As lições do criador do Judô no Dia Mundial do esporte

Dia Mundial do Judô é celebrado dia 28 de outubro, data que marca 160 anos desde o nascimento do criador do Judô

As lições do criador do Judô no Dia Mundial do esporte
Há 160 anos nascia Jigoro Kano o criador do Judô;

Neste dia 28 de outubro completa-se 160 anos desde o nascimento de Jigoro Kano. Provavelmente, muitas pessoas não estão familiarizadas com este nome, mas quem é judoca lembra dele diariamente.

O japonês Kano é o criador do Judô e seus ensinamentos são aplicados não somente no “caminho suave” – significado do nome “Judô” – mas em praticamente todas as nuances da vida dos judocas de alma.

O judô foi idealizado em 1822 e Jigoro Kano englobou na arte marcial princípios fundamentais que incluem, além das questões da educação física, características de natureza ética e moral. Eles são o “princípio da máxima eficiência do corpo e do espírito”, “princípio da prosperidade e benefícios mútuos” – esses princípios inclusive fazem parte do ensino em escolas japonesas até os dias atuais – e o “princípio da suavidade”. Kano chegou a integrar, inclusive, o Ministério da Educação japonês, tamanha a influência da filosofia do esporte na vida prática dos discípulos.

Os ensinamentos do Judô continuam a ser aplicados no cotidiano dos judocas para diversos tipos de circunstâncias da vida. Se “todo judoca é um eterno aprendiz”, conforme pronunciado pelos tatames Brasil afora, mesmo os senseis mais graduados nutrem profunda estima pelos princípios e filosofia do esporte, aplicando-as nas trajetórias.

Judô além do dojô

O sensei José Adelino, 74 anos, gosta de parafrasear um amigo que diz: “O judô além do dojô”. Ele explica que, sempre, nas palestras que faz, fala sobre os três pilares filosóficos do judô. O princípio do “Ju” (suavidade), traz a ideia de ‘ceder para vencer’. “’O suave controla o duro’. Para o judoca, isso é a questão da flexibilidade”.

Adelino conta que Kano compreendeu que o princípio do Ju não seria eficiente em todas as situações de combate. Daí surge o princípio da máxima eficiência com o mínimo de esforço.

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Sensei José Adelino fala dos três princípios do Judô, instituídos por Jigoro Kano, em palestras

“Se colocar a energia para trabalhar de maneira racional, você conseguirá derrubar oponente se ele estiver desequilibrado, mesmo que tenha o dobro ou triplo da sua força, com um simples golpe, tipo uma rasteira”, conta o sensei, explicando que no judô usa-se a força que o oponente faz para puxar ou empurrar, aproveitando-a para aplicar o golpe. “Daí a máxima eficiência com o mínimo de esforço. Significa que eu somo a minha força mais a do oponente contra ele mesmo”.

O princípio do bem-estar e benefício mútuo sintetiza o espírito do Judô.  “Esses princípios devem ser praticados não somente em cima do tatame, mas em todos os aspectos da vida. É o judô além do dojô. Traduzem-se na máxima eficiência do uso da mente e corpo para o benefício e bem-estar mútuo. É, ao mesmo tempo, zelar pelo bem-estar do próximo e o próprio. É uma aprendizagem mútua, que contribui para o crescimento seu e do oponente. A harmonia traz ganho para todos, já que agem como uma só pessoa. É uma maneira de construir uma sociedade mais eficiente”, conclui Adelino.

Solidariedade e progresso universal

Luiz Yamate, 17 vezes campeão capixaba com a academia Associação de Judô Yamate, e mestre de nomes, entre eles o judoca olímpico Nacif Elias, afirma que em toda a trajetória de 63 anos – ele começou em 1957, aos sete anos – no esporte, os princípios do judô o embasaram na vida. Mas isso ficou mais nítido quando decidiu se dedicar de forma exclusiva ao esporte.

