiro. Quando as medidas socioeducativas não conseguem oferecer novas oportunidades, aumenta a chance de retorno à prática de atos infracionais”, afirma.

O pesquisador ressalta que a responsabilidade pela proteção dos adolescentes é compartilhada entre família, escola, Estado e sociedade e defende investimentos em educação, profissionalização, esporte, cultura e programas efetivos de ressocialização.

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Falhas do Estado, família e educação contribuem para reincidência juvenil, aponta especialista.

Aspectos psicológicos

A psicóloga Anne Daltro explica que a reincidência também está ligada ao ambiente em que o adolescente vive. Segundo ela, não existe uma única causa para o comportamento infracional.

Entre os fatores de risco estão a exposição à violência, influência de grupos criminosos, evasão escolar, falta de supervisão familiar e poucas oportunidades de desenvolvimento.

“Quando essas condições permanecem e não há intervenções estruturadas, aumenta a probabilidade de o adolescente repetir o comportamento”, explica.

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Na avaliação da psicóloga Anne Daltro, a reincidência juvenil precisa ser analisada além do ato infracional, considerando fatores de risco, proteção e o contexto em que o adolescente está inserido.

Para a especialista, a redução da reincidência depende de um acompanhamento individualizado, que fortaleça os vínculos familiares, mantenha o adolescente na escola, ofereça qualificação profissional e desenvolva habilidades como autocontrole, resolução de conflitos e planejamento para o futuro.

Ela destaca que a atuação integrada da assistência social, saúde, educação, sistema socioeducativo, Justiça e Conselho Tutelar é fundamental para romper o ciclo da reincidência.

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