Enquanto casais disputam reservas em restaurantes, planejam viagens românticas e lotam as redes sociais com declarações apaixonadas, existe um outro grupo que decidiu transformar o pré-Dia dos Namorados em uma celebração da liberdade, do bom humor e das possibilidades. O chamado “2º Encontro dos Encalhados ES” promete reunir solteiros de diferentes idades em uma excursão marcada por música, turismo, descontração e, quem sabe, alguns flertes inesperados pelo caminho.
O evento acontece no próximo dia 6 de junho e vem chamando atenção justamente por abraçar, sem vergonha e com muito humor, um termo que durante anos foi tratado quase como ofensa. Agora, “encalhado” que era motivo de piada, virou título de conexão e até oportunidade para conhecer gente nova longe dos aplicativos de relacionamento.
Por trás desta ideia está a empresária Michele Oliveira Dórea, de 35 anos, responsável pela Michele Viagens & Turismo. Casada há 19 anos, Michele afirma que o projeto nasceu após perceber que os solteiros sempre acabavam esquecidos durante o período do Dia dos Namorados.

“Quando a gente divulgava pacotes para casais, os comentários começavam imediatamente: ‘E os solteiros?’, ‘Cadê o passeio para os encalhados?’. Aquilo começou a se repetir tanto que percebemos que existia um público enorme querendo viver experiências também”, conta.
Segundo ela, as excursões voltadas para solteiros já acontecem desde 2023, mas agora ganharam oficialmente o nome de “Encontro dos Encalhados”, justamente para transformar o estigma em algo leve e divertido. “O termo ainda é usado com preconceito, como se estar solteiro fosse fracasso. E eu vejo exatamente o contrário. Tem muita gente incrível solteira porque não aceita qualquer relacionamento ou simplesmente porque ainda não encontrou alguém compatível. Então resolvemos brincar com isso e criar um ambiente descontraído, sem pressão e sem julgamentos”, afirma.
A empresária explica que o perfil do público é bastante diverso, mas a maioria está na faixa entre 30 e 50 anos. As mulheres lideram a procura. “Elas são mais abertas para viver experiências diferentes. Muitas pessoas já têm carreira, independência financeira, vida organizada, mas sentem falta de conhecer gente nova fora da rotina tradicional”, diz.
E se depender do histórico das excursões anteriores, o passeio pode render mais do que fotos e novas amizades. Michele afirma que alguns relacionamentos começaram justamente em viagens organizadas pela agência. “Já vimos casais se formando e até casamento acontecer depois dessas excursões. Tem gente que chega solteira e volta praticamente namorando”, conta, aos risos.
Solteira, sim! Infeliz? Jamais!

A supervisora administrativa Kathleen Vasconcellos, de 33 anos, conhece bem a pressão social enfrentada pelos solteiros, especialmente pelas mulheres. Há quatro anos sem relacionamento, ela afirma que aprendeu a lidar melhor com a própria companhia e não vê problema algum em participar de eventos voltados para solteiros.
“Já fui em encontros assim com amigos para curtir e dar risada. E claro… se acontecer um match, ninguém vai reclamar”, brinca.
Kathleen diz que ainda existe uma cobrança silenciosa para que as pessoas estejam em um relacionamento. “A sociedade ainda passa essa ideia de que felicidade depende de casamento e filhos. Mas relacionamento não é sinônimo de felicidade. Às vezes é melhor estar solteira do que viver algo ruim só para dizer que tem alguém”, afirma.
Ela conta que costuma aproveitar o Dia dos Namorados ao lado de outros amigos solteiros, em bares e encontros descontraídos.
Os solteiros que ainda acreditam no amor
O representante comercial Ricardo Menezes, de 45 anos, entrou novamente para o time dos solteiros depois do fim de um relacionamento longo. Bem-humorado, ele admite que toparia facilmente participar de um evento voltado para “encalhados”. “Vai que, né?”, afirma, rindo.
Para ele, a proposta chama atenção justamente por fugir dos aplicativos. “Hoje em dia parece que relacionamento virou entrevista de emprego em aplicativo. Num evento assim as pessoas devem conversar naturalmente, sem tanta pressão, penso”.
Ricardo diz que ainda acredita em reencontros amorosos da vida: “Não perdi a esperança. Quem sabe eu não encontro alguém legal antes do Dia dos Namorados? Nunca se sabe”.
Já a arquiteta Fernanda Lopes, de 32 anos, admite viver um dilema moderno: quer namorar, mas não sabe se teria coragem de entrar oficialmente em um “evento dos encalhados”.
“Meu ego ainda não chegou nesse nível de maturidade”, brinca. Apesar disso, ela garante que a ideia desperta curiosidade: “Eu acho divertido, mas imagina encontrar alguém conhecido e ouvir: ‘Olha quem está no ônibus dos encalhados’. Acho que eu teria vergonha… mas também talvez acabasse indo escondida”, confidencia.
Fernanda acredita que conhecer pessoas presencialmente anda cada vez mais raro. “As pessoas hoje só flertam reagindo story. Ninguém mais conversa de verdade. Os homens precisam ter iniciativa, a maioria se comporta como ‘princesos’, querendo que tomemos iniciativa em tudo ”, comenta.
A repórter que conhece a causa
Durante a produção da reportagem, um detalhe chamou atenção da equipe de produção do ES Hoje: a identificação imediata da repórter com o tema. A jornalista Mary Martins, de 51 anos, solteira assumida e dona de um humor afiado quando o assunto é vida amorosa, afirma que não se considera encalhada, apenas “afetivamente em manutenção preventiva”.
“Eu não estou encalhada e não estou disponível para testes emocionais de curta e longa duração. Mas já está na hora de, quem sabe, ter uma companhia”, brinca.
Mary conta que toparia participar tranquilamente de um evento voltado para solteiros. “Dependendo da música, do clima e da conversa, eu entro no ônibus solteira e desço pelo menos com um contatinho salvo no WhatsApp”, afirma.
A jornalista diz que aprendeu a transformar a solteirice em leveza. “O segredo é não dramatizar. Não focar no que falta, aprender a se divertir e amar a própria companhia. Tem gente casada querendo a nossa paz de espírito. Ao mesmo tempo que uma companhia vai, vem. Chegar em casa e ter paz, não ter que dar satisfações, dormir e acordar sem ‘chifes’, não tem preço”, comenta.
No fim, talvez esse seja justamente o grande sucesso dos chamados “encontros dos encalhados”: transformar uma data tradicionalmente marcada pela pressão romântica em uma oportunidade de diversão, amizade e novas conexões, sem cobranças e sem roteiro definido.
Porque, para muitos solteiros, o maior medo já não é ficar sozinho. É passar o Dia dos Namorados ouvindo playlist sofrência enquanto o algoritmo insiste em anunciar jantar para casal.
Serviço
2º Encontro dos Encalhados ES
📅 Data: 6 de junho
📍 Embarques: Serra, Vitória, Vila Velha, Cariacica e Guarapari
💰 Valor: a partir de R$ 139,99 por pessoa
✔️ Incluso: transporte climatizado, guia credenciado e ingresso da Toca da Rota
🔞 Evento para maiores de 18 anos
📲 Informações: Instagram @micheleturismoes | WhatsApp (27) 99505-2662









