ES reduz férias escolares e reacende debate sobre impactos no aprendizado e na saúde mental

A redução das férias escolares de julho na rede estadual do Espírito Santo reacendeu um debate sobre os impactos da medida no aprendizado dos estudantes e na saúde mental de alunos e professores. Neste ano, o recesso dos estudantes caiu de 16 para 10 dias, enquanto o período de descanso dos docentes foi reduzido de 11 para nove dias corridos.

A mudança acompanha uma tendência observada em outras redes públicas do país, que vêm encurtando o recesso de meio de ano sob o argumento de reduzir perdas de aprendizagem e facilitar a rotina das famílias. Especialistas, no entanto, alertam que a diminuição do período de descanso pode comprometer o bem-estar de estudantes e professores, além de transformar a escola em um espaço de produtividade contínua.

Levantamento mostra que, além do Espírito Santo, estados como São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul também reduziram as férias escolares em 2026. Em São Paulo, por exemplo, os estudantes da rede estadual passaram de 27 para 17 dias de recesso, enquanto na capital o período caiu de 30 para 15 dias.

Para a educadora e pesquisadora Lo-Ruama Bastos, a redução das férias reflete uma mudança na forma como a sociedade enxerga o papel da escola.

“Há algum tempo a gente já via a redução das férias para os professores, mas ainda se mantinha um período maior para os estudantes. Assim, os educadores tinham alguns dias para planejamento e capacitação.”

Segundo ela, o encurtamento do recesso está diretamente ligado às transformações no mercado de trabalho, que impõem jornadas cada vez mais intensas aos pais e acabam transferindo à escola responsabilidades que vão além da educação.

“A conta sobra para a escola. Ela não pode parar, porque senão os pais, sobretudo as mães, não vão ter com quem deixar os filhos. A retirada do descanso torna a escola exaustiva. Não só para os professores, mas também para os alunos. Isso prejudica o aprendizado e o desenvolvimento da criança, que também precisa de outros espaços e estímulos para crescer.”

Pesquisas internacionais realizadas em países como Estados Unidos e Canadá identificaram um fenômeno conhecido como summer slide (“escorregão do verão”), em que estudantes podem esquecer parte do conteúdo aprendido durante férias prolongadas. O efeito costuma ser mais intenso entre alunos em situação de vulnerabilidade social.

O professor de Neurociências da Universidade Federal Fluminense (UFF), Julio Santos, afirma que ainda não existem estudos robustos sobre esse fenômeno no Brasil, mas ressalta que a realidade socioeconômica precisa ser considerada.

“Imagine que uma parcela pequena de crianças vai viajar, conhecer novos lugares e ampliar seu repertório cultural. Já uma parcela grande ficará em casa, com poucas interações sociais e sem estímulos. Isso amplia desigualdades.”

Apesar disso, o pesquisador avalia que reduzir as férias não resolve o problema.

“A redução das férias aumenta ainda mais a sobrecarga dos professores, retira um período em que eles poderiam repousar e cuidar da saúde mental para voltar mais descansados para o segundo semestre. Professores exaustos, doentes e sobrecarregados não têm as melhores condições de ensinar.”

Para ele, uma alternativa seria ampliar a oferta de atividades culturais, esportivas e recreativas durante o período de férias em equipamentos públicos, garantindo oportunidades para crianças e adolescentes sem eliminar o descanso escolar.

 

O que diz a SEDU

Procurada, a Secretaria de Estado da Educação (Sedu) informou que o calendário escolar de 2026 foi elaborado considerando a distribuição de feriados e dias não letivos ao longo do ano e que a definição do recesso não foi baseada em estudos específicos sobre aprendizagem nem em demandas das famílias. A pasta também afirmou manter ações voltadas ao bem-estar dos servidores.

Já as secretarias de São Paulo e Paraná afirmaram que o calendário respeita os 200 dias letivos previstos na legislação e foi organizado com critérios pedagógicos e administrativos. A Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul não respondeu aos questionamentos.

A discussão sobre a autonomia das redes de ensino também ganhou força após a sanção da lei que determina que, em 2027, o recesso escolar coincida com o período da Copa do Mundo Feminina, entre 24 de junho e 25 de julho. Estados e municípios defendem que a definição do calendário escolar continue sendo uma atribuição dos sistemas de ensino.

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