Há momentos em que a história deixa de sussurrar e passa a gritar. O caso Jeffrey Epstein é um desses momentos. Não apenas pelo horror dos crimes denunciados, mas pelo que ele revela sobre o mundo que construímos, sobre quem protegemos e, sobretudo, sobre aquilo que adoramos.
Em meio a documentos, arquivos, nomes influentes e redes de silêncio, emerge uma pergunta inevitável para quem leva a fé cristã a sério: o que tudo isso diz à luz do Evangelho? E mais: o que isso diz sobre nós?
O que foi o Caso Epstein
Jeffrey Epstein foi um bilionário norte-americano que morreu em 2019, enquanto aguardava julgamento por crimes graves, incluindo abuso e exploração sexual de menores. Ao longo dos anos, vieram à tona denúncias de que esses crimes não ocorreram de forma isolada, mas dentro de uma estrutura sofisticada, que envolvia poder econômico, influência política e proteção institucional.
Documentos e arquivos associados ao caso revelaram conexões com figuras públicas, empresários, políticos e pessoas extremamente poderosas. Independentemente de desfechos jurídicos individuais, o caso escancarou algo perturbador: quando dinheiro e poder se concentram sem freios morais, vidas vulneráveis se tornam descartáveis.
É nesse ponto que a reflexão cristã se impõe — não para alimentar teorias ou sensacionalismo, mas para discernir espiritualmente o tempo em que vivemos.

O caso Epstein como espelho da idolatria do nosso tempo
Na leitura teológica proposta pelos teólogos Caio Modesto e Leonardo Delgado, o caso Epstein funciona como um raio-x espiritual da sociedade contemporânea. Ambos concordam que não se trata apenas de desvios individuais, mas da manifestação de um sistema moldado por ídolos antigos com roupas modernas.
Caio Modesto descreve esse sistema como a “tríade da desordem humana: sexo, dinheiro e poder”. Quando essas forças passam a governar o coração humano, ocorre uma inversão completa de valores: o prazer vira deus, o sucesso vira altar e o ego humano ocupa o centro da adoração.
Leonardo Delgado caminha na mesma direção ao lembrar que a Escritura é clara ao afirmar que “o mundo jaz no maligno” (1Jo 5.19) e que aquilo que o mundo oferece — a cobiça da carne, dos olhos e a soberba da vida — não procede do Pai (1Jo 2.15–16).
O ponto central é contundente: a modernidade não abandonou a idolatria; apenas a tornou mais aceitável, mais discreta e mais eficiente.
Baal, Moloque e Mamom ainda estão entre nós
A Bíblia apresenta deuses falsos que exigiam sacrifícios humanos, exploração dos vulneráveis e submissão total. Baal, Moloque e Mamom não eram apenas figuras religiosas, mas sistemas de poder.
Caio Modesto lembra que hoje já não há estátuas ou fogueiras públicas, mas existem redes de exploração, festas privadas, estruturas financeiras e mecanismos de silêncio que protegem “gente grande às custas de vidas pequenas”. Leonardo Delgado reforça que a lógica é a mesma: sacrificar o outro para manter prazer, status e domínio.
Jesus foi direto ao dizer: “Ninguém pode servir a dois senhores… não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mt 6.24). O problema não é ter recursos, influência ou trabalho, mas permitir que essas coisas ocupem o lugar de Deus no coração.

Depravação humana e a ilusão de salvadores terrenos
Outro ponto comum nas duas leituras é o reconhecimento da depravação do ser humano. O caso Epstein desmonta a ilusão de que existem elites moralmente neutras ou sistemas humanos capazes de salvar a si mesmos.
Leonardo Delgado chama atenção para um risco espiritual recorrente: cristãos que passam a idolatrar políticos, empresários ou figuras públicas apenas por afinidade ideológica, tratando-os como se fossem referências morais ou até salvadores.
A Escritura adverte: “Não confieis em príncipes, nem nos filhos dos homens, em quem não há salvação” (Sl 146.3). O Evangelho nos livra tanto da ingenuidade quanto do desespero, lembrando que todos pecaram (Rm 3.23) e que o coração humano é enganoso (Jr 17.9).

Justiça, juízo e esperança que não decepciona
Diante de escândalos tão profundos, surge uma sensação de impotência. Mas a fé cristã afirma algo que o mundo frequentemente ignora: a justiça final não falha.
Caio Modesto recorda que, ainda que tribunais humanos sejam insuficientes, ninguém escapará do juízo de Deus. Leonardo Delgado complementa com a perspectiva eterna: “Este mundo passa, e com ele tudo o que as pessoas tanto desejam; mas quem faz a vontade de Deus vive para sempre” (1Jo 2.17).
Essa esperança não produz indiferença, mas vigilância. Não nos chama ao ódio, mas ao arrependimento. Não nos conduz à fuga do mundo, mas a uma vida fiel no meio dele.
Um chamado pessoal à luz do Evangelho
O caso Epstein nos obriga a fazer perguntas incômodas — não apenas sobre o mundo, mas sobre nós mesmos. Onde está o nosso coração? O que governa nossas escolhas? Em quem depositamos nossa esperança?
Jesus perguntou: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mt 16.26). O Evangelho nos chama a uma vida diferente: amar a Deus acima de todas as coisas, amar o próximo, rejeitar os ídolos deste século e confiar não em poder, dinheiro ou influência, mas em Cristo.
Em um mundo que normaliza a exploração e glamouriza o pecado, o cristão é chamado a viver como sinal do Reino — com humildade, discernimento, justiça e esperança. Porque, no fim, não são os ídolos que permanecem, mas o Deus vivo que faz novas todas as coisas.
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