Por qual crime o indivíduo entrou na unidade prisional e onde mais ele quer estar dentro do crime? Basta essas respostas cercadas de desejo – ou da falta de enxergar outras possibilidades na vida – para que um interno do sistema penitenciário do Espírito Santo passe a fazer parte do Primeiro Comando da Capital – o PCC.
As regras não nasceram em território capixaba, uma vez que o PCC foi instituído – como os próprios membros descrevem – em agosto de 1993 no presídio do Tatuapé, no interior do estado de São Paulo. Desde lá, para se manter como um dos grupos criminosos mais perigosos do país, diversas regras foram criadas afim de, estabelecer o funcionamento e atrair novos integrantes.
Iniciado dentro de uma cadeia – “para resolver problemas que feriam a ética do crime – dentro e fora das prisões” – é nelas que as construções de principais condutas são definidas. E, a partir delas, é que surgem novas lideranças. E, para entrar, é preciso que o interessado preencha o que eles chamam de “cara crachá”.
Além do nome, a ficha cadastral quer os apelidos – “vulgo de origem” e “vulgo atual” -, locais de nascimento e atuação – “quebrada de origem”, “quebrada atual”, “bairro de origem”, “bairro atual” -, e o histórico prisional – “3 últimas cadeias”, “data de saída”, “data de batismo”, “local de batismo”, “codificação e artigo”, bem como idade, dívida, punição, padrinhos no crime e etc.
Para preencher a ficha são 20 itens cujo passo a passo foi ensinado por meio de uma carta que foi apreendida durante a Operação Sintonia, deflagrada em maio de 2023 pelo Grupo Nacional de Combate ao Crime Organizado (GNCOC). No Espírito Santo o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público estadual identificou que o cadastrado no PCC com matrícula do ES escreveu de próprio punho as orientações.
“Salve a todos os irmãos, companheiros leais ao PCC. Aqui, através desse ‘RL’ é o irmão ***, matrícula ***. Venho apresentar para todos terem ciência total do nosso ‘cara-crachá’, ferramenta usada no comando para os companheiros obterem suas matrículas dentro de nossa organização criminosa. Vou explicar para todos os integrantes entenderem a forma que se deve montar e como preencher da forma correta, antes de ser enviado para a central de cadastro”.
Os erros ortográficos da carta, cujo trecho foi descrito acima, e identificação de quem assinou não serão divulgados pela reportagem por recomendação da própria fonte. “Por uma questão de segurança, tanto do repórter quanto dos que estão nesta investigação, recomendo manter os dados em relação ao nome, vulgo e matrículas em sigilo”.
A fonte ainda explicou que esse cadastramento possibilita ao fichado obter vantagens como acesso a drogas de qualidade – para consumo e comércio -, dinheiro, transporte e estrutura de apoio dentro e fora da prisão.
Um chefe do PCC (Primeiro Comando da Capital) no Estado, Fernandes Andrade Soares, o Chapolin, foi um dos presos na Operação Sintonia. Com ele foi possível entender, por exemplo, a hierarquia do PCC. Aos 26 anos, ele estava com membros da facção criminosa na Vila Amália, zona norte de São Paulo, quando foi preso.
Chapolin tem passagem por homicídio, posse ilegal de arma de fogo. Sua prisão foi determinada pela 6ª Vara Criminal de Vitória, em mandato expedido também conta outras 23 pessoas, pelo menos.
Outro alvo da Sintonia, Rodrigo Borges, conhecido como Caçador, está foragido. Junto com Fernandes, ele é apontado como líder do PCC da Região Metropolitana da Grande Vitória.










