Nem todo recomeço começa com grandes planos. Às vezes, ele surge de um convite simples, de uma sala de aula improvisada ou de uma agulha atravessando o tecido pela primeira vez. Em Cariacica, histórias assim têm ganhado forma no projeto Protagonistas da Esperança, que vai muito além da qualificação profissional: ele reconstrói vidas.
Entre linhas, tecidos e silêncios que aos poucos viram conversa, duas mulheres encontraram caminhos para seguir em frente depois de momentos duros demais para caber em palavras.
Elisângela Gonçalves sabe bem o que é tentar recomeçar quando tudo parece ter desmoronado. Após sair de um relacionamento abusivo e enfrentar anos difíceis, ela encontrou no curso de corte e costura um espaço de acolhimento — e, mais do que isso, de reconstrução.
Foi ali que decidiu realizar um sonho antigo: fazer o próprio vestido de noiva.
Com o incentivo da filha e a ajuda da professora, Elisângela desenhou, cortou e costurou cada parte da peça. Quando vestiu o vestido em um desfile promovido pelo curso, não era só uma roupa. Era um símbolo. De liberdade, de coragem, de uma vida que ela estava retomando com as próprias mãos. “Foi uma libertação. Eu conheci uma história diferente para mim”, conta, ainda emocionada.
Hoje, ela já faz pequenos consertos para pessoas próximas e começa a estruturar o próprio trabalho. Ganhou duas máquinas do marido e fala da costura como quem fala de um novo começo — e também de terapia.
Quando a dor ganha outro significado
Se a história de Elisângela é de reconstrução, a de Geovana da Conceição de Jesus Vieira atravessa um luto profundo.
Ela perdeu dois filhos no mesmo dia. A dor, como era de se esperar, tomou conta de tudo. Veio a depressão, o isolamento, o acúmulo de lembranças difíceis dentro de casa — e dentro dela. Foi uma das filhas que a inscreveu no projeto.
No início, era só uma tentativa. Mas o que Geovana encontrou ali foi acolhimento de verdade: professores atentos, escuta, paciência e um espaço seguro para existir de novo.
A transformação mais visível aconteceu dentro de casa. Um cômodo antes marcado pela tristeza virou ateliê de costura. Onde havia acúmulo e dor, hoje há criação, renda e novos planos. “Eu me ergui novamente”, resume.
Ela não fala em esquecer — porque isso não existe —, mas em ressignificar. E isso, para quem já esteve no fundo, é enorme.
O projeto, realizado pela Montanha da Esperança com apoio do Fundo Social da Sicredi Serrana, já impactou mais de 150 pessoas em situação de vulnerabilidade. Além da capacitação técnica em áreas como costura e panificação, oferece formação em empreendedorismo, orientação para o mercado de trabalho e acompanhamento social.
Mas os números, aqui, são só pano de fundo. O que realmente importa são histórias como as de Elisângela e Geovana — mulheres que transformaram dor em movimento, e movimento em autonomia. A nova turma se forma nesta segunda-feira, 4 de maio, às 14h, no auditório da instituição, em Cariacica. Mais do que certificados, o evento celebra trajetórias que, pouco tempo atrás, pareciam interrompidas.
E que agora seguem — ponto a ponto, com firmeza — sendo reescritas.









