No dia 28 de janeiro, a Igreja Católica celebra o Dia de São Tomás de Aquino. Embora se trate de uma data do calendário católico, ignorar Tomás de Aquino seria um empobrecimento intelectual para qualquer tradição cristã séria. Frade dominicano do século XIII, Tomás foi um dos maiores teólogos e filósofos da história do cristianismo e do pensamento ocidental, cuja influência ultrapassa fronteiras confessionais e permanece relevante até hoje.
Um pensador de seu tempo — e além dele
Tomás de Aquino nasceu em 1225, no sul da Itália, em um contexto marcado pelo florescimento das universidades medievais e pela redescoberta das obras de Aristóteles no Ocidente. A entrada do pensamento aristotélico na Europa cristã gerou tensão: muitos temiam que a filosofia pagã ameaçasse a fé bíblica. É nesse cenário que Tomás se destaca.
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Segundo o historiador Étienne Gilson, um dos maiores estudiosos de Aquino, o mérito de Tomás não foi “misturar” filosofia e teologia, mas ordenar corretamente seus campos, afirmando que a razão possui autonomia relativa, enquanto a revelação possui primazia absoluta (The Christian Philosophy of St. Thomas Aquinas). Para Tomás, a verdade não se contradiz, pois toda verdade procede de Deus.
Essa convicção ecoa um princípio que, mais tarde, seria caro à tradição reformada: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto” (Tiago 1.17).

Teologia, filosofia e a busca pela verdade
Tomás de Aquino desenvolveu contribuições profundas em áreas como doutrina de Deus, ética, antropologia teológica, lei natural e filosofia moral. Sua obra mais conhecida, a Summa Theologiae, não foi escrita como um tratado devocional, mas como um esforço pedagógico rigoroso para formar cristãos intelectualmente responsáveis.
O teólogo anglicano Brian Davies observa que Tomás jamais tratou a fé como substituta do pensamento, mas como seu fundamento último (The Thought of Thomas Aquinas). Essa postura confronta tanto o racionalismo autossuficiente quanto o fideísmo anti-intelectual — dois extremos ainda presentes no cristianismo contemporâneo.
O olhar da tradição reformada
A Reforma Protestante discordou de Tomás em pontos centrais, como a doutrina da justificação e a relação entre natureza e graça. No entanto, reformadores e teólogos reformados nunca o descartaram como irrelevante.
João Calvino, embora crítico do escolasticismo tardio, dialoga com categorias herdadas de Tomás. Já Herman Bavinck, um dos maiores teólogos reformados do século XX, reconhece que a teologia cristã “não pode se dar ao luxo de desprezar séculos de reflexão séria” (Filosofia da Revelação). Para Bavinck, Tomás representa um esforço legítimo — ainda que imperfeito — de pensar a fé cristã de forma coerente e pública.
Richard Muller, especialista em teologia reformada pós-Reforma, demonstra que muitos reformadores utilizaram conceitos desenvolvidos por Tomás, reinterpretando-os à luz das Escrituras (Post-Reformation Reformed Dogmatics). Isso revela que a tradição reformada não nasce do vazio, mas dialoga criticamente com a história.

Atualidade de Tomás em um mundo fragmentado
Em tempos marcados pelo relativismo moral, pela desconfiança da razão e por uma fé reduzida ao sentimento, Tomás de Aquino oferece uma lição valiosa: crer não é desligar o cérebro. Sua insistência em uma fé intelectualmente responsável é profundamente atual.
A tradição reformada sempre afirmou que o cristão é chamado a amar a Deus “de todo o entendimento” (Mateus 22.37). Nesse ponto, Tomás se torna um aliado inesperado contra o anti-intelectualismo religioso que enfraquece o testemunho cristão no espaço público.
Uma lição para os cristãos de hoje
Tomás de Aquino nos ensina que:
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a fé cristã pode dialogar com a cultura sem se render a ela;
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a razão é dom de Deus, ainda que afetada pela Queda;
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a teologia precisa gerar ética, responsabilidade e compromisso público.
Mesmo partindo de tradições distintas, cristãos reformados podem aprender com Tomás a coragem de pensar, o rigor intelectual e a convicção de que a verdade pertence a Deus — onde quer que seja encontrada.
Em um mundo que grita opiniões e despreza fundamentos, Tomás de Aquino continua nos lembrando que pensar bem também é um ato de fé.
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