TCE-ES dá até 120 dias para regularizar transporte intermunicipal no Espírito Santo

O Tribunal de Contas do Estado do Espírito Santo (TCE-ES) aprovou, por unanimidade, uma série de determinações para regularizar o Sistema de Transporte Rodoviário Intermunicipal de Passageiros (Sitrip), que opera há décadas sem licitação no Estado. A decisão foi tomada pelo Plenário da Corte e formalizada no Acórdão 300/2026, publicado na última segunda-feira (4).

A medida segue parecer do Ministério Público de Contas do Espírito Santo (MPC-ES) e resultado de auditoria que apontou irregularidades graves na operação do sistema, incluindo a ausência de licitação, falhas na fiscalização e problemas na qualidade da frota.

Irregularidades identificadas

Segundo o TCE-ES, o sistema apresenta uma série de inconsistências estruturais. Entre os principais problemas estão:

  • Ausência de licitação para concessão do serviço, em desacordo com a legislação;
  • Utilização de veículos acima do limite de idade permitido;
  • Circulação de ônibus com certificados obrigatórios vencidos;
  • Falhas na divulgação de canais de reclamação para os usuários;
  • Deficiências no controle da Taxa de Gerenciamento de Operação do Sistema.

Determinações com prazos definidos

As decisões atingem diretamente a Secretaria de Estado de Mobilidade e Infraestrutura (Semobi) e a Companhia Estadual de Transportes Coletivos de Passageiros do Estado do Espírito Santo (Ceturb-ES), que terão prazos de até 120 dias para cumprir as determinações.

À Semobi, o Tribunal determinou que, em até 60 dias:

  • Apresente planejamento detalhado para realização da licitação;
  • Conclua estudos técnicos com diagnósticos operacional e econômico-financeiro;
  • Publique o edital de licitação para concessão das linhas do Sitrip, com envio ao TCE-ES para análise.

O órgão também deverá implementar mecanismos permanentes de participação popular, como consultas públicas e audiências, além de incluir nos futuros contratos metas de inovação tecnológica e sustentabilidade — como bilhetagem eletrônica integrada, acessibilidade e redução de emissões.

Já à Ceturb-ES, foi estabelecido prazo de até 120 dias para:

  • Instaurar processos disciplinares contra empresas irregulares;
  • Aplicar penalidades e exigir cumprimento das normas do sistema e do Código de Trânsito Brasileiro;
  • Detalhar os procedimentos de análise da documentação da frota;
  • Implementar melhorias nos processos de fiscalização.

Também foram determinadas ações adicionais, como inspeções extraordinárias em veículos com mais de 10 anos, contratação de auditoria externa independente e capacitação contínua dos agentes de fiscalização.

Recomendações para melhoria do serviço

Além das determinações, o TCE-ES expediu recomendações para aprimorar a qualidade do transporte intermunicipal.

A Semobi terá 90 dias para apresentar uma proposta de revisão do regulamento do sistema, atualmente considerado defasado. Também deverá incluir indicadores de qualidade e metas de desempenho nos futuros contratos.

À Ceturb-ES, o Tribunal recomendou:

  • Atualizar ou complementar normas do sistema;
  • Garantir que tarifas sejam compatíveis com a qualidade do serviço;
  • Padronizar e ampliar a divulgação de canais de reclamação nos veículos;
  • Avaliar o uso de aplicativos de mensagens para atendimento ao público;
  • Reforçar o controle sobre a frota e a arrecadação das operadoras.

Histórico de irregularidades e inércia

O caso expõe um problema histórico. De acordo com o MPC-ES, o modelo atual vem sendo criticado há mais de uma década. Em 2014, o próprio órgão já havia questionado irregularidades em processos licitatórios conduzidos pela então Setop.

Em 2016, o TCE-ES confirmou falhas nesses processos, mas não aplicou sanções porque as licitações foram canceladas. Desde então, novas recomendações foram feitas, sem que houvesse avanço concreto.

Apesar de o governo estadual ter previsto a concessão do sistema no planejamento entre 2019 e 2022, nenhuma medida efetiva foi implementada.

A situação também foi alvo de decisão judicial ainda em 2012, que determinava a realização da licitação em até 12 meses. Segundo o relator do processo, conselheiro Carlos Ranna, mesmo após 13 anos e novas ordens judiciais em 2023, o Estado segue sem cumprir a determinação.

Impactos para o sistema

Na prática, o transporte intermunicipal no Espírito Santo continua sendo operado por empresas privadas sem licitação, em desacordo com a Constituição Federal. Para o MPC-ES, essa inércia administrativa — que já dura mais de 30 anos após a Constituição de 1988 — favorece a permanência de empresas sem concorrência, o que compromete a qualidade do serviço e impede avanços tecnológicos.

Embora o parecer do Ministério Público de Contas tenha sugerido aplicação de multa aos gestores da Semobi, o acórdão não prevê sanções neste momento. Ainda cabe recurso da decisão.

A expectativa agora é que as determinações do TCE-ES finalmente destravem o processo de modernização do sistema e garantam mais qualidade, segurança e transparência aos usuários do transporte intermunicipal no Estado.

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários
  1. Mais de uma década é brincadeira! Posso afirmar que aos 62 anos nunca tivemos nada que nos favorecesse. Sempre foi como se estivessem fazendo uma grande favor a população. E só piora! Sequer acesso descente nem para perquisarmos os horários de onibus, na rodoviária de Santa Teresa o celular que existe para comunicação é da TIN, que está sempre fora de cobertura. No syte só para pessoas muito esclarecidas sabem usar. Enfim a sociedade fica sempre a merce dos poderosos ! Enfim espero que antes de morrer eu consiga ver a justiça fazer valer com “URGÊNCIA” uma lei que possa nos beneficiar, mesmo que sempre pagamos caro por um péssimo serviço.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas

Notícias Relacionadas