Assim como qualquer outra manifestação do engenho humano, a arquitetura é uma arte em constante transformação, intrinsecamente relacionada ao momento histórico em que se insere. Desde os tempos antigos ela foi usada como meio de expressão e comunicação, refletindo as crenças, valores e prioridades de uma sociedade em determinado momento.
A diversidade de influências culturais e a rica história do Espírito Santo podem ser observadas através de seus grandes monumentos arquitetônicos, que carregam detalhes que refletem o contexto em que foram construídos.
Com o objetivo de mostrar que as construções são capazes de eternizar e explicar histórias, por que não homenagear o Dia Mundial da Arquitetura, comemorado nesta segunda-feira (01), apresentando 10 projetos arquitetônicos que simbolizam a força e a história capixaba?
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Seja no centro de uma cidade ou no alto de um monte, os monumentos arquitetônicos são projetados e construídos com o intuito de durar por muitos anos, servindo como testemunho da criatividade e habilidade dos arquitetos e construtores envolvidos, e compartilhando as características que ajudam a contar e manter a história viva.
Como toda boa história, é sempre interessante começar do início. Sem dúvidas, andar pelas ruas de algumas cidades capixabas é como fazer uma viagem no tempo, basta olhar em volta para perceber que muitas construções preservam características que remetem ao início do século passado ou, ainda, ao início da colonização.
Desde o período colonial, com a arquitetura jesuítica, passando pela república cafeeira até os dias atuais, diversos monumentos arquitetônicos marcam a história capixaba e refletem o período de sua construção. A doutora em História Social e professora da Universidade Federal do Espírito, Patrícia Merlo, listou 10 obras capazes de contar essa história. Confira:
Igreja do Rosário – 1531-1551
A Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Vila Velha foi construída inicialmente como uma Capela na Prainha, em Vila Velha, local de desembarque do primeiro donatário da Capitania do Espírito Santo, Vasco Fernandes Coutinho, em 23 de maio de 1535.
No mesmo ano, sua construção começou e, em 1551, com a ajuda dos jesuítas, foi ampliada para atingir sua dimensão atual. É a igreja mais antiga do Espírito Santo e uma das mais antigas do Brasil.
Apesar de não haver vestígios materiais no local, a igreja teve como anexos a Casa de Misericórdia, construída em 1595 e posteriormente transferida para Vitória, e um cemitério onde esteve sepultado Vasco Fernandes Coutinho. Tombada pelo IPHAN desde 1950, suas diversas restaurações permitem hoje contemplar um belíssimo exemplar da arquitetura colonial.
Convento da Penha – 1568

Considerado uma das obras religiosas mais importantes do Brasil, sua construção começou em 1568, quando foi erguida uma capela no cume do penhasco, que em 1569 recebeu de Portugal a imagem de Nossa Senhora da Penha, hoje padroeira do Estado.
A capela foi fundada pelo frade franciscano Pedro Palácios, a quem é dedicada uma gruta do convento. O local sofreu diversas intervenções arquitetônicas e ampliações ao longo do tempo, com destaque para a Capela-Mor, revestida em madeira e com um altar adornado com mais de 19 tipos diferentes de mármore.
No interior do convento, encontram-se pinturas e esculturas de importante valor histórico, além das ruínas das antigas senzalas. Com uma área de mais de 600 mil metros quadrados, o Convento da Penha é um símbolo da história do Espírito Santo e representa a arquitetura do Período Colonial brasileiro.
Por seu valor histórico, também foi tombado como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional pelo IPHAN.
Palácio Anchieta e Escadaria Bárbara Lindemberg – Início da construção 1551
Iniciado como uma construção jesuítica em 1551 e finalizado em 1747, o conjunto de Igreja e Colégio foi, por séculos, a maior construção da Capitania do Espírito Santo. Após a expulsão dos jesuítas em 1759, o prédio tornou-se a Sede Oficial do Governo do Espírito Santo, passando por adaptações internas para receber a estrutura administrativa do Estado.
Entre 1908 e 2012, o edifício passou por uma grande transformação estilística, adquirindo características palacianas e ecléticas inspiradas no estilo neoclássico. Na década de 1940, os salões internos foram decorados de forma suntuosa, com inspiração renascentista e do rococó, adquirindo móveis, peças de escultura, pratarias e obras de arte que compõem o acervo do Palácio Anchieta.
