Nesse dia 11 de fevereiro comemoramos o Dia Internacional de Meninas e Mulheres na Ciência, uma data muito importante para sinalizar que as mulheres estão atuando em na área, contribuindo muito com projetos e descobertas que podem beneficiar a humanidade.
Essa data foi definida em 2015, durante a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Mas, apesar de contribuírem muito, as mulheres ainda são um público sucinto na ciência. De acordo com a Unesco, a média global de pesquisadoras é de 33,3% e apenas 35% de todos os estudantes das áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática são mulheres.
Essa informação fica ainda mais evidente quando olhamos o gráfico do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Os cargos médio/técnico femininos são bem menores que os cargos masculinos. No nível superior há o dobro de homens.
No corpo docente do Instituto em 2024 havia 31 professoras nos cursos de Astrofísica (1), Ciência do Sistema terrestre (7), computação aplicada (2), Engenharia e Tecnologia espaciais (3), Geofísica espacial (6), Meteorologia (5) e Sensoriamento remoto (7).
Em 2024, havia 60 alunas contra 104 alunos e no anterior, 2023, esse número era maior, com 104 mulheres para 183 homens. Cristina Engel de Alvarez é arquiteta, Drª em Tecnologia de Arquitetura e Urbanismo, Pró-reitora de Planejamento na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e Gestora na Área de Ciência e Sociedade no CYTED.
Cristina avalia como uma grande evolução o papel da mulher na ciência, quando consideramos desde o período da total nulidade, quando elas se restringiam aos afazeres domésticos, passando pela admissão da atuação delas em temas considerados inerentes à condição feminina, como a arte e a educação.
Nesse período, raramente as mulheres eram protagonistas nas denominadas ciências puras, como a física, química e medicina. Ainda assim, sempre houve uma mulher querendo falar, entender, resolver as questões, sejam elas de qualquer ordem.

“Esse pré-conceito também podia, e ainda pode, ser verificado, inclusive nos dias atuais e nas áreas tecnológicas, como as engenharias. Esse fenômeno da desigualdade é, principalmente, constatado no campo denominado STEM, da sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática. Essa afirmação pode ser facilmente comprovada quando se observa que o número de publicações de mulheres autoras em artigos científicos é menor do que o de homens. Por que será que, embora as mulheres já tenham avançado na atuação como pesquisadoras, ainda continuam a figurar em segundo plano?”.
Parece até que estamos dentro da história que inspirou o filme “Estrelas além do tempo”, onde mulheres matemáticas negras, trabalharam na NASA, contribuíram para o desenvolvimento de aeronaves, aerodinâmica e exploração espacial. Elas viveram questões bem difíceis, como o fato de serem mulheres e negras, num período de segregação racial americano.
“Uma das explicações para essa desigualdade da condição da mulher-mãe, quando a mulher atinge uma certa maturidade para despontar como pesquisadora, coincide também com o período da vida em que ela tem que decidir sobre ser mãe ou não. Se a decisão é afirmativa, necessariamente ela terá que se ausentar das atividades como pesquisadora para dedicar-se ao filho (a), sendo uma grande dificuldade o retorno à vida de laboratório depois dessa ausência”, afirma a arquiteta
O mercado de trabalho não para de se renovar. E dentro de um laboratório, onde, todos os dias, pesquisadores descobrem novas fórmulas, métodos para ter eficácia em uma medicação, como uma mulher que tem filhos se ausenta deste mundo e volta seis meses depois?
“Atualizar-se e avançar mantendo equilibrada a vida como pesquisadora e mãe é um grande desafio, que requer um olhar diferenciado quando se pensa no desenvolvimento de políticas públicas de avanço da ciência”, destaca Engel.
Incentivo é primeira porta para uma menina cientista
Luciana Afonso Zucchi é formada em Fisica pela Ufes e fala sobre a importância do dia. Para ela, o mais importante é incentivar meninas que se identificam com a ciência a seguirem essa carreira.

