Após um processo de produção colaborativa, o espetáculo de dança contemporânea Célula está pronto e vai ser apresentado para o público nos dias 29 e 30 de abril, às 19h, na Fafi, Centro de Vitória. O espetáculo, que é gratuito e contará com intérprete de libras, investiga o corpo em colapso e regeneração, trazendo a reflexão de que em um mundo onde as pessoas nascem moldadas e crescem tentando se encaixar, a busca pelo que é essencial torna-se uma batalha contra a sociedade, mas também contra si mesmo.
A diretora cênica do espetáculo, Endi, afirma que a expectativa é atrair um público bastante diverso. “Esperamos pessoas interessadas em dança e artes cênicas, mas também um público das artes visuais e plásticas e também da moda e da música, já que nosso trabalho se constrói a partir do trabalho autoral de cada componente da equipe, desde a performance do elenco e a trilha sonora, até a composição de figurino e cenografia”, diz.
A pesquisa feita para o espetáculo parte do conceito de corpo dócil, de Michel Foucault, que é um corpo moldado, vigiado e disciplinado pela sociedade. Parte também do conceito de Antonin Artaud, de corpo sem órgãos, que se rebela contra toda estrutura, que dissolve suas funções e se reinventa a partir do desejo. O corpo dócil, vigiado e disciplinado, começa a se fragmentar. A desordem, por sua vez, abre espaço para o renascimento de um corpo sem órgãos — livre, pulsante e imprevisível.
A proposta de Célula é uma dança de mutações: corpos que morrem para renascer, que se dividem para multiplicar, que se dissolvem para encontrar o próprio centro. O processo criativo está sendo estruturado como um laboratório de pesquisa em dança contemporânea, articulando práticas corporais, estudos teóricos e experimentações cênicas.
O ambiente de criação foi pautado pela escuta e pela colaboração, reconhecendo em cada participante um território singular de investigação e expressão. No dia 27 de março, no Espaço Cultural Má Companhia, no Centro de Vitória, aconteceu o ensaio aberto do espetáculo. Na ocasião, foi apresentado para o público o que havia sido pensado até então para o espetáculo, que estava em fase de construção. Além disso, houve um bate-papo sobre esse processo com o público, que pôde fazer suas contribuições para a montagem.
“A gente pôde experimentar a funcionalidade e praticidade tanto da parte cênica quanto do figurino, acessórios e cenografia, além de ter um retorno da equipe quanto a isso e também um retorno do público quanto a elementos narrativos”, avalia Endi, que acrescenta: “foi bem legal, pois recebemos elogios de todos os setores, desde o figurino e cenografia, até a trilha sonora, iluminação e interpretação. Deu um gás para a equipe continuar o trabalho”, diz Endi.
Esse processo de construção colaborativa não começou com o ensaio aberto, já que Célula selecionou, no final de 2025, cinco pessoas para composição do corpo cênico (intérpretes-criadores) e uma para atuar como auxiliar de direção, que estão trabalhando de forma remunerada.
Os interessados não precisavam ter formação prévia em dança. Como forma de valorizar a diversidade e a inclusão, foram priorizadas pessoas negras, indígenas, LGBTQIAPN+, gordas, com deficiência e as que têm mais de 45 anos, que participaram de formações e encontros de criação do projeto, voltados à investigação de práticas anticoloniais nas artes da cena.
Endi, que é pesquisadora em dança, artista multimídia e produtora cultural, além de atuante na criação de obras que atravessam corpo, dança e audiovisual, afirma que já tinha um roteiro pré-estabelecido, mas aberto pra nortear, junto com a equipe, movimentos e direcionamentos, por exemplo. “Em uma construção colaborativa chegamos a um formato para experimentação, pois tem coisas que queremos fazer com interação com o público, e o ensaio aberto nos possibilitará isso”, diz. A turnê do espetáculo está prevista para abril deste ano.
Capixaba de Vitória e pessoa com deficiência (visão monocular), Endi desenvolve desde 2016 uma investigação centrada no corpo como campo de fricção entre opressão, libertação e imaginário, dialogando com temas como performatividade, subjetividade, dissidências, espiritualidade e futuridades.
Formada em Dança Contemporânea pela FAFI e com uma passagem pelo curso de Licenciatura em Dança da Universidade Federal da Bahia (UFBA), é diretora, roteirista e performer em mais de quinze obras, técnica em Modelagem do Vestuário, formada pelo Centro Estadual de Educação Tecnológica Vasco Coutinho, e acumula formações em figurino, roteiro, videodança e processos de criação.
Sua pesquisa se materializa em obras que tensionam corpo, política e poética, criando experiências sensoriais que investigam limites, fragilidades, rupturas e metamorfoses. A montagem do espetáculo está sendo possível por meio do edital 10/2023 – Artes Cênicas – da Secretaria Estadual de Cultura (Secult), com recursos do Funcultura.