De 2004 a 2009, o prédio passou por sua primeira grande obra de restauração externa e interna, com tratamento museológico de vários espaços. Já a Escadaria Bárbara Lindemberg, construída pelo francês Justin Nobert em 1886, possui quatro estátuas de mármore que representam as quatro estações do ano. Ela liga a parte baixa da cidade à parte alta da capital capixaba. A construção como um todo foi tombada pelo IPHAN em 1983.
Igreja dos Reis Magos – 1580-1615
Construída entre 1580 e 1615 pelos jesuítas, com a ajuda dos tupiniquins, a Igreja de Reis Magos é uma edificação secular inscrita nos livros de Belas Artes e Histórico. Tombada pelo IPHAN em 1943, é um imóvel de propriedade da União e um dos mais importantes símbolos do Estado.
O local passou por uma recente reforma e foi entregue no último dia 26 de junho. A antiga residência jesuítica ganhou novo uso com a implantação do Centro de Interpretação Aldeia dos Reis Magos, um museu com espaços interativos que permite ao público conhecer melhor os aldeamentos do Brasil e a história da passagem dos jesuítas pelo Espírito Santo.
De acordo com a historiadora essas obras arquitetônicas demonstram a forte presença e herança dos missionários católicos, especialmente os jesuítas, no Espírito Santo, impactando a paisagem capixaba e remontando ao período colonial. “A única exceção é a Escadaria Bárbara Lindemberg, iniciada nos últimos anos do Império Brasileiro (1886)”, destacou.
Brasil República
Dando sequência a este mergulho pela história através dos monumentos, chegamos ao Brasil República, período da história que teve início com a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, e que vigora até os dias atuais. Patrícia relembrou aqui alguns projetos que destacaram as décadas iniciais da república no Brasil. No Espírito Santo, podemos destacar:
Estação Ferroviária de Vitória – 1895
Localizada no bairro de Argolas, a Estação Ferroviária de Vitória, também conhecida como Estação Leopoldina, foi a primeira construída pela Estrada de Ferro Sul do Espírito Santo (EFSES) em 1895 e reconstruída em 1937 com as feições atuais, em estilo Art’Déco, em concreto armado.
A obra remonta ao período áureo do café, início da República, um dos grandes ciclos econômicos da História do Brasil, testemunhando a inserção do Espírito Santo nesse relevante momento histórico. A estação foi oficialmente tombada como patrimônio cultural do município pelo Decreto nº 200/2024 e passará por obras para funcionar como centro pedagógico e cultural.
Teatro Carlos Gomes – 1927
Funcionando inicialmente para exibição de filmes e peças de teatro, o Teatro Carlos Gomes foi projetado em 1925 e construído entre 1925 e 1927. Seu projeto inicial é de autoria de André Carloni, italiano de Bolonha que veio para o Espírito Santo em 1890.
Ponte Florentino Avidos – 1927
Conhecida como “Cinco Pontes”, ela é um ponte composta de aço construída na Alemanha e inaugurada em 1927, durante o governo de Florentino Avidos. Trata-se da primeira ligação estruturada entre a Ilha de Vitória e o Continente. Junto com a atual Ponte Seca, foi tombada pelo IPHAN em 1986.
Segundo Patrícia, as obras que marcam este período foram possibilitadas pela riqueza oriunda da produção de café. “Esses projetos resultaram na modernização da capital capixaba e seu entorno, especialmente para atender às demandas portuárias”, explicou.
Reflexo da história recente
Para finalizar, é sempre importante destacar as construções que contam o “agora” e que que também vão servir como testemunha para explicar para as futuras gerações os detalhes deste período. A exemplo disso, ganham destaque:
Terceira Ponte – 1989
A Ponte Deputado Darcy Castello de Mendonça, conhecida como Terceira Ponte, é a maior obra já realizada no estado e uma das maiores do Brasil, tornando-se um dos cartões-postais do Espírito Santo.
Com 3,33 km de extensão e um vão principal de 70 m de altura, ela permite o acesso de navios de grande porte à baía de Vitória. Inaugurada em 23 de agosto de 1989, os estudos para sua construção remontam à década de 1 TCC960.
Ponte da Passagem – 2009
A Ponte da Passagem foi inaugurada em 1930 pelo governador Florentino Avidos. A primeira ponte estaiada do Espírito Santo (sem ancoragens e cabos presos aos pilares). Símbolo da modernidade da cidade, substituiu a “pinguela da passagem” do período colonial. O projeto da nova ponte foi concebido pelo engenheiro Karl Meyer, utilizando aproximadamente 1.800 toneladas de aço estrutural de alta resistência à corrosão.
