Com o objetivo de abordar e promover a defesa de temas relativos à saúde de um importante órgão do corpo humano, a Federação Mundial de Neurologia (FMN) criou, em 2014, o Dia Mundial do Cérebro, celebrado em 22 de julho. A data é a mesma da fundação da entidade, em 1957. Em alusão a este dia, vamos entender um pouco sobre altas habilidades e superdotação (AH/SD), os principais desafios e curiosidades para além do estigma da “super inteligência”.
Quando se fala em superdotação, a primeira coisa que vem à cabeça de muitas pessoas é a genialidade. No entanto, existem inúmeras outras questões envolvendo a condição que muita das vezes acabam sendo ignoradas, como por exemplo a inclusão educacional.
A educação inclusiva ou educação especial, normalmente relacionada à situação de crianças com deficiência ou distúrbios de aprendizagem, também auxilia crianças com altas habilidades e superdotação. Desde a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996 (LDBEN 9394/96), é assegurado, no contraturno escolar, o Atendimento Educacional Especializado para esse público, que ofereça espaços para potencializar e estimular o desenvolvimento de suas habilidades.
Atualmente, o Espírito Santo possui 520 alunos com superdotação e altas habilidades matriculados na rede estadual, segundo a Secretaria da Educação (SEDU). A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008), objetiva a identificação, elaboração e organização de recursos pedagógicos e de acessibilidade com vistas à autonomia e independência na escola e fora dela.
Para o doutor em educação e professor da Universidade Federal do Espírito Santo, Vitor Gomes, a superdotação e altas habilidades não se limitam a um único tipo de inteligência, nem se restringem exclusivamente às habilidades intelectuais, como a lógica-matemática.
“Embora haja um interesse acentuado pelo cinema e pela mídia em geral, existem múltiplas formas de inteligência e habilidades. Entre elas, podemos citar a cinestésica-corporal (comum entre esportistas e dançarinos), linguísticas, artísticas, interpessoais (pessoas carismáticas), entre outras”, explicou.
De acordo com a legislação brasileira, pessoas com AH/SD são consideradas altamente talentosas em uma ou mais áreas do conhecimento e se caracterizam por possuir motivação, talento superior e criatividade em suas habilidades específicas.
Segundo Vitor, a escola tem um papel crucial no desenvolvimento de indivíduos com Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD), principalmente na correção de concepções errôneas sobre essas pessoas. Uma das mais comuns é o mito da autossuficiência, que sugere que esses jovens não precisam de ajuda.
“É vital reconhecer que, sem o suporte adequado, suas habilidades não serão devidamente desenvolvidas. Além disso, embora o talento seja um aspecto significativo, um indivíduo com AH/SD também tem outras necessidades específicas e individuais, como qualquer outra pessoa”, explicou.
Quando o assunto é a abordagem em sala de aula, o educador acredita que a receptividade ao conhecimento do aluno real, aquele que se manifesta no cotidiano, deve ser priorizado pelo professor. “O primeiro passo é desconstruir as preconcepções sobre esses alunos, frequentemente estereotipados pela sociedade como ‘gênios em miniatura’, e conhecê-los como realmente são” destacou.
Sobre a a inclusão, além do Atendimento Educacional Especializado, Vitor assegurou ainda sobre a importância de envolver a família e a sociedade em todos os processos. “O primeiro passo é ouvir o aluno, suas necessidades, ouvir a família, o professor. Por fim, construir locais em que, antes de tudo, são espaços de fomentação de bem estar. Afinal, não existe melhor estímulo do que habitar ambientes que nos sentimos felizes e acolhidos”, finalizou Vitor.
Um cérebro superdotado consome menos energia, aponta especialista

De acordo com a neurologista Alyne Mendonça, enquanto a expressão “altas habilidades” enfatiza os aspectos que são moldados, modificados e enriquecidos pelo papel do ambiente (família, escola, cultura), o termo “superdotação” faz referência aos aspectos inatos e genéticos da inteligência e da personalidade.
“Altas habilidades se refere à um desempenho intelectual acima da média em uma área/disciplina específica, por exemplo a matemática, esportes ou línguas. Já a superdotação qualifica um cérebro com uma capacidade intelectual extraordinária em várias esferas cognitivas como memória, criatividade, entre outras”, explicou.
Segundo a especialista, um cérebro superdotado, no ponto de vista neurofuncional, tem mais integração neuronal e consome menos energia. “Clinicamente, observa-se uma capacidade de observação e reconhecimento de padrões acima da média, além de uma precocidade no desenvolvimento de habilidades e maior potencial criativo e de memória”, destacou Mendonça.
