Investir automaticamente pode ser uma forma de criar disciplina sem depender da força de vontade do investidor a cada mês. A lógica é programar previamente quanto, quando e onde aplicar e deixar que a instituição financeira faça os aportes de forma recorrente.
Para a pesquisadora e ex-presidente da Iarep (Associação Internacional para Pesquisa em Psicologia Econômica), Vera Rita de Mello Ferreira, a estratégia funciona justamente porque elimina a necessidade de tomar uma nova decisão a cada aplicação. O dinheiro é direcionado para o investimento antes mesmo de passar pela conta do consumidor, o que também pode reduzir a chance de ele ser gasto.
“Dinheiro na mão é vendaval. Quando você automatiza, ele nem passa na sua mão: já vai diretamente para uma aplicação que você escolheu”, diz Vera.
Na prática, bancos e corretoras oferecem diferentes formas de automatizar investimentos. Em geral, o valor é debitado diretamente da conta do cliente, e não há uma taxa específica pela utilização da ferramenta. Permanecem, porém, os custos próprios de cada investimento, como taxas de administração e tributos.
Geralmente, o cliente pode escolher o valor e a data do aporte, embora existam exceções, dependendo do produto. O valor mínimo também costuma seguir as regras do investimento escolhido: uma previdência pode aceitar aplicações a partir de R$ 1, por exemplo, enquanto fundos e títulos do Tesouro Direto têm valores mínimos que variam conforme o produto.
Os agendamentos também podem ser alterados ou cancelados na maior parte das plataformas, geralmente pelos próprios aplicativos ou canais digitais.
Se não houver saldo suficiente na conta na data prevista, o aporte normalmente não é realizado, mas há exceções entre as instituições. O Bradesco, por exemplo, faz novas tentativas de débito no mesmo dia, enquanto o C6 diz que, no caso da previdência, uma nova tentativa ocorre no mês seguinte e pode haver uso do cheque especial, caso o cliente tenha esse serviço.
Ter os aportes programados, porém, não significa que o investidor possa deixar de acompanhar a carteira. Para Robson Ortis, planejador financeiro CFP pela Planejar, uma revisão semestral costuma ser suficiente para avaliar a alocação dos recursos e ajustar o peso dos investimentos de acordo com o perfil do investidor e as mudanças do cenário econômico.
Para Vera, a estratégia transforma a inércia, que pode levar à procrastinação e à falta de ação, em uma aliada. “Você tomou a decisão mãe, que era investir automaticamente. Depois disso, você não precisa mais pensar no assunto”, afirma.
A especialista acrescenta que a lógica da automatização também pode ser aplicada quando a renda aumenta. Segundo ela, o investidor deveria elevar automaticamente o valor dos aportes sempre que receber um aumento salarial, aproveitando o dinheiro adicional antes que ele seja incorporado aos gastos do dia a dia.
COMO DEFINIR O VALOR E O PRODUTO QUE SERÁ APLICADO TODOS OS MESES?
Ortis diz que o primeiro passo é inverter a lógica de “investir o que sobrar”. Em vez de pagar as despesas do mês e aplicar apenas o dinheiro restante, o investidor deve tratar o aporte como uma prioridade, uma espécie de conta paga para o próprio futuro.
Para definir quanto investir, o especialista afirma que o ideal é começar pelo orçamento familiar, colocando na conta todas as receitas e despesas. A diferença entre os dois mostra quanto a pessoa é capaz de poupar.
A partir daí, o formato do aporte pode variar conforme a renda. Para quem tem salário fixo, como um trabalhador CLT, Ortis diz que pode fazer mais sentido estabelecer um valor mensal. Já para quem tem renda variável, como um autônomo, um percentual da renda pode ser mais adequado. Também é possível combinar os dois modelos, com um aporte fixo mensal e uma parcela adicional destinada a ganhos extras, como uma renda complementar ou um bônus.
Na escolha do ativo, a recomendação do especialista é partir do objetivo, e não do produto. O investidor pode separar o dinheiro para diferentes finalidades — como uma reserva de emergência, uma viagem ou a aposentadoria — e escolher os investimentos de acordo com o prazo e as características de cada objetivo.
Para ele, no entanto, a prioridade deve ser a reserva de emergência, mantida em investimentos com liquidez diária. Com essa proteção formada, os demais aportes podem ser direcionados a investimentos de médio e longo prazo. Entre as opções disponíveis para quem está começando, o Tesouro Direto pode atender a diferentes objetivos, segundo Ortis, por reunir títulos com características distintas, incluindo diferentes prazos e mecanismos de proteção contra a inflação.
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – JÚLIA GALVÃO










