El Niño pode atingir nível ‘muito forte’ este ano

O fenômeno meteorológico El Niño está plenamente estabelecido e atuando de forma direta sobre o clima do Espírito Santo. De acordo com o 6º Boletim de Monitoramento publicado nesta terça-feira (25) pelo Centro Integrado de Comando e Controle (CICC) El Niño, a previsão é de intensificação e persistência da estiagem ao longo dos próximos meses, havendo a possibilidade real de o fenômeno atingir uma intensidade “muito forte” ainda em 2026.

Embora o cenário exija acompanhamento contínuo dos recursos hídricos por parte do Governo do Estado, os especialistas ressaltam que ainda não é possível determinar com precisão a magnitude total dos impactos no território capixaba. Isso ocorre porque o clima local também sofre influência de outros fatores meteorológicos regionais.

Chuvas irregulares e calor acentuado

Entre os dias 1º e 23 de agosto, o estado registrou uma nítida divisão nas condições do tempo. Nas regiões Norte, Noroeste e Oeste, os volumes de chuva foram escassos, predominantemente inferiores a 10 milímetros. Já o Sul, a Região Serrana e a faixa litorânea acumularam de 30 a 50 milímetros, com pontos isolados ultrapassando 100 milímetros no litoral sul.

A maior parte do Espírito Santo enfrentou de 20 a 23 dias secos ao longo do mês. No Norte, Noroeste e Centro, os moradores encararam sequências severas de até 23 dias consecutivos sem qualquer registro de chuva significativa.

As temperaturas também refletiram esse contraste. No Norte e Noroeste, os termômetros marcaram médias entre 30 °C e 32 °C, alcançando picos de até 34 °C no interior. Nas áreas serranas, Centro-Sul e litoral, as máximas oscilaram em patamares mais amenos, entre 24 °C e 28 °C.

Para a reta final do mês, a previsão indica um volume acumulado entre 40 e 60 milímetros no Sul e no Caparaó. Na Região Serrana, Grande Vitória e Litoral Norte, são esperados de 20 a 40 milímetros, enquanto o Noroeste e o interior do Norte devem receber menos de 20 milímetros.

Avanço da seca e pressão nos rios

O monitoramento oficial confirma o agravamento da seca em todo o estado. Em junho, o território capixaba estava classificado na categoria de Seca Fraca. No mês de julho, praticamente todo o estado avançou para Seca Moderada — estágio que diminui o nível de reservatórios, impacta a agropecuária e eleva drasticamente o risco de incêndios florestais.

A medição nas principais bacias hidrográficas revelou queda média de 11% nas vazões dos rios Doce, Guandu e Jucu, e um declínio mais acentuado, de 25%, nos rios Santa Maria da Vitória, Benevente, Itapemirim e Itabapoana. Na contramão, o rio São Mateus subiu 24%. A situação mais dramática continua no rio Santa Joana, que permanece em nível crítico com vazão próxima de apenas 8 litros por segundo perto da foz.

Entre os dias 25 e 28 de agosto, chuvas pontuais podem gerar uma elevação temporária do nível de algumas bacias, mas o boletim adverte que não haverá recomposição sustentada no volume dos rios a curto prazo.

Abastecimento público e risco de incêndios

Apesar da pressão sobre os mananciais, o abastecimento de água potável à população segue sem comprometimentos graves. Dos 102 pontos de captação operados pela Cesan monitorados em 21 de agosto, 75 apresentavam vazão normal, 24 estavam sob estado de atenção e três encontravam-se em situação crítica, distribuídos por 18 municípios. Os pontos sob maior alerta concentram-se nas regiões Noroeste, Norte, Central e Serrana.

Paralelamente à questão hídrica, o número de queimadas disparou com o inverno. Apenas entre 17 e 23 de agosto, os satélites registraram 264 focos de calor no Estado, concentrados sobretudo no Centro-Norte e na região do Caparaó/Sul. O município de Linhares liderou as ocorrências com 21 focos, seguido por Mantenópolis (20), Iúna (18), Sooretama (15), Pinheiros (14) e Ibiraçu (10).

Projeções do Cemaden alertam que, a partir de 1º de setembro, a combinação de temperaturas acima de 30 °C, umidade relativa do ar abaixo de 30% e ventos superiores a 15 km/h vai criar um ambiente altamente propício para a propagação de incêndios.

Diante do quadro, a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros reforçam a necessidade do uso racional da água, proibição absoluta de queimadas e atenção aos cuidados com a saúde, como hidratação constante e evitação de exposição ao sol nos horários mais quentes do dia.

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