Dignidade menstrual vai muito além do acesso a absorventes; entenda

Ao longo da história, a menstruação foi frequentemente vista como algo “sujo”, “impuro” ou “perigoso”, o que contribuiu para a criação de tabus que inibem o diálogo sobre o tema. Esse contexto acaba impedindo que pessoas que menstruam se sintam confortáveis para falar sobre seus ciclos menstruais.

Com o objetivo de alertar a sociedade sobre a importância de garantir que todas as pessoas que menstruam tenham acesso a produtos de higiene e a informações sobre saúde menstrual, foi criado o Dia Internacional da Dignidade Menstrual, celebrado anualmente em 28 de maio. A data, estabelecida na Alemanha em 2014, hoje é reconhecida em mais de 50 países.

Em 2025, dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) indicam que 37% das adolescentes e jovens que menstruam enfrentam dificuldades para acessar itens de higiene em escolas e locais públicos. Além disso, 19% não têm dinheiro para comprar absorventes.

A falta de acesso a água e saneamento também impacta a dignidade menstrual: cerca de 713 mil pessoas vivem sem banheiros ou chuveiros em casa. Uma enquete recente da Unicef apontou que 77% das pessoas entrevistadas já sentiram constrangimento em escolas ou locais públicos por estarem menstruadas e quase metade nunca teve acesso a aulas, palestras ou rodas de conversa sobre menstruação na escola.

Segundo a educadora menstrual Giovana Bazoni, proprietária e idealizadora do ateliê Chão de Casa, a dignidade menstrual vai muito além do acesso a absorventes. Trata-se da garantia de condições adequadas de higiene e saúde menstrual, incluindo acesso à informação, produtos de higiene, infraestrutura apropriada e um ambiente livre de estigmas e discriminação.

“A dignidade menstrual é, basicamente, o acesso às escolhas durante a vida menstrual. A falta de conhecimento e os tabus podem levar a problemas de saúde, exclusão e estigma. Isso envolve também o direito à educação sobre o corpo, sem preconceitos”, explica.

Segundo Giovana, é importante frisar que quando se fala sobre dignidade, se fala sobre escolha de produtos, métodos contraceptivos, conhecimento fisiológico e anatômico. “É assustadora a quantidade de mulheres, inclusive com ensino superior, que não conhecem o próprio corpo. Nas camadas mais populares, essa realidade é ainda mais grave”, destaca.

Ela alerta que a falta de informação pode gerar consequências sérias, relacionadas à saúde reprodutiva, repulsa social, doenças e até mesmo à morte. “Tem pessoas que não sabem o tempo correto de troca de um absorvente interno. Essa desinformação pode causar infecção e até morte. Por isso, educação é essencial para garantir dignidade menstrual”. 

“Chão de Casa”, uma empresa construída por mãos femininas competentes

Dignidade menstrual vai muito além do acesso a absorventes; entenda
Foto: reprodução

“O ateliê é pequeno, mas construído com mãos femininas muito competentes”, afirma Giovana Bazoni ao falar sobre a marca que fundou há cinco anos, durante a pandemia, após perder o emprego.

Ela começou a trabalhar com absorventes reutilizáveis movida por três motivações principais:

  • O desejo pessoal de criar um produto voltado para mulheres;
  • A preocupação com o impacto ambiental do descarte de lixo;
  • A alergia da filha a absorventes descartáveis.

“Minha filha estava no início da vida menstrual com uma alergia intensa. Fiz alguns testes para ajudá-la e acabei desenvolvendo os absorventes para ela e para amigas com o mesmo problema.”

Giovana reconhece que empreender no segmento de produtos menstruais é desafiador, especialmente no Espírito Santo, um estado que considera conservador. A falta de apoio público é um dos principais obstáculos.

“Sinto falta de estrutura, investimentos, linhas de crédito e oportunidades de crescimento. Essa é a minha maior dificuldade”, lamenta.

