Na igreja mãe, no terreiro, mulher: o sincretismo de Nossa Senhora Aparecida

Na Igreja Católica a figura de Nossa Senhora Aparecida é recatada, como no imaginário de todos os filhos, bem coberta, mantendo a imaculada imagem de mãe do filho de Deus. No candomblé e umbanda, Oxum é uma mulher africana elegante, adornada da cabeça aos pés com joias de ouro, sentada à beira de um rio, com um espelho redondo e dourado, enquanto amamenta um bebê ao colo.

O sincretismo é uma das expressões mais marcantes para representar o dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, neste 12 de outubro. São duas imagens de mulheres bem diferentes, a europeia e a africana.

Nossa Senhora Aparecida, assim como outros santos católicos, é amada e muito respeitada nas religiões de matriz africana. Edebrande Cavalieri é formado em Ciência da Religião e define bem essa história.

“O sincretismo religioso e cultural é um fenômeno universal que acontece sempre quando um grupo religioso ou cultural se encontra em termos de convívio com outro grupo diferente. Muitos não veem problema algum. Contudo, o sincretismo, especialmente aqui no Brasil, envolvendo as culturas africanas e indígenas, carrega uma história forte de dominação”.

Ele explica que o sincretismo religioso foi uma estratégia dos povos africanos de manterem viva a religiosidade. Uma forma de resistir à colonização. “Foi a forma de celebrar fé sem ser molestado, portanto resistência à dominação católica portuguesa. No movimento sincrético há uma ressignificação das entidades religiosas. Nos tempos atuais o sincretismo descambou para a intolerância religiosa. Agora a violência é explícita, com destruição dos terreiros”.

Ainda segundo o especialista, o sincretismo de Nossa Senhora Aparecida com a entidade Oxum ganha uma revalorização muito grande das entidades femininas envolvidas nesse encontro.

“Enquanto Nossa Senhora Aparecida representa a devoção portuguesa de Nossa Senhora da Conceição, Oxum será representada como uma Orixá feminina, que representa a beleza e a pureza. É invocada para a limpeza fluida das pessoas e dos ambientes dos templos. Representa um ponto forte na moral e se apresenta como modelo de mãe. Goza de elevado respeito nos cultos dos templos e representa um Orixá da fertilidade das águas doces. Portanto, tudo o que se refere à fertilidade, à gravidez, está relacionado com o culto a Oxum. Outra Orixá feminina que é mais conhecida entre nós é Iemanjá, representada no sincretismo como Nossa Senhora dos Navegantes ou Nossas Senhora das Candeias. Seu culto também se refere à fertilidade enquanto proteção após o nascimento”.

O especialista diz que o estudo dos diversos sincretismos é muito importante na medida em que permite conhecer melhor nossas raízes culturais e religiosas, nossas formas de domínio e resistência.

“Um estudo responsável e sério nos ajuda no diálogo inter-religioso e na convivência plural. E serve para ir destruindo ações de intolerância. Essa relação tão forte do sincretismo envolvendo a devoção católica a Nossa Senhora Aparecida e o culto da Umbanda e Condomblé a Oxum nos mostra a forte identificação de nossos povos com entidades femininas. Especialmente nas camadas mais pobres da população branca e negra, esse sincretismo é expressão de uma religiosidade popular que se faz vida, proteção, devoção, fé”.

Independente de que lado esteja, o amor, a fé, o respeito, estão presentes nesses lugares. Ou deveria estar. As manchetes de jornais publicam imagens de homens engravatados chutando imagens ou fazendo excursão até o terreiro de umbanda mais próximo para “em nome de Jesus”, destruir o local reservado a oração das pessoas.

“O povo simples e pobre não está preocupado com os dogmas da igreja, e, por esse motivo, o sincretismo ficou fortalecido. Hoje os tradicionalistas e fundamentalistas buscam acabar com essa expressão da cultura religiosa popular, e para isso lançam mão dos mais diversos meios, inclusive o uso da força para não apenas destruir terreiros, mas também ameaçar a vida das pessoas. Estamos passando por uma época muito difícil. Como na idade média, em nome da fé (falsa e não evangélica) até as crianças foram enviadas para combater durante as cruzadas. Vivemos tempos de cruzadas religiosas nos dias de hoje e uma delas está na guerra contra as religiões de matriz africana. A verdadeira fé em Nossa Senhora Aparecida não comporta essa guerra. Ela é mãe que acolhe a todos como acolheu nos tempos de seu filho Jesus”, afirma Cavalieri.

História

As informações sobre a aparição de Nossa Senhora Aparecida são de 1717, 171 anos antes da abolição dos escravizados no dia 13 de maio de 1888. A padroeira do Brasil, mãe de Jesus Cristo, saiu de dentro do rio e foi morar para sempre no coração de milhares de brasileiros.

Emergiu como negra, em um tempo em que ser negro era sinônimo de dor e sofrimento. Ainda hoje muitos tentam dizer que a cor é fruto de fumaça de velas, lama, lodo e até sujeira do fundo do rio.

Naquela época, a pesca não estava nada produtiva e, ao puxar a rede, os pescadores se depararam com a imagem da santa, mas somente o corpo. No segundo arremesso da rede, veio a cabeça.

Conta a história que a imagem chegou a pesar tanto que não foi possível retirar do barco. Sendo assim, a santa ficou por lá e, a partir disso, eles começaram pescar um grande volume de peixes. Esse acontecimento dos pescadores foi considerado um milagre e, a partir desse episódio, iniciou-se a devoção pela santa.

Diante de todas as mazelas que os povos africanos sofriam, de repente, uma imagem saindo das águas, era a personificação da esperança para aquelas pessoas. Muitos dizem que ela não é preta, numa tentativa de branqueamento da padroeira. “Tem um grupo religioso fundamentalista que quer embranquecer a imagem, assim como quer alterar uso de vestes litúrgicas como o uso do vermelho”, diz a especialista.

Cavalieri fala sobre a origem da escultura. “A imagem nasceu das mãos do escultor e monge beneditino Frei Agostinho da Piedade. É uma arte erudita feita na primeira metade de 1600”.

Milagres

Conta-se que o então escravo Zacarias voltava acorrentado com o feitor para a fazenda de onde fugir, quando, a passar na frente de uma capela dedicada a Nossa Senhora, pediu para parar e rezar. Depois disso, os grilhões se quebraram e os senhores o libertaram.

Outra milagre famoso é o da criança cega que pediu aos pais para ser levada até a Igreja de Nossa Senhora Aparecida. Durante a visita disse: “como é linda essa igreja” e, a partir daí, passou a enxergar normalmente.

Ainda houve o cavalheiro sem fé, que não acreditava na força da santa, e, para provar essa convicção, quis entrar com o cavalo na igreja. Durante o percurso, a pata do animal se prendeu. Com isso, ele caiu e acabou por admitir que essa era uma das provas dos poderes de Nossa Senhora.

Dessa forma, a santa foi ganhando popularidade, e, em 1930, o Papa XI decretou que Nossa Senhora Aparecida era a padroeira do Brasil, se juntando a São Pedro da Alcântara, que já tinha esse status.

 

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