Santa Teresa inaugura, nesta quarta-feira (1º de abril), o Grupo Escultórico Via Sacra, obra pública da artista capixaba Vania Cáus. Instalado em via urbana, o conjunto é composto por 14 estações distribuídas ao longo de aproximadamente 1 quilômetro, propondo uma releitura contemporânea da narrativa cristã. Segundo a artista, cada estação apresenta estruturas de cerca de 2,5 metros de altura e peso aproximado de 1 tonelada, construídas sobre base de alvenaria e revestidas com mosaicos que combinam materiais como vidro, cerâmica, pedra, murano, metais e madeira.
A proposta articula escultura, instalação, pintura e mosaico em um percurso contínuo aberto ao público. O projeto, parte de referências como altares e oratórios, associados a uma abordagem contemporânea da arte pública.
A obra também dialoga com a tradição do mosaico e com influências de Antoni Gaudí, especialmente no uso de superfícies fragmentadas, explicou. Autora também do monumento às paneleiras de Goiabeiras, em Vitória, nesta entrevista Vania Cáus fala sobre Via Sacra, tradição e mosaico
ES Hoje: Como surgiu a proposta da Via Sacra em espaço público?
Vania Cáus: A proposta nasce de uma relação pessoal com a iconografia religiosa e com imagens presentes na vida cotidiana, como oratórios e altares, que sempre fizeram parte do meu repertório visual. Ao longo do tempo, essa presença se transformou em campo de investigação artística, não apenas como tema, mas como estrutura simbólica capaz de atravessar diferentes contextos. Trazer a Via Sacra para o espaço público foi uma forma de deslocar essa tradição, ampliando o acesso e permitindo que ela dialogue com a cidade. Isso faz com que a obra deixe de ser apenas devocional e passe a operar também como experiência estética, aberta a múltiplas interpretações.
Qual o papel do mosaico no projeto?
O mosaico é a base da linguagem do trabalho e cumpre uma função estrutural. Ele permite trabalhar com fragmentos, o que gera uma construção visual feita por partes, criando variações de textura, cor e reflexão. Ao longo do dia, a incidência de luz modifica a percepção das superfícies, o que faz com que a obra não seja fixa. Além disso, o uso de materiais diversos amplia essa complexidade, produzindo uma superfície viva. O fragmento também tem um papel conceitual importante, pois sugere recomposição e processo, algo que se constrói a partir de elementos distintos e que dialoga com a própria experiência do percurso.

Qual a importância da escala?
A escala foi pensada para garantir presença e permanência no espaço urbano. As peças, com cerca de 2,5 metros de altura e aproximadamente 1 tonelada, estabelecem uma relação direta com a paisagem, funcionando como marcos ao longo do trajeto. Essa dimensão permite uma leitura em diferentes distâncias: de longe, o conjunto se apresenta como sequência contínua; de perto, revela detalhes da materialidade e da construção em mosaico. O peso também reforça a ideia de permanência, indicando que se trata de uma obra pensada para durar e se integrar ao cotidiano da cidade.
Como o público se relaciona com a obra?
A relação se dá pelo deslocamento. O público é convidado a percorrer as 14 estações, criando uma experiência que envolve tempo, corpo e observação. Não há um único modo de fruição, e isso é um aspecto importante do projeto. Cada pessoa pode caminhar no seu ritmo, parar em determinadas estações, retornar ou simplesmente atravessar o percurso. O ambiente urbano também interfere diretamente nessa experiência, com variações de luz, clima e presença de outras pessoas. Esses elementos tornam cada percurso único, ampliando as possibilidades de leitura e interpretação.
Como a obra dialoga com a tradição?
Existe um reconhecimento da narrativa da Via Sacra, mas sem a intenção de reprodução literal. A proposta é trabalhar com essa estrutura como referência, permitindo liberdade formal na construção das imagens. O uso do mosaico, a escala das peças e a inserção no espaço público já produzem um deslocamento em relação à tradição. Ao mesmo tempo, elementos simbólicos permanecem, possibilitando identificação por parte do público. Esse equilíbrio entre continuidade e transformação permite que a obra seja compreendida tanto como expressão cultural quanto como proposição contemporânea, aberta a diferentes leituras.