Iniciativas que transformam vidas 

Dignidade menstrual vai muito além do acesso a absorventes; entenda
Alunas do curso de educação menstrual e corte e costura. Foto: Giovana Bazoni.

Além de empreendedora, Giovana é historiadora e educadora menstrual. Desde 2022, ela lidera o projeto “Segue o Fluxo”, em parceria com o coletivo Cine por Elas, oferecendo cursos gratuitos de educação menstrual e corte e costura para mulheres em situação de vulnerabilidade na Grande Vitória.

“O curso de corte e costura é atrelado à educação menstrual. Sem educação, não há produção, nem adoção dos produtos”, explica.

A equipe do projeto também chegou ao Rio de Janeiro, em parceria com a Fiocruz. Mulheres do Centro de Referência da Juventude, na região de Manguinhos, participaram das oficinas e começaram a produzir absorventes para si mesmas, filhas e netas.

“Hoje, elas produzem em escala e levam educação menstrual para comunidades vulneráveis da Maré e de Manguinhos. Para essas mulheres, o absorvente é como ouro”, afirma.

Já por meio do edital do Fundo de Cultura do Espírito Santo (Funcultura), da Secretaria de Estado da Cultura (Secult), Giovana capacitou um total de 60 mulheres. “Oferecemos aulas com rodas de conversa sobre educação menstrual e, depois, ensinamos a confeccionar os absorventes”, conta.

Questionada sobre um momento marcante, a empreendedora falou sobre uma doação de absorventes reutilizáveis, promovida de pela Chão de Casa, para mulheres catadoras, que vivem em situação de vulnerabilidade. “Elas entenderam mais do que ninguém o valor daquele produto, que deixa de ser um resíduo tóxico para se tornar algo útil e digno”, relembra Giovana.

Dignidade menstrual vai muito além do acesso a absorventes; entenda
Mulheres do Centro de Referência Jovem do Rio de Janeiro. Foto: Giovana Bazoni.

Ações desenvolvidas pelo poder público 

O Programa Dignidade Menstrual, lançado pelo Governo Federal em 8 de março de 2023, busca garantir o acesso a itens de higiene e conscientizar sobre os estigmas relacionados ao ciclo menstrual.

Em seu primeiro ano, o programa beneficiou 2,1 milhões de pessoas em situação de vulnerabilidade no Brasil. No Espírito Santo, 19 mil pessoas foram contempladas com a entrega de 1,7 milhão de absorventes, totalizando um investimento de R$ 817,5 mil.

Para ter acesso ao benefício, é necessário:

  • Ter entre 10 e 49 anos;
  • Estar inscrito no CadÚnico;

Estar em situação de extrema vulnerabilidade, ser estudante de escola pública com renda familiar per capita de até meio salário mínimo, ou estar em situação de rua.

Dignidade menstrual vai muito além do acesso a absorventes; entenda
Foto: Reprodução/Canva.

O que dizem os municípios da Grande Vitória

Vila Velha – A dignidade menstrual é abordada pelas Secretarias de Educação, Assistência Social e da Mulher. Absorventes são adquiridos pelas escolas com verba própria e distribuídos a alunas que solicitam. Mulheres em situação de rua também recebem o item em abrigos e durante abordagens sociais.

Vitória – A prefeitura instituiu o programa “Dignidade Menstrual nas Escolas de Vitória”, garantindo que as 54 unidades de ensino fundamental ofereçam absorventes higiênicos às alunas. As escolas também são incentivadas a discutir o tema em rodas de conversa e espaços educativos. A prefeitura não respondeu sobre ações em outros setores além da educação.

Serra – Desde 2023, o município atua de forma intersetorial para combater a pobreza menstrual, conforme a Lei Federal nº 14.214/2021. As ações incluem campanhas de conscientização em parceria com coletivos sociais, distribuição de insumos por unidades de saúde e orientações sobre saúde reprodutiva.

Cariacica – A única ação citada pela prefeitura foi a oferta de materiais de higiene, incluindo absorventes, a adolescentes em acolhimento institucional, por meio da Secretaria de Assistência Social (Semas).

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