Com o avanço das tecnologias e disseminação de informações, os costumes e tradições passam por mudanças, sendo alguns renovados e outros questionados. O celibato e castidade também são alvos deste debate, dizem padres docentes de seminários.
Uma pesquisa realizada pelo padre sociólogo José Carlos Pereira apontou que, dos 1.858 colegas de clero entrevistados, apenas 86,4% se conformaram com o celibato. A pesquisa foi realizada entre os anos de 2019 e 2021, e investigou aspectos do perfil, rotina e as queixas daqueles que servem a igreja católica em diferentes lugares do Brasil.
Segundo o Padre José Tosi, o celibato é uma Lei instituída por volta do século XII para todo o clero que faz parte da doutrina da Igreja Católica. “Vale ressaltar que, por não ser dogma de fé e nem bíblico, é uma Lei da igreja que pode ser revista”.
Todo candidato ao sacerdócio ministerial ordenado está obrigado ao celibato, explica o Padre Arthur Francisco Juliatti dos Santos, doutor em Teologia e vice-reitor do Seminário
Nossa Senhora da Penha.
“Na Igreja Católica, o celibato é uma exigência para o exercício do ministério. As motivações mais profundas dessa exigência estão ligadas ao amplo argumento do amor humano em sua relação com o amor divino”.
Para além da exigência, diz padre Arthur, está a opção consciente de que o celibato está fundamentado na fé e no querer assemelhar-se a Cristo, que é a fonte de vocação sacerdotal. “Cristo é o único que dá o verdadeiro significado ao celibato (cf. Lc 14,26; 18,29; Mt 19,12)”.
Se tornar um celibatário consiste em abdicar da família, casamento e todas as outras possibilidades que a vida oferece para priorizar a relação interpessoal com o senhor Jesus e com irmãos da comunidade, exclusivamente a serviço da Igreja. Porém, o teólogo ressalta que um padre não é um funcionário da igreja, mas sim alguém que busca viver em especial união com o senhor Jesus.
“A ruptura com os vínculos familiares e a renúncia aos laços familiares não significa só ter mais tempo para ou estar mais livre para seguir Jesus, mas se opta ao celibato para estar com Jesus e o povo de Deus. Isto não significa, entretanto, desprezo pelo matrimônio ou pelas relações humanas em geral”, explica Padre Arthur.
Castidade
Ser celibatário não significa ser casto e, apesar de distintas, ambas as práticas são obrigatórias para os padres católicos. “Todos que assumem o ministério sacerdotal, os religiosos e religiosas, estão obrigados a essas duas virtudes por amor a Deus e à igreja. Na ordenação do padre e dos votos religiosos e religiosas, fazemos os votos de castidade e observância do celibato”.
De acordo com o religioso, a castidade é uma virtude evangélica que liga intimamente a vida a Jesus, através da entrega consciente livre e amorosa a Deus. “Se diz daquele que é casto, puro de coração, inteiramente voltado para Deus, para o amor puro, pleno, que gera felicidade. Ser casto é estar cada vez mais em sintonia com Deus, numa comunhão de fé e vida”.
Pereira aponta que, para a religião, a castidade livre e consciente gera felicidade e prazer. “Felicidade e prazer não são sinônimos em si, mas a castidade é prazerosa quando vivida em sua plenitude e beleza, num amor verdadeiro à Cristo e à igreja. Possibilita e amplia as relações interpessoais e humanas em todas as dimensões”.
Não é preciso ser padre ou freira para ser casto, destaca o padre. “É um dever de todo cristão. Podemos e devemos viver a castidade sem ser um religioso consagrado ou ordenado”.
Desta forma, o celibato e a castidade tornam as pessoas mais livres para o exercício e a vivencia plena do ministério. “Significa estar disponível para Deus e à igreja, a serviço do evangelho e onde for necessária a presença e ação da igreja. Significa entrega total ao dom do amor e serviço aos irmãos e irmãs no tempo e no espaço”, conclui padre José.
Vida sacerdotal
Para entrar na vida sacerdotal, isto é, tornar-se padre, os jovens precisam se preparar por oito anos. De acordo com padre José, esse período de formação serve para clarear e fortalecer a real vocação a esse ministério.
“Ao final da formação, com a graça de Deus, a ajuda dos formadores e da oração, o candidato decide se está disposto e se sente capaz de acolher com amor e alegria o propósito”.
Se engana quem acredita que celibato e castidade indicam uma vida solitária para os padres. “Para os que o assumem, o celibato não é apenas renúncia à experiência matrimonial, mas compromisso com os laços de fraternidade, de amizade e de entrega total a Deus, numa consagração sempre mais íntima ao senhor Jesus e de doação, sempre mais livre aos fiéis”, indica o teólogo.
Jesus, diz padre Arthur, escolheu livremente viver célibe, mas não isolado. “Teve vida fraterna com seus discípulos, com os quais formava uma verdadeira família, onde os laços não vinham da carne ou do sangue”.
Modernidade e tradição
Conforme apontam os padres, a modernidade pode e deve andar junto com as tradições, a exemplo das novas gerações, que continuam seguindo os passos das anteriores. “Essas virtudes evangélicas são transmitidas de geração em geração, o que, para os católicos, parece bastante normal, embora ainda pouco compreendido, por existirem muitas interpretações deturpadas a respeito”, destaca Pereira.
Segundo análise do padre, existem divergências e incompreensões das novas gerações sobre o celibato, castidade e outras tradições. “Vivemos tempos diferentes e estamos muito distantes das origens da igreja, n tempo da globalização, da internet, das novas tecnologias, das ciências modernas e uma infinidade de situações que não só influenciam, como formam as novas consciências das gerações atuais. Para esses, parece coisa do passado, algo que não faz mais sentido. São valores – como tantos outros – que há muito, vem sendo esquecidos e negligenciados”.
Para as gerações mais atuais, é incompreensível um padre celibatário, um religioso ou religiosa que deixa de usufruir das facilidades e dos bens que são oferecidos para dedicarem-se à Igreja, completa o padre.
Segundo Tosi, a evolução faz parte da vida e da sociedade e com a igreja não é diferente. “Podemos usufruir dos bens e meios modernos sem prescindir dos valores e da qualidade da vida. A vida religiosa não perde seu encanto e beleza por causa da modernidade. Ao contrário, a incentiva e fortalece ainda mais. Cada vez mais somos desafiados a responder aos novos apelos e necessidades da sociedade hodierna, ainda que incompreendidos. Somos desafiados a ser sinais num mundo cada vez mais árido e carente de valores que realmente nos façam felizes e não apenas nos dão prazer imediato e momentâneo”, pontua.









