A Polícia Civil do Espírito Santo (PCES), por meio do Centro de Inteligência e Análise Telemática (Ciat), com apoio da da Subsecretaria de Inteligência (SEI) da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (Sesp), concluiu a investigação da Operação “Killers”, que resultou em 14 denunciados pelo Ministério Público.
A ação foi fundamental para desmantelar uma organização criminosa envolvida no tráfico de drogas nos municípios de Cariacica e Vila Velha, com destaque para a prisão de um policial militar, que repassava informações estratégicas a traficantes. Além disso, foram apreendidos veículos de luxo e drogas durante a operação.
O delegado-geral da Polícia Civil, José Darcy Arruda, garante que a partir da Killers, novas operações de combate ao tráfico de drogas irão surgiu no Espírito Santo. Segundo o coordenador do Centro de Inteligência e Análise Telemática (Ciat), delegado Alan Moreno de Andrade, existem pontos que diferem o estilo de tráfico da região de Flexal II para os demais e muito disso está atrelada a imagem de Adair Fernandes da Silva, o “Dadá”.
“Ele era um traficante de estilo Old School, isto é, de antigamente, que põe a mão na massa. Temos vídeos dele ajudando no preparo da maconha para vender. Apesar de comprar produtos do Primeiro Comando Puro (PCC), ele não tinha interesse em se aliar a nenhuma facção e evitava guerra o máximo possível, porque seu objetivo era ganhar dinheiro”, explica o delegado.
A PCES estima que mais de 100 mil moradores de Flexal II, Porto Novo e áreas adjacentes – incluindo as ruas próximas ao mangue onde ocorrem as operações de tráfico – são diretamente impactados pela violência e insegurança gerada pela organização criminosa, com o tráfico de drogas operando 24/7.
Organização e parceria
Segundo Andrade, “Dadá” chegava a comprar cargas de R$ 2 milhões de crack e operava de maneira organizada em parcerias com o tráfico de outras regiões. A investigação revelou fortes vínculos com o PCC e conexões com o TCP em outras regiões, facilitando o fluxo de drogas e a lavagem de dinheiro. A organização utiliza paraísos fiscais para ocultar ativos financeiros.
A operação do tráfico da região de Flexal II, comandado por “Dadá”, alimentava outras áreas. Em Porto Novo, o grupo dele enviava carregamentos de cocaína e crack para fortalecer a presença no bairro, gerando lucro e expandindo o território.
Em São Pedro, Vitória, a organização de Dadá mantinha uma conexão estratégica com José Cândido Javarini Filho (“Dé de São Pedro”), chefe do tráfico local. Ele facilitava a lavagem de dinheiro e a distribuição de drogas para Vitória e regiões vizinhas, através de uma rede bem estabelecida.
“Dadá” tinha forte ligação com Robson Rodrigues (“Robinho”), um traficante de grande expressão na Serra. Ele fornecia armas e munições para o grupo de “Dadá”, além de servir como intermediário para aquisição de drogas e estabelecimento de novos pontos de venda.
A organização criminosa liderada por Dadá era gerenciada por Gideon da Silva Jorge (Caveira) e operava com uma estrutura hierárquica bem definida, incluindo gerentes adicionais e diversos membros responsáveis por tarefas específicas.
A droga era preparada e embalada em barcos no mangue e armazenadas em ferros-velhos do bairro. Além do tráfico de drogas em grande escala, a organização também é responsável por homicídios relacionados a disputa de território e porte ilegal de armas de fogo.
As drogas eram compradas em São Paulo, através dos fortes laços de “Dadá”com o PCC, que garantia fornecimento regular de grandes quantidades de drogas. Membros de confiança, como “Caveira”, viajavam para negociar in loco com os gerentes paulistas.
O transporte do material era feito através de uma rede de contato de diferentes meios de transporte para dificultar o rastreamento, com o uso de barcos no mangue. No ES, a droga era distribuída para vários pontos de venda nos locais citados acima. Segundo a PCES, a organização garante o fluxo regular de produtos para manter o controle e lucratividade.
Lavagem de dinheiro
O dinheiro ganho com a operação era lavado através de carros de luxo, como uma BMW X5 e uma Land Rover Discovery, registrados em nomes de laranjas, incluindo Matheus Martins Barbosa, um comparsa conhecido por esconder bens.
Carlos Victor Hugo de Oliveira, um contador com ligações suspeitas à organização, fornecia chips e linhas telefônicas pré-pagos para comunicação segura. Essas linhas são usadas para gerenciar transferências de dinheiro e para esconder o rastreamento de atividade ilegais.
