Construção Civil sustenta 75 mil empregos no ES

Antes mesmo de uma obra ganhar forma, uma longa cadeia produtiva já está em movimento. Concreto, aço, materiais de acabamento, projetos de engenharia, transporte e diversos fornecedores entram em ação antes do primeiro tijolo ser assentado. Depois da entrega do imóvel, a movimentação continua com móveis, eletrodomésticos, manutenção e novos serviços.

No Espírito Santo, essa rede ajuda a dimensionar uma atividade que vai muito além dos canteiros de obras. A construção civil responde por cerca de 4,5% do Produto Interno Bruto (PIB) estadual e representa aproximadamente 8% dos empregos formais, segundo o Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN).

O setor reúne atualmente cerca de 75 mil empregos diretos no Estado, de acordo com o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Espírito Santo (Sinduscon-ES). A entidade estima que cada vaga criada gere impacto sobre outros três postos de trabalho nas cadeias de fornecedores e serviços.

Essa capacidade de movimentar diferentes segmentos torna a construção civil estratégica para a economia capixaba. O avanço das obras impulsiona a indústria de cimento, cerâmica, madeira, tintas e materiais elétricos; fortalece o comércio de acabamentos, móveis e eletrodomésticos; e amplia a demanda por arquitetura, engenharia, seguros, crédito e atividades imobiliárias.

Para o diretor-geral do IJSN, Antônio Rocha, o setor também transforma investimentos públicos e privados em infraestrutura capaz de ampliar a produtividade do Estado. Obras de habitação, logística, saneamento, mobilidade, energia e empreendimentos industriais criam condições para um crescimento mais sustentado. “A construção civil tem um papel estratégico para a economia porque combina o potencial de gerar emprego com a forte capacidade de mobilizar investimentos”, afirma.

Segundo o Sinduscon-ES, o bom momento é sustentado tanto pela construção imobiliária quanto pelas obras públicas. O vice-presidente da entidade, Leandro Lorenzon, destaca que os investimentos estaduais ajudaram a manter a atividade aquecida na Região Metropolitana e no interior.

No mercado imobiliário, Vila Velha concentra praticamente metade das obras em execução no Espírito Santo.

Juros elevados

Mesmo assim, o setor enfrenta desafios. Os juros elevados encarecem o financiamento para quem compra imóveis e aumentam o custo do crédito para construtoras e incorporadoras. “A taxa de juros onera a compra do imóvel pelo consumidor final e também as próprias construtoras. Quem precisa de capital de giro está pagando mais caro”, explica Lorenzon.

Apesar disso, o crescimento da economia, o aumento da massa salarial, a arrecadação em alta e a continuidade dos investimentos públicos ajudam a sustentar a demanda. Outro entrave é a demora nos processos de licenciamento urbanístico e ambiental, que, segundo o Sinduscon-ES, pode atrasar novos empreendimentos. A entidade também aponta a deficiência da infraestrutura em algumas regiões, onde redes de água e esgoto não acompanham o avanço da construção.

Ainda assim, o IJSN avalia que a estabilidade da economia estadual, a atração de investimentos e os aportes públicos mantêm um ambiente favorável para a geração de emprego e renda. A principal preocupação continua sendo o custo do crédito, influenciado pelo cenário nacional.

No Sinduscon-ES, a expectativa é de manutenção do crescimento no segundo semestre de 2026. As obras públicas já contratadas devem garantir a continuidade dos investimentos. No mercado imobiliário, uma eventual redução dos juros pode estimular novos negócios, embora em intensidade menor que a esperada anteriormente.

O período eleitoral também é acompanhado com cautela por aumentar a insegurança dos compradores. Ainda assim, a demanda por moradia segue aquecida, impulsionada pela formação de novas famílias e pelo crescimento da população. “A expectativa é de crescimento. Talvez não seja tão intenso quanto em outros momentos, mas a curva continua ascendente”, afirma Lorenzon.

Setor fortalece competitividade

Além da geração de empregos, a construção civil amplia a capacidade produtiva do Espírito Santo. Para o economista Vaner Corrêa, o setor prepara a infraestrutura necessária para atrair novos empreendimentos e aumentar a competitividade estadual.

Investimentos em rodovias, portos, galpões industriais, hospitais, escolas, condomínios e centros comerciais reduzem custos logísticos, fortalecem a formação de capital fixo, ampliam a arrecadação e estimulam novos investimentos privados.

“Mais do que construir edifícios e obras de infraestrutura, a construção civil constitui um importante mecanismo de dinamização do desenvolvimento econômico estadual”, afirma.

Vaner destaca ainda que tecnologias como Building Information Modeling (BIM), inteligência artificial, automação e industrialização dos processos construtivos devem elevar a produtividade e reduzir custos. Mesmo com desafios como juros elevados, burocracia e escassez de mão de obra qualificada, ele avalia que o Espírito Santo reúne condições para manter a construção civil entre os principais vetores do crescimento econômico.

 

Pequenas empresas acompanham expansão

O aquecimento também é sentido pelas pequenas construtoras. Especializada em reformas e obras residenciais, a G&G Construções retomou as atividades neste ano e já planeja ampliar as equipes para atender ao aumento da demanda.

Criada durante a pandemia por Gabriel Santana, pedreiro especializado em porcelanato, a empresa voltou a crescer em 2026 após uma pausa por questões pessoais.

Segundo Gabriel, a procura por reformas e construções aumentou nos últimos meses. O principal desafio, porém, é encontrar profissionais qualificados.

“Recebemos currículos com frequência, mas a maioria é de ajudantes. Encontrar um bom pedreiro, atualizado e preparado para serviços técnicos, como assentamento de porcelanato, tem sido cada vez mais difícil”, afirma.

Além das obras, a empresa produz pias esculpidas em porcelanato. A expectativa é manter o ritmo de crescimento e ampliar as contratações.

“A construção civil segue aquecida. Queremos continuar crescendo e contratar mais pessoas para atender à demanda”, conclui.

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