A possibilidade de um novo episódio do fenômeno El Niño entre o segundo semestre deste ano e o início de 2027 já mobiliza órgãos estaduais e especialistas no Espírito Santo. As projeções dos principais centros meteorológicos internacionais apontam para um evento de intensidade entre moderada e forte, com maior influência entre setembro e dezembro. Embora não haja previsão de desastres, os efeitos esperados incluem temperaturas acima da média, períodos mais longos de estiagem e aumento do risco de queimadas em diversas regiões do Estado.
O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial e provoca alterações nos padrões climáticos em diferentes partes do mundo. No Espírito Santo, os impactos costumam estar relacionados à irregularidade das chuvas, especialmente nas regiões Norte e Noroeste, que historicamente enfrentam maiores desafios durante períodos secos.
Segundo a Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil (CEPDEC), o El Niño não determina a ocorrência de eventos extremos, mas aumenta a probabilidade de condições climáticas favoráveis à estiagem e ao calor intenso. Por isso, o monitoramento das previsões meteorológicas tem sido intensificado nos últimos meses.
Menos chuva e atenção aos recursos hídricos
Entre os principais desafios apontados para os próximos meses está a preservação dos recursos hídricos. A expectativa é de que algumas regiões do Estado enfrentem intervalos mais longos sem chuva, o que pode reduzir a vazão de rios e pressionar o abastecimento para atividades agrícolas.
A preocupação é maior no Norte e Noroeste capixaba, áreas que costumam sentir com mais intensidade os efeitos das estiagens prolongadas. Embora não exista, neste momento, previsão de crise hídrica, os órgãos estaduais reforçam a necessidade do uso consciente da água e do acompanhamento constante das condições dos mananciais.
A Agência Estadual de Recursos Hídricos (Agerh) ampliará o monitoramento de rios e reservatórios, enquanto técnicos do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) devem intensificar as orientações aos produtores rurais sobre manejo da vegetação, conservação do solo e uso racional da água.
A agricultura familiar está entre os setores mais vulneráveis às mudanças climáticas provocadas pelo fenômeno. Com menos chuva e temperaturas mais elevadas, produtores podem enfrentar dificuldades para manter a produtividade de algumas culturas e a disponibilidade de água para irrigação e dessedentação animal.
Tempo seco favorece queimadas
Outra preocupação está relacionada ao aumento do risco de incêndios florestais. A combinação entre calor acima da média, baixa umidade do ar e vegetação ressecada cria condições favoráveis para a propagação do fogo.
Além dos danos ambientais, as queimadas afetam diretamente a saúde da população. A fumaça pode agravar doenças respiratórias, especialmente entre crianças, idosos e pessoas com problemas pulmonares crônicos.
Para enfrentar esse cenário, o Governo do Estado informou que está reforçando ações preventivas, incluindo a mobilização de brigadas de combate a incêndios, o monitoramento de áreas mais suscetíveis e o trabalho integrado entre Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema), Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (Idaf) e Polícia Militar Ambiental.
As autoridades também alertam para a importância da colaboração da população. A recomendação é evitar qualquer tipo de queima de lixo ou vegetação, especialmente durante os períodos de baixa umidade e ventos mais fortes.
Estado reforça preparação
De acordo com o secretário de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, Victor Ricciardi, o momento exige atenção, mas não justifica alarmismo.
Segundo ele, o Espírito Santo chega ao possível período de influência do El Niño com uma estrutura mais preparada para lidar com eventos climáticos extremos, resultado de investimentos em monitoramento, prevenção e adaptação realizados nos últimos anos.
Entre 2022 e 2025, mais de R$ 748 milhões foram aplicados por meio do Fundo Cidades em obras voltadas à adaptação climática. Os recursos financiaram intervenções como barragens, sistemas de drenagem e macrodrenagem, bacias de contenção, reservação hídrica, contenção de encostas, desassoreamento de rios e perfuração de poços artesianos.
A Defesa Civil Estadual reforça que a população deve acompanhar os canais oficiais de informação ao longo dos próximos meses. Como a intensidade e os impactos do fenômeno podem sofrer alterações, o monitoramento contínuo será fundamental para orientar ações preventivas e reduzir riscos.
Apesar das incertezas inerentes aos fenômenos climáticos, a avaliação técnica dos órgãos estaduais é de que o Espírito Santo possui hoje maior capacidade de resposta diante de períodos de seca, calor extremo e aumento do risco de queimadas, desafios que podem marcar a próxima primavera e o início do verão capixaba.