Grande Buda – 2020
O Grande Buda de Ibiraçu é uma estátua de Buda localizada no Mosteiro Zen Morro da Vargem, em Ibiraçu. Com 35 metros de altura, é a maior estátua esculpida do Buda no Ocidente, maior que o Cristo Redentor. Pesa cerca de 350 toneladas e é feita em aço, ferro e concreto.
Segundo Patrícia, essas três últimas obras refletem a história recente do Espírito Santo, destacando o crescimento econômico e a modernização do estado. “O Grande Buda, às margens da BR-101, tornou-se ponto de visitação obrigatório para os que passam por essa importante rodovia”, finalizou.
Afinal, o que um projeto precisa ter para se tornar um monumento arquitetônico?
De acordo com a professora do departamento de arquitetura e urbanismo da UFES, Luciene Pessotti, os monumentos arquitetônicos são obras, em geral, que foram concebidas para ter proporções de destaque no conjunto urbano onde se inseriram, sendo, dessa forma, referências na paisagem.
“A noção de monumento arquitetônico está associado ao valor atribuído ao edifício. Muitas vezes, tem a finalidade de transmitir esses valores para além do presente, perpetuando-os no futuro”, explicou.
Segundo a professora, um monumento arquitetônico pode ser entendido como um elo entre o passado, o presente e o futuro. “Os momentos nos informam e ensinam valores de outrora, que sempre serão ressignificados ao longo da história”, reforçou.
É importante destacar que um monumento arquitetônico pode ter sido projetado para essa função, como a estátua do “Grande Buda” como pode ser também uma escolha da sociedade em um dado momento da história, como a “Estação Ferroviária de Vitória”.
“O importante é seu valor histórico e simbólico, pois, a esses marcos arquitetônicos estão vinculados nossa história, memória e identidade”, finalizou.
Arquitetura: surgimento, influência e impacto social
A arquitetura não se limita apenas à estética dos prédios. Ela também influencia diretamente a forma como as pessoas vivem e interagem com o ambiente. Os espaços construídos são responsáveis por moldar a sociedade de diversas maneiras. De acordo com a professora Luciene Pessotti, a arquitetura e as cidades surgiram com o desenvolvimento da sociedade.
“Com a necessidade de ter espaços seguros para habitação, atividades laborais, de defesa e de culto, entre outros, o homem passou a organizar ambientes. Embora não haja uma data precisa para o surgimento das obras de arquitetura, há registros de algumas destas construídas no período da pré-história”, contou.
Segundo ela, é importante destacar que as obras arquitetônicas possuem, além de princípios técnicos, pontos ligados a um sentido ou propósito. “Mais do que ordenar um espaço interno e externo a arquitetura nos influência, pois, dá sentido aos lugares”, destacou a arquiteta.
A exemplos disso se tem as pirâmides do Egito antigo, símbolos da riqueza e do poder dos faraós, e as igrejas medievais, símbolos da fé cristã e do poder da Igreja católica.
Já quando o assunto é o impacto prático na sociedade, podemos citar as cidades muradas medievais, criadas para proteger os habitantes de invasões inimigas, enquanto as fábricas do século XIX foram projetadas para maximizar a eficiência e a produção em massa.
Seja de uma forma ou de outra, Luciana assegura que os homens ao longo da história demonstraram sua relação com os valores sociais, políticos, religiosos, entre outros, através de obras arquitetônicas.
Na atualidade, a arquitetura continua a ter um impacto significativo na sociedade. Os edifícios e espaços que são criados têm um impacto direto na forma como as pessoas vivem, trabalham e se relacionam.










E o casario histórico do Porto de São Mateus? Qualquer lista sem isso é muito falha.
E a igreja Matriz Antiga de Guarapari construída por nada menos que São José de Anchieta ainda no século 16
E o Sítio Histórico Porto de São Mateus, local aonde desembarcava navios com negros escravizados. Além das ruínas da igreja velha, no centro da mesma cidade, construída por escravizados com pedras e óleo de baleia, como fica?
E a capela Santa Luzia? perto da Catedral. de 1540.
E a igreja de N. Sra das Neves, em Presidente Kennedy, patrimônio estadual?