Cena cultural capixaba se despede do professor artista Marcos Martins

Faleceu na manhã desta quinta-feira (18) o professor artista – como se intitulava – Marcos Martins. Ele professor do Departamento de Artes Visuais da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) desde 2010, e estava em Fortaleza, no Ceará.

De acordo com comunidade acadêmica e artística capixaba, Marcos deixa um legado incomensurável. Sua última exposição artística foi “Pele Abissal”, onde apresentou 23 anos de produção artística.

Marcos Paulo Martins de Freitas tinha formação em arquitetura, estudo que ele afirmava ter contribuído de forma significativa na sua jornada com a arte contemporânea. “Muito especialmente pela possibilidade de gestar, a partir da arte, uma crítica contundente aos projetos desalmados, disfarçados de “boa arquitetura””, disse a ele recentemente a ES Hoje.

Sua obra tinha um olhar cuidadoso na política, social ou econômica e, sobretudo, no contexto social e à preservação da natureza. “E em especial, a crítica ao que nomino de um programa de desumanização operado pelas anti-arquiteturas, que se manifestam no espaço público como instrumentos de hostilidade, a exemplos da arquitetura hostil, nos bancos de praças, com elementos que individualizam o assento como forma de impedir o corpo de se deitar”, dizia.

Na arte seus pensamentos eram permeados pela essência do corpo e do abrigo como essência, motivados pela arquitetura como morada, afeto e memória.

Artista visual e arquiteto, atuou como gestor da Galeria de Arte e Pesquisa (GAP) nos períodos de 2010 a 2014 e de 2018 a 2019. Foi professor de Escultura na UFES e dizia que essa experiência acadêmica influenciava sua prática artística no lugar de professor-artista.

“Este lugar me agracia com experiências ímpares de escutas e trocas. Nesse processo, aprendo com todes as/os alunes, ao buscar oferecer uma experiência de pausa e reflexão – um olhar pra si mesmas/os. Penso que essa desconstrução primeira, essa experiencia de olhar-se no espelho, revisitar o porão da alma, contribui para a produção com sentido, com raiz, mas também e, sobretudo, com a experiência crítica e reflexiva de seus processos e pesquisas artísticas, não apenas como produção técnica”.

As inquietudes de Marcos se debruçavam nas questões do corpo e a natureza como abrigo, cuja eco arquitetura transcendiam a técnica para dar lugar ao fazer ancestral como poética de restauro humano e da terra.

Antes de falecer, e sem mesmo ES Hoje saber, deixou nesta conversa um conselho aos jovens artistas: “ouçam a si mesmos. Auscultando suas essências e existências, até mesmo experienciar descer no porão de suas almas, e lá, dentro de si, retirar a poeira daquilo que se esconde no silêncio, e que grita para ser ouvido e visto. (…) Dialoguem com esse corpo, insistam nos processos, não tenham medo de errar – o  erro é uma forma diferente de acertar; Visitem mais museus e exposições e como as crianças, sejam curiosos, autênticos e críticos. Por fim, busquem artistas como referências e não como inspirações, sejam persistentes, mas, nunca arrogantes, pois a arrogância cega a sabedoria. Sejam responsáveis com as outras pessoas e escutem mais, já que a escuta é o professor da fala”.

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