Ainda segundo Alyne, os tipos mais comuns são o intelectual, acadêmico, psicomotor, criativo, social e talento especial. Em entrevista, ela contou que a classificação varia de acordo com o tipo de habilidade mais bem desenvolvida. “A comprovação é feita clinicamente através de entrevista e da aplicação de testes neuropsicológicos”, enfatizou.
A enfermeira e mãe do Caio, uma criança superdotada de apenas 8 anos, Kamila Cristina Fonseca, contou que começou a identificar alguns sinais em seu filho quando ele ainda era bem pequeno. “Com 1 ano e meio ele apreendeu sozinho o alfabeto e os números. Aos 3 anos ele já lia livros inteiros”, relembrou.
Segundo ela, o processo para conquistar o laudo para superdotação teve início quando Caio tinha quatro anos e só foi finalizado quando ele completou seis anos, idade suficiente para realizar a Escala Wechsler (Wisc IV), um instrumento clínico de aplicação individual que tem como objetivo avaliar a capacidade intelectual.
Questionada sobre como é ser mãe de uma criança superdotada, ela afirmou ser um desafio diário. “Ele demanda muito, tanto na parte intelectual, da necessidade de aprendizado, quanto na parte emocional. Hoje ele faz acompanhamento psicológico para lidar com as frustrações e administrar as emoções, o que tem ajudado muito”, explicou.
Segundo Kamilla, Caio estuda em uma escola regular e, além do programa de altas habilidades da prefeitura de Vitoria, ele possui uma boa interação com os colegas e professores.
“Todos sabem das altas habilidades e a comunicação com a escola de maneira geral é boa. As maiores dificuldades são com as frustrações que ele enfrenta quando erra”, destacou.
Como mãe, ela contou ainda já ter presenciado inúmeras situações inusitadas ao lado do filho. Em entrevista a enfermeira relatou que todos os dias é surpreendida por seu filho que adora explicar em detalhes fatos sobre a história mundial.
“Ele desafia os tios com quiz sobre as bandeiras dos países e acerta todas sem olhar. É fascinante presenciar o desenvolvimento dele e ao mesmo tempo assustador por ter que suprir tanta necessidade de conhecimento a todo tempo”, completou.
O que caracteriza uma pessoa com altas habilidades e superdotação?

De acordo com a professora da Educação Especial da prefeitura de Vitória, Iza Conceição Basseti, para caracterizar alunos com altas habilidades/superdotação, é importante considerar alguns eixos principais, como a heterogeneidade, talentos em música e matemática, a multipotencialidade, interesse por ciências e artes.
Também a assincronia no desenvolvimento, como eficiência cognitiva profunda, mas dificuldades em escrever e, também, problemas emocionais, de aprendizagem e comportamentais, como ansiedade e dificuldades sociais. Segundo Iza, o papel da escola é de extrema importância para melhorar o suporte educacional desses estudantes.
“É muito desafiador ser uma professor na área de Altas Habilidades devido aos diferentes interesses. Eu sempre digo que o meu conhecimento de mundo ampliou demasiadamente depois que comecei a trabalhar com eles”, destacou.
A docente acredita que é importante não só reconhecer e valorizar as habilidades do aluno, oferecendo feedback positivo e motivacional, mas também cuidar do seu bem-estar emocional. Além disso, também é essencial estimular o pensamento crítico e criativo, adaptar o currículo às suas necessidades, incentivar a exploração de interesses diversos e manter uma comunicação constante com a família.
“Assegurar a inclusão dos alunos com altas habilidades é importante para diminuir o desperdício de potencial humano”, frisou.
De acordo com a coordenadora da Educação Especial do município de Vitória, Carla Gagno, no decorrer da Educação Infantil, são observados nos estudantes os sinais de precocidade demonstrados pelas crianças em diferentes áreas, nos respectivos grupos etários, no intuito de diversificar os projetos desenvolvidos para atender os interesses e necessidades das crianças no contexto da turma.
Já no Ensino Fundamental, o atendimento é ofertado no turno inverso ao turno de escolarização, em Salas de Recursos para o AEE na área, localizadas de forma estratégica em seis unidades de ensino, denominadas Escolas Referência. São elas: Emef Álvaro de Castro Mattos, Emef Alvimar Silva, Emef Maria José Costa Moraes, Emef Maria Madalena de Oliveira Domingues, Emef Padre Anchieta e Emef Vercenílio da Silva Pascoal.
“Para o atendimento aos estudantes com altas habilidades na rede, são 9 professores para os 127 estudantes, distribuídos nas EMEFs referência”, finalizou.









