Um levantamento da NielsenIQ, divulgado em maio de 2026, mostra que 42% dos consumidores brasileiros já usam ferramentas de inteligência artificial para pesquisar preços, comparar produtos ou reduzir o número de alternativas antes de fechar uma compra. O dado ganha relevância nesta terça-feira (15), Dia do Cliente, e sinaliza uma mudança estrutural que já exige resposta das empresas: a disputa por atenção do consumidor migra, em parte, dos mecanismos de busca tradicionais para os sistemas de inteligência artificial.
Comércio agêntico ganha corpo entre os brasileiros
De acordo com o relatório The Agentic Commerce Report, da Worldpay, 57% dos brasileiros apontam rapidez e conveniência como principais razões para considerar o chamado comércio agêntico — modelo em que agentes de inteligência artificial pesquisam, comparam e podem até concluir compras em nome do consumidor. O levantamento projeta que, em cinco anos, 11% das compras dos brasileiros serão feitas por bots de IA, e que 39% dos consumidores já estão dispostos a testar esse modelo nos próximos 12 meses.
“O consumidor define suas preferências e estabelece parâmetros como faixa de preço, marcas e tipo de produto, permitindo que o sistema atue dentro desses limites.” — Eduardo de Barros, CEO da IDK Brasil
Para Kenneth Corrêa, professor de MBA da Fundação Getulio Vargas (FGV) e especialista em estratégia digital, o efeito mais imediato dessa mudança está na própria experiência de compra, que passa a ser mais conversacional: o consumidor descreve o que procura e recebe recomendações contextualizadas, sem precisar navegar por filtros e páginas.
O que muda na estratégia digital das empresas
A principal implicação para o setor produtivo é a necessidade de reposicionar a presença digital das marcas. Segundo Eduardo de Barros, a competição deixa de ser apenas por cliques em mecanismos de busca tradicionais e passa a ser por relevância dentro dos modelos de inteligência artificial — o que exige informações de produto consistentes, atualizadas e estruturadas para serem interpretadas por esses sistemas antes de chegar ao consumidor.
“Quando você coloca um agente para tomar uma decisão, a qualidade e a atualidade do dado passam a ser determinantes.” — Alan Mareines, CEO da Lina Open X
Rodrigo Cruz, vice-presidente de Estratégia de Crescimento e Inovação de Portfólio da Keyrus no Brasil, reforça que o desafio ultrapassa o marketing digital e chega à governança de dados das empresas: estoque desatualizado ou descrição técnica limitada pode levar um agente de IA a descartar uma oferta em milissegundos, o que torna a eficiência operacional um fator direto de competitividade comercial.
Pagamentos e execução automatizada ganham espaço
O avanço do comércio agêntico também pressiona a infraestrutura de pagamentos. Para Gustavo Siuves, CRO da Azify, o checkout deixa de ser apenas a etapa final da transação e passa a integrar a jornada contínua do cliente, conectando-se a serviços financeiros e outras fontes de receita. Já Alan Mareines, CEO da Lina Open X, destaca que o Open Finance cria a infraestrutura para que agentes de IA, mediante autorização do usuário, avancem da simples recomendação para a execução de transações — como um Pix ou a contratação de uma operação de crédito —, ainda que decisões mais sensíveis continuem exigindo validação humana.
Público 40+ também está no jogo
A adesão a essas ferramentas não se limita aos consumidores mais jovens. O estudo “40+: Poder, Consumo e Novos Significados”, da MindMiners, mostra que 80% dos brasileiros com mais de 40 anos se sentem confortáveis usando recursos digitais no dia a dia, 67% já compram online e 49% utilizam ferramentas de inteligência artificial, como ChatGPT, Gemini e Copilot, na jornada de compra. Para as empresas, o dado reforça que a simplicidade da experiência pesa mais do que a idade do público na adoção de novos canais.
Apesar do avanço da automação, especialistas ponderam que fatores como preço, prazo de entrega e reputação da marca continuam decisivos na conversão. “A tendência é que a IA se torne uma camada adicional de apoio à decisão, e não um substituto do senso crítico do consumidor”, avalia Thiago Muniz, professor da FGV e CEO da Receita Previsível e B2B Stack. Para as empresas, o recado é direto: a partir de agora, ser encontrado por um cliente também significa ser compreendido por um algoritmo.










