A depressão do enlutado: quando temos que pedir ajuda profissional?

O dor do luto é um processo doloroso e, muita das vezes, longo. Os dias que se seguem são de um mix de sentimentos. Algumas pessoas acabam desenvolvendo um quadro depressivo, que de acordo com a psicóloga Tainá Machado, é muito comum.

“A depressão é uma patologia psiquiátrica onde a pessoa se encontra em uma tristeza muito grande, um estado melancólico, pensamentos negativos, sintomas físicos, vontade de ficar isolada de todos, não quer ver nem falar com ninguém. E o luto é um momento onde a pessoa se encontra nessa situação que pode ser temporária, mas que em alguns casos pode não ser”.

A médica afirma que uma das fases do luto é a depressão. “Não é patológica, é uma tristeza grande pela perda de alguém. Nesse momento onde a dor é grande, a tristeza, o choro, são normais. A sensação de que tudo aquilo não vai passar, são as fases iniciais, mas que ao longo do tempo, serão preenchidas pelas boas lembranças e as lágrimas começam a cair em outros momentos”.

O problema é que, algumas pessoas sentem essa tristeza por um período maior que o esperado. Quando esse sentimento se arrasta por muito tempo, como meses, já é um alerta; o luto faz parte, e cada pessoa tem o seu jeito e momento de passar por ele, mas tem ficar de olho, porque pode ser que esteja caminhando para uma depressão patológica.

A depressão é como uma torneira que pinga uma gota todos os dias, que lentamente, vai enchendo um balde, no começo ninguém nota, mas com o passar do tempo, é preciso tomar uma providência. “A doença apresenta estágios. Algumas pessoas param de se cuidar; deixam de escovar os dentes, pentear os cabelos, tomar banho, enquanto outras, continuam com a rotina, mas se encontram em estado depressivo, não enxergando mais a vida da mesma forma, como se a vida perdesse a cor, o brilho, deixando de fazer o que mais gosta, os hobbies. Algumas pessoas passam a ter dificuldade em se concentrar, outros, tem alteração do apetite, alteração de sono, lentidão das atividades físicas e mentais para fazer as coisas, sentimento de culpa, fracasso, com excesso de pensamentos negativos”.

Momento de pedir ajuda

A saudade e a dor da perda são inevitáveis na vida daqueles que ficam. Mas ainda assim, o entendimento que esse processo faz parte da vida de tudo que vive, pode te ajudar a entender os sinais de que você já não está em condições de passar por isso sozinho.

“Quando as coisas já não estão da mesma maneira, a instabilidade emocional que tinha antes, são indicativos. Quem está nesse estágio não enxerga dessa mesma forma. As vezes a pessoa acha que está tudo bem e não precisa de ajuda, mas quem está ao redor sabe que tem algo a mais, e deve oferecer ajuda sim, até insistir, porque é comum a pessoa não aceitar”.

Ter apoio de um profissional é importante para ajudar e fazer com que a pessoa enxergue que é possível passar por isso, que não está sozinha, existe ajuda e ambiente seguros onde a pessoa não será julgada. O luto precisa ser encarado, é necessário entender o que está acontecendo, conversar sobre, dar sentido a esse sentimento que está por dentro.

O luto

O luto é um momento singular, ninguém sente ou reage da mesma forma. Nem sempre uma pessoa que volta ao trabalho no outro dia é porque está bem. Voltar a rotina pode ser uma forma de tentar se ajudar.

“Não existe uma fórmula para evitar a depressão. Cada um tem sua forma de passar pelo luto. Algumas pessoas demoram mais, outras menos, mas é necessário passar por essa etapa. Algumas pessoas gostam de doar os pertences da pessoa que se foi, para evitar ficar olhando, outras gostam de guardar. O mais importante é entender que é necessário passar pelas fases do luto para conseguir chegar a aceitação e viver com o luto adaptado a sua vida. O luto não se supera, ele se adapta a sua vida”.

E quando a ordem natural é quebrada? Quem tem filhos sabe, a lei natural da vida diz que são os filhos que enterram os pais e não o contrário. “Um documentário sobre a boate Kiss relatou que alguns pais daquelas vítimas sofreram infarto. Isso mostra como é importante viver o luto, externar o que sente, não ter vergonha de chorar, de sofrer, buscar apoio dos familiares, ajuda profissional. Qualquer sentimento que acumulamos dentro de nós, gera sintomas no nosso corpo. E ele fala em nós de diversas formas, podendo causar doenças patológicas pelas emoções que somatizamos”.

Centro de Valorização da Vida

Com 61 anos de existência, o CVV, de acordo com o site, realiza cerca de três milhões de atendimentos anuais, pelos mais de 4 mil voluntários espalhados pelo Brasil. Uma delas é a voluntária Ana. Ela relata como chegou até o CVV. “Fui convidada a participar do curso de seleção de voluntários e me identifiquei com o trabalho e a proposta de vida do CVV. Sou voluntária plantonista. Não sou psicóloga e para ser voluntária é necessário passar pelo processo de seleção, ter disponibilidade de tempo, calor humano, e busca do autoconhecimento. Nós nos apoiamos por meio de reuniões de grupo, cursos, encontros de voluntários para treinar e estudar”.

“Está na missão do CVV a prevenção do suicídio e tem pessoas que procuram o grupo pensando em suicídio. Nós acolhemos a todos, com respeito, sem julgamento, buscando compreender sua dor e com a confiança na sua capacidade de se autoajudar”, relatou.

Ligue 188

A vida postada não é igual a vida vivida. Todos tempos problemas e em algum momento da vida, a situação nos cause desconforto, algo que nos tire do eixo, como a morte repentina de um amigo. O telefone do CVV é fácil de gravar, 188, ele pode te ajudar a passar por esse momento. Basta ligar e um voluntário vai atender a qualquer hora ou dia.

Texto de Andressa Mota
Edição de Rafaela Maia

 

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