“O ambiente científico é um local que já foi muito masculino. E hoje a gente vê que é muito importante e precisa que tenhamos mais diversidade para conseguir avançar. Quando conseguimos ampliar a participação feminina na área da ciência, a gente consegue trazer perspectivas diferentes, um olhar diferente que vai, consequentemente, trazer novas ideias, que podem ser mais inovadoras, que vão gerar novas soluções que podem abranger os desafios da sociedade, olhando por um foco com maior diversidade”.
A professora destaca que comemorar este dia é uma forma de incentivar cada vez mais meninas e alunas. “Como educadora, eu vejo que elas acreditam mais, mesmo sabendo que no passado a ciência foi um universo masculino, elas são bem-vindas e por isso trazem um olhar diferente, uma presença diferente, novas ideias. São inspiradoras, têm muito a contribuir e têm muito do seu legado para fazer dentro do universo da ciência”.
Estrelas daqui há algum tempo
Emily Ferrari Simonassi é aluna de iniciação científica pela Olimpíada Brasileira de Física das Escolas Públicas do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) Campus Nova Venécia. A trajetória dela começou com o interesse em ciências exatas.

“Desde muito jovem me dedicava a estudar de forma autodidata, além das atividades escolares. Naquele período, ainda desconhecia as Olimpíadas Científicas, mas esse universo se revelou para mim quando entrei no Ifes. Lá os professores sempre incentivaram e buscaram proporcionar o acesso a essas competições, o que me motivou a participar de todas as que estavam ao meu alcance”.
Para Emily, gostar de exatas abriu um mundo novas possibilidades dentro da área de estudo. “Essa paixão pela ciência me levou a integrar diversos projetos, além de realizar uma pesquisa científica na área de física, com foco em mineração. Ao longo dessa jornada, tive a oportunidade de participar de viagens e conquistar bolsas, experiências valiosas que a ciência me ofereceu”, destaca a estudante.
Maria Eduarda Lira é aluna do curso técnico em Informática para Internet integrado ao Ensino Médio do Ifes Campus Serra. Ela ainda não se considera uma cientista, apesar de já ter concluído uma iniciação científica e tido uma vivência como pesquisadora. Há um longo caminho a percorrer para se tornar uma cientista. “Já dei o primeiro passo, porque a ciência não acontece apenas dentro de laboratórios, mas também no mundo digital. Tudo o que envolve a vida é ciência”, afirma.
Ser pesquisadora é o grande sonho de Maria e, por isso, continuar nessa área é fundamental. “A iniciação científica me fez explorar um desejo ainda pouco conhecido em mim: o de conhecer novas histórias e passá-las a diante, o que me influenciou significativamente minha escolha de graduação na área do jornalismo”.

Assim com Engel, Maria enxerga o avanço das mulheres na ciência. “Eu vejo esse avanço com otimismo, mas também com a consciência de que ainda há muito a se caminhar para chegarmos ao ideal. São necessárias mudanças para enfrentar a desigualdade de oportunidades e, principalmente, a falta de reconhecimento do trabalho das cientistas. Até hoje, muitas descobertas e avanços feitos por mulheres na ciência são propositalmente minimizadas”, enfatiza a estudante.
“Acredito que nós, mulheres, sempre fomos curiosas e plenamente capazes de conquistar tudo, mas é muito bom ver que, atualmente, está se criando mais espaço para nós na ciência. Creio que as referências femininas são grandes responsáveis por esse avanço. Quando mulheres como eu enxergam cientistas desvendando o mundo, vemos um caminho possível. Isso é o verdadeiro significado de inspirar”, acrescenta Maria.
Projeto de robótica
Andressa Paula é professora da EMEF TI Izaura Marques da Silva, no bairro Andorinhas, em Vitória. Ela criou um projeto de robótica na escola em 2022, para trabalhar desde programação à método científico. “Sou professora de educação científica e tecnologia e no projeto e ao todo são 23 alunas. Aqui nós sempre buscamos conectar as aulas à prática da pesquisa científica”.

A professora afirma que as alunas são muito envolvidas. “O que mais chama a minha atenção é que elas são super envolvidas na aula, no projeto e são protagonistas dessa história científica. Algumas alunas, no começo, achavam que robótica era só para meninos e agora elas comentam que querem continuar nessa área de programação, criação de jogos”, diz a professora, orgulhosa.
E como sala de aula é um ambiente diverso, as aulas e o projeto de robótica da professora Andressa ajudam as meninas não só a descobrirem a programação e tudo que podem fazer a partir dela, mas também a derrubar o grande monstro da adolescência: a timidez. “Algumas alunas tinham dificuldade de comunicação, até medo de falar, de dar a opinião, e agora estão mais soltas e criativas”, destaca.