A organização criminosa recebia auxílio na aquisição e aluguel de imóveis de alto padrão em locais estratégicos. Em alguns casos, foram usadas empresas de fachada para ocultar a verdadeira propriedade, além de pagamentos em dinheiro vivo para evitar registros oficiais.
A investigação revelou ainda que há fortes indícios de movimentação financeira em contas bancárias no exterior. Esses fundos provavelmente são provenientes do tráfico de drogas e são usados para esconder o dinheiro de suas operações ilegais.
Militar envolvido no esquema
O soldado da Polícia Militar (PMES) Maurício Simonassi de Andrade foi preso no dia 7 de novembro de 2024, no bairro Sotema, em Cariacica. Ele é acusado de fornecer informações sigilosas, incluindo rotas de patrulhamento e horários, e alertas sobre operações policiais, permitindo que a organização evitasse a apreensão de drogas e dinheiro.
Ele recebia pagamentos regulares de “Dadá”, estimados em R$ 5 mil mensais, em troca do fornecimento de informações confidenciais. Também há indícios de que ele recebeu um veículo usado como pagamento, modelo Fiat Palio, registrado sob nome falso
O policial era identificado como membro ativo da força policial local com históricos de irregularidades menores.
Prisão de Dadá
“Dadá” foi preso dentro de um motel em Cariacica no dia 10 de maio de 2024. Com ele, foram encontradas armas e quase 40 quilos de drogas. Na época, ele era o número 7 numa listagem de mais procurados da Secretaria Estadual de Segurança Pública (Sesp). Chefe do tráfico no bairro Flexal II, em Cariacica, ele fugiu da Penitenciaria Estadual de Vila Velha lll (PEVV lll) em julho de 2019.
Morte do novo chefe do tráfico de Flexal II
Com a prisão de “Dadá”, “Caveira” assumiu o posto de chefe do tráfico. Ele foi morto em confronto com a Polícia Militar no último domingo (12), no bairro Flexal II, em Cariacica. Gideon tinha dois mandados de prisão em aberto, pelo crime de organização criminosa e tráfico de drogas.
“Após receber informações sobre o paradeiro do foragido, as equipes foram até o local, cercaram a residência e anunciaram a presença policial. Neste momento, o indivíduo apareceu na varanda do imóvel já efetuando disparos com uma pistola em direção aos policiais civis, que revidaram a fim de cessar a injusta agressão”.
Gideon pulou do imóvel e tentou fugir pelos fundos. No entanto, uma outra equipe realizava o cerco no local. Ele atirou mais vezes contra a polícia, acabou baleado, foi socorrido pelos policiais e encaminhado ao Pronto Atendimento de Alto Lage, mas acabou morrendo na unidade.
Confira os nomes dos denunciados:
- Adair Fernandes da Silva “Dadá”: chefe do tráfico de drogas em Flexal II, Cariacica. Preso em maio de 2024
- Gideon da Silva Jorge “Caveira”: gerente de cocaína e crack, recebe ordens diretas de Dadá e assumiu a chefia após sua prisão. Foi morto em janeiro de 2025 em confronto com a PMES
- Wemerson Rosa de Oliveira “Boi”: gerente de venda de maconha, auxilia no preparo de entorpecentes.
- Vandeilson da Fonseca Antunes “Vandinho”: gerente de venda de skunk (haxixe) e comparsa de confiança de Dadá
- Carlos Eduardo Silva Correa “Lambã”: auxilia no preparo e venda de drogas, permeite o uso de sua conta bancária
- Matheus Martins Barbosa “Gaguinho”: oculta veículos adquiridos com dinheiro do tráfico em seu nome.
- Sidney dos Santos Nunes “Nego Sidney”: preso, mas mantém participação no tráfico de drogas
- Ederson Braga Paradela: em sua residência foram encontradas armas, munições e entorpecentes
- Eduardo Lucas dos Santos Oliveira “Duduzinho”: atual chefe do Morro do Quiabo, em Porto Novo, recebia armas, drogas e insumos de Dadá.
- Marcos de Jesus Bispo “Chapinha”: auxiliava no preparo e venda de drogas.
- Ruan Lourenço Correa “Marola”: auxiliava na venda e preparo de entorpecentes.
- Robson Rodrigues “Robinho”: traficante de grande expressão na Serra, tinha relações comerciais com Dadá. No momento de sua prisão foi encontrado farto material bélico.
- Carlos Victor Hugo de Oliveira “Coroa Mel”: revendia aparelhos telefônicos para o grupo de Dadá, além de habilitar linhas em seu nome para facilitar a comunicação do grupo.
- José Candido Javarini Filho “Dé de São Pedro”: chefe do tráfico na região de São Pedro, fazia vultuosas transações financeiras com Dadá.