“No início, como todo judoca iniciante, meu sonho era o de ser campeão, chegar na faixa preta e assim por diante. A partir do momento que decidi me dedicar exclusivamente ao Judô, comecei a entender melhor o motivo pelo qual o ‘Shihan’ (mestre) Jigoro Kano mudou de ‘Jujutsu’ para ‘Judô’, ou seja, de uma luta marcial para uma filosofia de vida, que fortalecesse não somente o corpo, mas a mente também”, explica ele.

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Sensei Luiz Yamate é árbitro internacional, 17 vezes campeão capixaba pela academia e mestre do atleta olímpico Nacif Elias

Yamate conta que o “Jita Kyoei” (traduzido pelo “Princípio da Prosperidade e Benefícios Mútuos”) é um dos ensinamentos que considera mais importantes. “Levo para a minha vida e para os meus ensinamentos no Judô”.

Esse princípio diz respeito à importância da solidariedade humana para o bem individual e universal, significando que o progresso pessoal deve ligar-se à ajuda ao próximo. Kano acreditava que a eficiência e o auxílio aos outros criariam não só um atleta melhor, mas um ser humano mais completo. “Podemos assim realizar o ensinamento do Mestre Jigoro Kano de que ‘a educação é o grande projeto da humanidade para os próximos séculos”, pontua o sensei Yamate.

Aplicação: o aprendizado nas derrotas

Jigoro Kano era um pensador. Diversas de suas frases de impacto referentes ao Judô estão nos pensamentos dos judocas, no dia-a-dia. O sensei Felipe Ceotto, do Judô Aliança, lembra de uma das frases do criador do judô: “A derrota na competição e no treinamento não deve ser uma fonte de desânimo ou de desespero. É sinal da necessidade de uma prática maior e de esforços redobrados”.

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Sensei Felipe Ceotto é policial federal e aplicou a sabedoria do judô nos concursos

Ele explica que este ensinamento sempre o norteou na vida, seja dentro ou fora do tatame. “Meu Sensei, Francisco Celso Leitão, o Chicão (in memoriam) sempre repetia que a maior vitória não consistia em não cair, mas sim em se levantar após cada queda. Persistência e resiliência. Nas competições, todos queremos ganhar, mas foram nas derrotas que eu tive os meus maiores aprendizados. Cada derrota que sofri me fez voltar com mais gana e vontade de dar a volta por cima. Treinos e mais treinos para não repetir o erro que me custara aquela derrota”.

Assim também foi na trajetória pessoal, ele lembra, quando cursou a faculdade de Direito e se enveredou pelo caminho dos concursos públicos. “Iniciou-se, então, a famosa saga dos ‘concurseiros’: estudos e provas. A cada prova que não obtinha êxito, retornava com mais afinco aos estudos, até que finalmente conquistei minha aprovação”, lembra ele, que hoje é policial federal.

Já com novo cargo, Ceotto se propôs a fazer parte de um grupo no qual disciplina e treinamentos seriam algo constante. “Aqui, mais uma vez, fez-se presente a máxima: “repetição, à exaustão, com correção, leva à perfeição”’, afirma ele, referindo-se mais uma vez a Kano.

Ele ainda menciona um outro ensinamento que está ligado aos mencionados anteriormente:  “Somente se aproxima da perfeição quem a procura com constância, sabedoria e, sobretudo, com muita humildade”. Para o sensei, a frase se explica por si mesma. “A soberba e a arrogância são os primeiros passos para o fracasso. Não importa quem ou o que você é, humildade (diferente de subserviência) é fundamental!”, conclui.

Gustavo Gouvêa
Gustavo Gouvêahttps://eshoje.com.br/author/gustavo-gouvea/
Jornalista graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em 2009; atuou nos principais veículos de comunicação do ES; tem mestrado em Ciências Sociais pela Ufes (2019), é teólogo formado pelo Cetebes (Centro Teológico Batista do ES) em 2023 e é músico.

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