Assédio e exaustão: Sindicato denuncia adoecimento grave de profissionais de enfermagem no ES

Um cenário alarmante de assédio moral, adoecimento psicológico e medo generalizado nos hospitais do Espírito Santo é o alvo de uma grave denúncia feita pelo Sindicato dos Trabalhadores da Saúde do Espírito Santo (Sindsaúde-ES). Segundo a entidade, a pressão extrema no ambiente de trabalho tem gerado consequências severas para os profissionais da enfermagem, culminando em casos de adoecimento grave e até tentativas de suicídio.

Os dados levantados pelo sindicato expõem a dimensão do problema: em apenas uma das maiores unidades filantrópicas do estado, que conta com mais de mil profissionais de enfermagem, mais da metade da equipe relata já ter sido vítima de assédio moral ou psicológico.

Apesar da gravidade, a subnotificação ainda é um dos maiores obstáculos. Os trabalhadores enfrentam ameaças e perseguições, e muitos evitam formalizar as queixas por medo de represálias, perda de benefícios ou demissão.

“Existe um ambiente de medo. Muitos profissionais não denunciam porque têm receio de perder o emprego, de sofrer ainda mais assédio ou perder direitos dentro da unidade”, relata a presidenta do Sindsaúde-ES, Geiza Pinheiro.

Assédio e exaustão: Sindicato denuncia adoecimento grave de profissionais de enfermagem no ESO reflexo do “pós-guerra” e o peso da pandemia

O alerta ganha ainda mais relevância no mês em que se celebra o Dia Internacional da Enfermagem (12 de maio). Dados atualizados em abril deste ano pelo Conselho Regional de Enfermagem do Espírito Santo (Coren-ES) mostram que o estado possui 14.748 enfermeiros ativos.

Para além das questões de gestão interna dos hospitais, a categoria ainda lida com as sequelas profundas deixadas pela linha de frente da pandemia da Covid-19.

“O ‘pós-guerra’ ainda existe. Muitos enfermeiros desenvolveram burnout e transtornos de ansiedade que não foram totalmente curados”, explica Fabiana Moreira, enfermeira e docente do curso de Enfermagem do Centro Universitário Estácio de Vitória. “A categoria carrega uma carga emocional acumulada; trabalhamos no limite do luto e da pressão técnica por muito tempo, e o reflexo disso ainda aparece no dia a dia das unidades”.

Segundo a docente, essa realidade forçou uma transformação urgente na preparação dos novos profissionais, exigindo que a formação vá além das habilidades técnicas. “Na saúde pública e na educação em saúde, hoje, discutimos muito mais o suporte psicológico ao profissional e a escuta ativa ao paciente. A humanização deixou de ser um conceito abstrato para se tornar uma ferramenta de sobrevivência”, destaca Fabiana.

Caso de repercussão nacional impulsiona denúncias

Diante do agravamento das condições de trabalho — marcadas por sobrecarga de tarefas, precarização e imposição de metas rigorosas —, o Sindsaúde-ES intensificou uma campanha de convocação para que a categoria rompa o silêncio.

A mobilização incentiva enfermeiros, técnicos, auxiliares de enfermagem e auxiliares de serviços médicos a denunciarem abusos sofridos no trabalho, sejam eles praticados por gestores, chefias ou até mesmo por pacientes e acompanhantes. A entidade vem orientando os profissionais a buscarem apoio jurídico e psicológico para o registro oficial dos casos.

A ação sindical ganhou força extra após a ampla repercussão nacional do caso de uma técnica de enfermagem de Brasília, que denunciou agressões físicas e verbais envolvendo o senador do Espírito Santo, Magno Malta (PL) – o parlamentar nega qualquer violência. O episódio trouxe visibilidade para a violência e o assédio institucional que os profissionais de saúde enfrentam cotidianamente.

O sindicato ressalta ainda que as mulheres representam a grande maioria da força de trabalho na enfermagem e costumam ser as mais impactadas pelo receio de retaliações e aberturas de processos administrativos. A entidade alerta que o ambiente tenso e adoecedor compromete diretamente a saúde mental das equipes e, consequentemente, a qualidade do atendimento prestado à população nas unidades públicas estaduais, municipais e filantrópicas, desde postos de saúde até UPAs e hospitais.

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