Excesso de inteligência artificial pode reduzir criatividade da Geração Z, aponta estudo

O uso cada vez mais intenso da inteligência artificial (IA) e de plataformas digitais baseadas em algoritmos pode comprometer o desenvolvimento da criatividade e da capacidade de inovação da Geração Z. O alerta é de uma pesquisa desenvolvida na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), que aponta impactos cognitivos relacionados ao consumo excessivo de conteúdos personalizados e à redução das experiências presenciais.

O estudo, realizado pelo pesquisador Rodrigo de Barros durante seu doutorado, defende que a combinação entre hiperconectividade, redes sociais e modelos de aprendizagem excessivamente automatizados pode prejudicar uma das competências mais valorizadas pelo mercado de trabalho: o pensamento criativo.

Estudo alerta para risco de “crise criativa”

Segundo Rodrigo de Barros, a predominância de conteúdos mediados por algoritmos reduz o contato das pessoas com novas experiências e diferentes perspectivas, fatores considerados essenciais para o desenvolvimento da criatividade.

“Há um perigo inerente ao consumo massivo de informações e entretenimento guiado exclusivamente por algoritmos preditivos nas redes sociais e plataformas digitais. Já estamos em um processo de crise criativa”, afirma o pesquisador.

De acordo com o estudo, o funcionamento dos algoritmos tende a oferecer conteúdos semelhantes aos interesses já demonstrados pelo usuário, limitando a exposição ao inesperado e dificultando a construção de novas conexões de conhecimento.

 

Criatividade é uma das habilidades mais valorizadas

A pesquisa destaca que a criatividade deixou de ser apenas um diferencial profissional para se tornar uma das competências mais importantes para empresas e organizações.

Segundo o relatório Future of Jobs Survey 2023, do Fórum Econômico Mundial, o pensamento criativo figura entre as habilidades mais valorizadas para os profissionais dos próximos anos.

Para Rodrigo de Barros, existe uma contradição entre o avanço das tecnologias e o desenvolvimento humano.

“Enquanto as empresas investem cada vez mais em inovação, cresce um fenômeno silencioso que pode comprometer justamente a geração que ingressa agora no mercado de trabalho: a falta de liberdade criativa.”

 

Modelo inédito busca desenvolver criatividade nas empresas

Como resultado da pesquisa, foi desenvolvido o Modelo MACI, considerado pelo pesquisador uma proposta inédita no Brasil para avaliação e desenvolvimento da criatividade em pessoas e equipes.

O sistema é estruturado em:

  • Cinco dimensões de aprendizagem;
  • 25 fundamentos operacionais;
  • 184 elementos-chave entre competências, ferramentas e indicadores;
  • Um questionário com 75 perguntas (QMACI) para medir a maturidade criativa de profissionais e equipes.

Além disso, a tese deu origem ao Sistema Web MACI, plataforma que realiza diagnósticos automatizados e sugere ações para departamentos de Recursos Humanos e lideranças empresariais.

Segundo o pesquisador, sempre que um dos indicadores apresenta desempenho abaixo do esperado, o sistema cruza as informações com evidências científicas para recomendar intervenções específicas.

 

Pesquisa analisou mais de mil estudos científicos

Para construir o modelo, Rodrigo de Barros analisou inicialmente 1.004 artigos científicos internacionais sobre criatividade.

Após critérios de seleção, foram escolhidos 101 estudos considerados de maior impacto científico, que serviram de base para a elaboração do modelo.

Segundo o pesquisador, embora existam diversos trabalhos explicando o conceito de criatividade, ainda são poucos os que apresentam métodos práticos para desenvolver essa habilidade.

 

Educação e empresas precisam estimular experiências além das telas

O estudo também chama atenção para os desafios enfrentados pelas novas gerações, cuja formação ocorre em um ambiente fortemente mediado por plataformas digitais.

Segundo a pesquisa, criatividade depende de fatores como:

  • Curiosidade;
  • Experimentação;
  • Leitura;
  • Artes;
  • Contato com diferentes culturas;
  • Convivência presencial;
  • Interação com a natureza;
  • Resolução de problemas complexos.

Para o pesquisador, escolas, famílias e empresas precisam atuar conjuntamente para criar ambientes que favoreçam essas experiências, equilibrando o uso da tecnologia com atividades que estimulem o pensamento crítico e a inovação.

 

Inteligência artificial deve ser aliada, não substituta da criatividade

Embora reconheça os avanços proporcionados pela inteligência artificial, a pesquisa ressalta que a tecnologia não deve substituir o desenvolvimento das competências humanas.

Em um cenário de crescente automação, o diferencial competitivo estará na capacidade das pessoas de criar soluções originais, conectar conhecimentos e resolver problemas complexos.

Segundo Rodrigo de Barros, investir no desenvolvimento da criatividade é uma estratégia que beneficia profissionais, empresas e o próprio país, fortalecendo a inovação e preparando a força de trabalho para os desafios do futuro.

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