Os efeitos do chamado Super El Niño podem chegar ao cotidiano dos capixabas de diferentes formas: no preço dos alimentos, na disponibilidade de água, na conta de energia, na qualidade do ar e no aumento do risco de incêndios, alagamentos e deslizamentos.
A previsão é de que o fenômeno permaneça pelo menos até o início de 2027, com intensidade muito forte entre a primavera e o começo do verão. No Espírito Santo, a tendência é de períodos prolongados de tempo seco, baixa umidade e temperaturas que podem ficar até 2°C acima da média histórica.
Segundo a geógrafa e professora da Estácio Débora Rodrigues, entre os sinais de alerta estão a ocorrência de vários dias seguidos de calor intenso e a redução do nível de rios e córregos.
“Os efeitos não ficam restritos às condições do tempo. Mudam o preço dos alimentos, a disponibilidade de água, a qualidade do ar, a produção no campo e até a rotina das cidades”, explica Luana Romero, especialista em sustentabilidade e presidente do Instituto Ideias.
Seca pode aumentar risco de alagamentos
Embora o El Niño esteja associado a períodos de estiagem, isso não significa que não haverá chuvas fortes. Períodos de chuva intensa podem ocorrer mesmo em um cenário de seca prolongada.
O problema é que o solo muito seco pode ficar compactado e perder parte da capacidade de absorver a água. Assim, quando uma chuva forte acontece, uma parcela maior da água pode escoar pela superfície, provocando alagamentos e enxurradas.
Nas áreas de encosta, o risco também aumenta. A água pode penetrar em rachaduras do solo, elevar o peso do terreno e favorecer deslizamentos.
“Como o solo seco e endurecido não consegue absorver a água com rapidez, podem ocorrer alagamentos e enxurradas. Nas encostas, a água pode entrar pelas rachaduras, aumentar o peso e a instabilidade do terreno e favorecer os deslizamentos”, explica Débora.
O cenário tende a ser mais preocupante em locais com poucas áreas verdes, problemas de drenagem, descarte irregular de resíduos e ocupações em áreas vulneráveis.

Rios com menor vazão pressionam abastecimento
A estiagem também aumenta a preocupação com os níveis dos rios e os pontos de captação de água. A redução da vazão e da umidade do solo pode elevar a disputa pelos recursos hídricos entre abastecimento, agricultura e outras atividades.
“O risco para o abastecimento, a agricultura e o meio ambiente é real. Quando os rios perdem vazão e a umidade do solo diminui, aumenta a pressão sobre os diferentes usos da água”, alerta Débora.
Para Luana, além da economia de água pela população, são necessárias medidas de planejamento e proteção dos recursos hídricos.
Entre as ações citadas estão a proteção de nascentes, recuperação de matas ciliares, fiscalização, redução de perdas nos sistemas de abastecimento e planejamento para períodos de escassez.
Impacto pode chegar ao preço dos alimentos
A agricultura está entre os setores mais diretamente afetados pela irregularidade das chuvas. A estiagem reduz a água disponível no solo, aumenta a necessidade de irrigação e pode prejudicar o desenvolvimento das plantações.
Em períodos de chuva intensa, por outro lado, as lavouras podem ser danificadas e estradas utilizadas para o escoamento da produção podem ficar comprometidas.
No Espírito Santo, a preocupação envolve especialmente atividades como cafeicultura e fruticultura, importantes para a economia de diversos municípios. Em algumas regiões, produtores já enfrentam restrições de horários para irrigação.
Se o período seco se prolongar, o estresse hídrico pode reduzir a produtividade das plantações.
O impacto pode chegar ao consumidor. Uma produção menor e custos maiores com irrigação, energia, transporte e recuperação das lavouras podem pressionar os preços de frutas, verduras, legumes, grãos, leite, carnes e outros alimentos.
“Os alimentos percorrem um longo caminho antes de chegar à nossa mesa. Se a lavoura produz menos ou se o transporte é prejudicado por secas, enchentes ou estradas interditadas, toda essa cadeia fica mais cara”, afirma Luana.

Famílias de baixa renda podem sentir mais
O aumento dos preços dos alimentos tende a pesar mais no orçamento de famílias que já têm menos dinheiro disponível.
Quando o supermercado fica mais caro, uma parcela maior da renda precisa ser destinada à alimentação, reduzindo os recursos disponíveis para despesas como transporte, aluguel, energia e medicamentos.
“Uma família com mais recursos consegue absorver parte da alta ou substituir produtos. Para quem já vive com o orçamento apertado, qualquer aumento pode comprometer o acesso a uma alimentação adequada e pesar ainda mais nas demais despesas essenciais”, afirma Luana.
O El Niño não é o único fator responsável pela variação dos preços. No entanto, os efeitos sobre a produção e o transporte podem aumentar a pressão sobre a cadeia de alimentos.
Calor e baixa umidade elevam risco de incêndios
A combinação de calor intenso, pouca chuva, baixa umidade e vegetação seca também aumenta o risco de queimadas e incêndios florestais.
Nessas condições, o fogo pode se espalhar rapidamente e atingir áreas de mata, plantações e propriedades rurais.
A fumaça também representa um problema. Além dos danos ambientais e econômicos, ela pode piorar a qualidade do ar e agravar alergias e doenças respiratórias, principalmente entre crianças, idosos e pessoas com problemas cardíacos ou pulmonares.
“A queimada não afeta apenas o local onde o fogo começa. A fumaça se espalha, os animais perdem abrigo, o solo fica mais frágil e os recursos hídricos podem ser comprometidos. É um problema ambiental, econômico e de saúde pública”, afirma Luana.

Estado criou centro para acompanhar os impactos
Para monitorar e coordenar ações de prevenção e resposta aos efeitos do fenômeno, o Governo do Espírito Santo criou o Centro Integrado de Comando e Controle para o Enfrentamento dos Impactos do El Niño 2026/2027.
Entre as medidas previstas estão o acompanhamento das bacias hidrográficas e das condições meteorológicas, o fortalecimento dos alertas da Defesa Civil, a fiscalização do uso da água, a mobilização de brigadas para combate a incêndios e a orientação aos produtores rurais.
Para Luana, as informações precisam chegar de forma clara às comunidades que estão mais expostas aos riscos.
“Não basta produzir informações técnicas. A população precisa compreender o alerta, conhecer os riscos da região onde vive e saber como agir diante de uma emergência”, afirma.
Como a população pode se preparar
Governos, empresas e moradores podem adotar medidas para reduzir os impactos do período de calor e estiagem.
Entre as orientações estão economizar água, evitar o descarte irregular de resíduos e não realizar atividades que possam provocar queimadas.
Também é importante acompanhar os comunicados oficiais sobre condições meteorológicas, riscos de incêndios, chuvas intensas e situação dos rios.
A Defesa Civil Nacional oferece gratuitamente alertas por SMS. Para receber as mensagens, o morador deve enviar o CEP da localidade para o número 40199.
“O El Niño é um fenômeno natural, mas seus efeitos também dependem do quanto estamos preparados para enfrentá-los. Transformar informação em prevenção é fundamental para proteger a produção, os territórios e, principalmente, as pessoas”, conclui Luana Romero.










