O avanço desenfreado das apostas de quota fixa, as chamadas bets, deixou de ser apenas uma opção de entretenimento no celular para se transformar em um grave problema econômico e social no Espírito Santo. Um estudo inédito realizado pela Connect Fecomércio-ES em parceria com a FAESA revelou que, apenas no mês de junho de 2026, as bets movimentaram R$ 397,7 milhões no estado — um montante equivalente ao orçamento anual de municípios capixabas de médio porte, como Nova Venécia.
Em um período de 18 meses (entre janeiro de 2025 e junho de 2026), o número de apostas no estado saltou 47,5%, com a quantia total movimentada crescendo 48,5%. No total, estima-se que 380 mil capixabas — cerca de 12% da população com 16 anos ou mais — apostem ativamente pela internet.
Perfil do apostador e o impacto nas famílias de baixa renda
Os dados do estudo acendem um sinal de alerta vermelho sobre como as apostas estão corroendo o orçamento familiar, sobretudo nas faixas de menor renda. Cerca de 186,9 mil apostadores no estado pertencem a famílias que vivem com até dois salários mínimos.
Além disso, o levantamento mostra que 18% dos apostadores gastaram mais de R$ 500 em um único mês. Quando analisado o grupo familiar com renda de até dois salários mínimos, quase 60% dos praticantes realizaram apostas superiores a R$ 100 por mês.


O coordenador da pesquisa, André Spalenza, ressaltou a relevância do estudo no momento em que o país debate a regulamentação do setor e explicou que os recursos aportados estão saindo diretamente de necessidades básicas da população.
“A gente está falando de um mês, junho de 2026, em que as bets movimentaram R$ 397,7 milhões, que é o orçamento de uma cidade como Nova Venécia, por exemplo. De janeiro de 2025 a junho de 2026, alcançamos quase 50% de aumento no número de apostas. É um fenômeno que ganha escala, passa da economia e vai para a saúde: mais de 500 atendimentos no SUS”, pontuou Spalenza.


“A gente entende o quanto isso impacta o consumo do básico de vida. Não é entretenimento, é comida, é o que mais importa na sobrevivência”, alertou o coordenador do estudo.
Outro ponto destacado pela pesquisa refere-se ao recorte de gênero no Espírito Santo. Ao contrário do cenário nacional, onde a presença masculina é amplamente dominante entre os apostadores, no mercado capixaba os gêneros estão quantitativamente muito próximos, embora com perfis de gasto distintos: as mulheres representam a maioria nas apostas de valores menores (até R$ 50), enquanto os homens se concentram nas faixas de gasto intermediárias e mais elevadas.
Reflexos no comércio, no emprego e na saúde pública
O comprometimento da renda com o jogo já se reflete no varejo e nos serviços locais. A renda antes destinada ao consumo de bens, lazer, vestuário e quitação de dívidas passa a ser drenada pelas plataformas digitais, afetando a circulação de dinheiro na economia capixaba.
O vice-presidente da Fecomércio-ES, José Carlos Bergamin, enfatizou as consequências do problema para as estruturas familiares e para o mercado de trabalho regional:
“Há uma camada diretamente mais afetada, porque os jogos extrapolaram o lazer e passaram a ser um problema profundo para as famílias e a sociedade. Não sabemos onde vai se dar a decisão do Governo Federal sobre o fim das autorizações, mas é responsabilidade nossa tratar o caso com clareza e informação, para que seja tratado com a devida profundidade. Assuntos estruturantes precisam ser tratados com estrutura, e família é estrutura. E os jogos mexem diretamente com as famílias. O assunto é de interesse coletivo, fala de saúde mental e economia”, declarou Bergamin.
“Os setores que fazem parte da Fecomércio movimentam mais de 700 mil empregos no estado, e estamos vendo as empresas também sofrerem com isso. Por isso, a Federação tem o papel de buscar dados e levar informações às empresas e à sociedade. Os jogos on-line, em muitos casos, entram na vida em busca de melhorar a qualidade de vida, mas levam para o caminho oposto”, completou o vice-presidente.
Da tela para o SUS: reflexos na saúde mental
A pesquisa também levantou o impacto do jogo compulsivo no sistema público de saúde. Entre janeiro e julho de 2026, a rede do Sistema Único de Saúde (SUS) no Espírito Santo registrou 564 atendimentos médicos e psicológicos relacionados a problemas causados pelas bets, envolvendo 247 cidadãos — a maioria composta por adultos jovens em idade produtiva e de baixa renda.
A recorrência dos atendimentos demonstra que os efeitos da dependência em jogos são duradouros e exigem acompanhamento continuado, com quadros frequentes de ansiedade, depressão, endividamento e conflitos familiares graves.










