Banco Central reduz Selic a 14% ao ano sem antecipar próximos passos

O Copom (Comitê de Política Monetária) reduziu nesta quarta-feira (5) a taxa básica de juros para 14% ao ano, com um corte de 0,25 ponto percentual na Selic pela quarta vez seguida. O novo recuo consolidou um dos ciclos mais suaves de queda promovidos pelo Banco Central desde a criação do sistema de metas para a inflação, em 1999.

No comunicado, o colegiado não antecipou seus próximos passos e voltou a dizer que o tamanho total do ciclo será estabelecido “à luz de novas informações”, diante dos riscos associados à trajetória dos preços. “O comitê seguirá acompanhando a evolução do cenário de forma a manter a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”, disse.

A decisão oi unânime e já era dada como certa pelo mercado financeiro às vésperas do encontro. As instituições consultadas pela agência Bloomberg eram unânimes na aposta de que os juros cairiam em mais 0,25 ponto percentual.

O colegiado falou em “serenidade e cautela” na condução dos juros diante de uma conjuntura de maior incerteza, da piora das expectativas para inflação e dos riscos elevados em torno de seu principal cenário.

O comitê ajustou seu comunicado dessa vez e foi mais sintético depois dos ruídos provocados no encontro anterior. Em junho, o documento totalizava 847 palavras, contra 671 agora.

Naquela ocasião, o Copom trouxe uma análise alternativa, ao olhar de forma antecipada para o primeiro trimestre de 2028, intervalo de tempo que agora entrou efetivamente na mira do BC. A estratégia gerou desconfiança entre os agentes econômicos, que consideraram a comunicação da autoridade monetária confusa.

“A parte que apresentava um ruído maior, ao tratar do horizonte relevante e das simulações, foi retirada. No entanto, em outro parágrafo, o Banco Central ainda menciona o significativo aumento da incerteza, a desancoragem e os riscos, também adotando um tom um pouco mais duro do que no comunicado anterior”, afirmou Rafael Cardoso, economista-chefe do banco Daycoval.

A Selic acumula queda de 1 ponto percentual desde o início do processo de flexibilização, em março. Depois de a taxa básica ter ficado estacionada em 15% ao ano por nove meses, foram quatro cortes de mesma intensidade (0,25 ponto). Com isso, os juros chegaram ao menor patamar desde março do ano passado, quando estavam em 13,25% ao ano.

A diferença entre os juros dos Estados Unidos e do Brasil caiu para 10,25 pontos percentuais. Na semana passada, o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) decidiu manter as taxas na faixa entre 3,5% e 3,75%, com divergência de três diretores, que defendiam alta de 0,25 ponto percentual.

No cenário doméstico, o BC reconheceu que os indicadores evoluíram de maneira favorável à sua atuação, com desaceleração da inflação e moderação gradual da atividade econômica. Fez, contudo, uma série de ponderações. Chamou atenção para a resiliência da economia, com sinais mistos entre setores e mercado de trabalho aquecido. Além disso, demonstrou preocupação com os fatores que podem elevar os preços.

“O mercado de trabalho continua aquecido, mas a política monetária bastante contracionista parece ter começado a produzir efeitos nos últimos meses. Os dados já começam a mostrar uma certa desaceleração da economia”, disse José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos.

No cenário de referência do Copom, a estimativa de inflação para este ano caiu de 5,2% para 5,1%. Para 2027, a projeção subiu de 3,7% para 3,8%. O comitê também incluiu sua expectativa para o primeiro trimestre de 2028, em 3,2% –levemente acima do centro da meta (3%).

O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) desacelerou a 4,64% no acumulado de 12 meses até junho, puxado pela queda dos preços de alimentos. O mesmo comportamento foi observado na semana passada no índice que sinaliza tendência para a inflação oficial do país. Nos 12 meses até julho, o IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15) recuou a 4,52%.

Apesar da trégua recente, os dados seguem acima do teto da meta perseguida pelo BC. O alvo central é 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. No atual modelo, de avaliação contínua, o objetivo é considerado descumprido quando a inflação acumulada permanece durante seis meses seguidos fora do intervalo de 1,5% (piso) a 4,5% (teto).

Apesar do recuo da estimativa para o IPCA deste ano, a 5,03%, as projeções dos economistas para prazos mais longos estacionaram depois de nova deterioração. Conforme os dados do último boletim Focus, as previsões dos analistas para 2027 e 2028 subiram para 4,22% e 3,8%, respectivamente.

Com relação ao dinamismo da economia brasileira, a atividade tem dado sinais de desaceleração no segundo trimestre após o crescimento de 1,1% do PIB (Produto Interno Bruto) dos três meses iniciais do ano. Segundo os especialistas, os altos juros no país são a principal explicação para essa perda de ritmo.

“Os indicadores correntes de atividade mantêm-se consistentes com uma trajetória de desaceleração no acumulado de 2026. O comitê monitora com atenção a desancoragem [distanciamento] adicional das expectativas de inflação para prazos mais longos na medida em que esta contribui para a determinação dos preços e aumenta o custo de desinflação”, disse o Copom no texto.

Esse enfraquecimento poderá ser atenuado pelas medidas fiscais e de crédito anunciadas pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com potencial para impulsionar o consumo das famílias em ano eleitoral.

A questão fiscal foi mantida no balanço de riscos para a inflação, com o alerta de que novos estímulos podem atrapalhar o processo de queda da Selic. O Copom repetiu que “estímulos à demanda agregada, em particular ao componente de consumo”, podem enfraquecer os canais de transmissão da política de juros.

O colegiado do BC reafirmou que segue acompanhando como a evolução da política fiscal impacta a condução dos juros, “reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza.”

Ainda que os elementos que puxariam os preços para cima ou para baixo sejam os mesmos apontados na reunião de junho, o Copom disse ver uma “assimetria altista” no balanço, ou seja, avaliou que o risco de a inflação ficar acima do esperado é maior do que a ameaça de ficar abaixo.

Quanto ao cenário externo, o comitê ressaltou a incerteza relacionada aos conflitos armados no Oriente Médio e à política de juros de algumas economias avançadas, sem citar os EUA. Segundo o colegiado, isso exige cautela por parte de países emergentes, como o Brasil.

O preço do petróleo caiu na véspera do Copom depois de os EUA falarem em acordo com o Irã. Na terça (4), o barril Brent ficou abaixo de US$ 80 pela primeira vez desde 13 de julho.

Cinco das oito reuniões do Copom do ano foram realizadas com quórum reduzido, com desfalque de dois diretores. O próximo encontro está previsto para 15 e 16 de setembro.

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – NATHALIA GARCIA

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